Presidenciais 2026: das interações de Ventura ao 'engagement' de Jorge Pinto, como comunicam os candidatos nas redes sociais
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Presidenciais 2026: das interações de Ventura ao 'engagement' de Jorge Pinto, como comunicam os candidatos nas redes sociais

Ventura destaca-se pelo maior volume absoluto de interações, Cotrim Figueiredo combina alcance e envolvimento de forma mais equilibrada; Jorge Pinto aposta numa mobilização intensa junto de uma comunidade reduzida; Gouveia e Melo lidera em volume de atividade. Os restantes candidatos oscilam entre audiências amplas, envolvimento moderado e dificuldades em gerar tração digital consistente.
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A comunicação política digital dos candidatos às eleições presidenciais de 2026 tem estado mais orientada para a manutenção da relação