António José Seguro aproveitou a despedida da capital na campanha presidencial com um foco claro. Mostrar-se atento à inovação, defender o empreendedorismo e vincar a ideia de que a fixação de jovens depende da criação de riqueza. É uma forma de dizer que Seguro cumpriu a agenda económica que defende para desenvolver Portugal, mas também tem de ser analisada como estratégica para dar resposta a alguns dos quadrantes que votaram em Cotrim de Figueiredo ou em Marques Mendes, realçando ser um candidato que representa a juventude. Na manhã desta quinta-feira foi à DNA Cascais, uma incubadora de projetos empresariais, e à tarde, depois de almoço, ao Unicorn AI, um dos que pertence ao consórcio de empreendimentos, denominados hubs, com forte investimento tecnológico e cofinanciamento da Câmara Municipal de Lisboa.Lançada em 2021, a aglomeração empresarial de olhos virados para a Europa é galvanizada, vezes sem conta, por Carlos Moedas. Os tais unicórnios que o Partido Socialista criticou na campanha autárquica pela ordem de prioridades dada pelo social-democrata, mas que para o candidato mais votado na primeira volta são absolutamente decisivos. “É preciso aproveitar esta contagiante energia das empresas”, disse em encontro com um dos investigadores do HUB. Agarrou convictamente Bernardo, jovem que lhe relatou como desenvolviam, ali, sem pedido superior ou indicação governativa, uma aplicação que permitiria detetar no país, com relativa facilidade e prontidão, casas afetadas pelas intempéries, especificamente reconhecendo habitações sem telhados. “A Inteligência Artificial é fulcral e o país ainda não foi ao seu encontro. O Estado podia requisitar este tipo de trabalho, podia preparar-se. Falhou o casamento”, advogou Seguro.O candidato que reafirma a “estabilidade” e critica “os muitos ciclos curtos da política portuguesa nos últimos anos” passou a ser mais interventivo e assertivo sobre a gestão governativa nas últimas duas semanas. O mais votado da primeira volta quis relevar a tecnologia e a criação de valor adaptadas também à resolução de problemas estruturais. Espantado por saber que uma aplicação reduzira em 93% a demora em fisioterapia, pediu “sistemas únicos adotados pelo Governo” e responsabilizou o Estado por “organizar o talento e criar o ambiente que permita expandir e contagiar a dinâmica empresarial.” O plano de “sentar os partidos e procurar pactos” chega a todos os lados, até nas alterações climáticas, onde pede “metas, prazos e avaliação” para propostas concretas. .Seguro prometeu sempre a relação institucional, foi crítico na Saúde durante janeiro e levantou o tom com a resposta às intempéries. “Há algo que é claro para toda a gente. É que o Estado português não está preparado para situações desta natureza e tem de estar. Não se preparou para estas catástrofes e tem de o fazer. Tem de saber acudir as empresas, as pessoas. E não consigo compreender como é que ainda não se restabeleceu o fornecimento de energia elétrica e de água para a população”, destacou.Confrontado com a ausência de geradores e forma de garantir a preservação de materiais médicos como a insulina, atacou: “Continua a acontecer porque não houve planeamento nas cadeias de abastecimento”, lamentou, carregando, novamente, depois de almoço: “Estou há 11 anos completamente fora da vida pública. Agora, se me perguntam se fico chocado com a ineficiência do Estado na resposta às populações, fico. E, em alguns casos, fico indignado. Porque há situações que são fáceis de resolver.”Não quis, porém, retirar consequências políticas iminentes, recusando pedir demissões. “Enquanto existir uma família sem água ou sem luz, essa é a prioridade”.Cancelada a arruada vinda da Universidade de Lisboa, instituição pública, encontrou-se com jovens na privada Universidade Lusófona. Apontou as perguntas que lhe endereçaram e começou por dizer que “os jovens precisam de um país que oiça ideias e dê incentivos”, aproximando-se do que Montenegro decidiu transmitir na mensagem de Natal: “Isso seria um salto qualitativo no ecossistema, na mentalidade. Devemos fazer mais apostas nos jovens, os bancos correm poucos riscos para vos ajudar em projetos. E vocês são uma geração bloqueada”, disse, lembrando que nos anos 80 a adesão à União Europeia “criou portas” e “bastava ter uma licenciatura para ter emprego”, acrescentando que quer “desbloquear a rua e torná-la uma avenida aberta.”Avançou que terá metas concretas por cada ano de mandato caso seja eleito. A demografia está guardada para 2027, a Saúde, já o dissera, é a prioridade inicial. “Hoje [ontem], quis dedicar o dia aos jovens, quis assinalar e ganhar contributos”, afirmou, passando pela “mobilização de devolutos e pelas construções modulares, disponíveis em menos de um ano, como respostas na habitação”, apontando o dedo a uma “economia focada no mercado nacional”. O liberalismo económico de Seguro é nota dominante, apesar de pedir ao Estado “o estímulo e supervisão de projetos”.Viu alguns deputados como André Rijo, Miguel Costa Matos e Davide Amado ladearem-no. Mas não estão as figuras habituais e proeminentes do PS: na arruada na primeira volta tivera Prata Roque, Duarte Cordeiro ou Alexandra Leitão consigo. Seguro movimenta-se para a sociedade civil, teve o vereador independente João Maria Jonet a acompanhá-lo, recebeu cumprimentos de Diogo Feio, ex-deputado do CDS-PP. A presidência, que promete ser “equidistante”, tem apoiantes constantes, desde a primeira hora, e mantém-se, também certamente por vontade própria, sem os principais vultos do PS. Antes do comício com que terminou o dia, ao que foi possível apurar pelo DN, José Luís Carneiro, secretário-geral, não iria ao momento solene, guardando essa possibilidade para esta sexta-feira, no Porto. Nem Carneiro, nem qualquer outro líder partidário de PAN, Livre, Bloco de Esquerda e PCP, todos que lhe haviam expressado apoio público.Gestão de comunicação de Ventura incomodou ao longo do diaNotou-se o desconforto aumentar ao longo do dia, quando lia que Ventura crescia de tom e lhe pedia eleições adiadas em todo o território, apesar de esse não ser um pedido constitucional (ver aqui). Mesmo não tendo concretizado em direção ao líder do Chega, disse ver “muitos incentivos à desmobilização”, referindo que “o pior que poderia acontecer seria o país querer um Presidente e acordar num pesadelo.” O candidato mais votado na primeira volta foi ao ninho de startups de Cascais, onde viu pranchas a serem construídas. No discurso está claro: é proibido surfar a onda. Até quando os jovens quiseram tirar fotografias e lhe chamavam “futuro Presidente”, respondia, repetidamente: “Só se votarem. Sondagens não elegem presidentes.”A colocação de um possível adiamento eleitoral agudizou as preocupações quanto à subida da abstenção. “Têm de ser encontradas as soluções que favoreçam os portugueses no enquadramento legal e constitucional do país. São as autoridades portuguesas que se devem pronunciar sobre isso. Considero essencial que as eleições se realizem. Os portugueses, todos os portugueses, devem ter as possibilidades de votar. Se existiu voto antecipado na semana passada, não vejo nenhum problema em que, nos concelhos onde não se possa fazer a eleição, que se faça a eleição depois”, afirmou Seguro aos jornalistas, concordando que nos concelhos afetados esse cenário se coloque, contudo discordando da reivindicação do opositor, de que se pudesse alastrar a todo o território..Seguro alarmado com ação do Governo: "Estado não está preparado para situações de catástrofe e tem de estar".Comício de Seguro em Lisboa não terá líderes partidários .Seguro categórico sobre o pedido de adiamento das Presidenciais: "Eleições devem realizar-se"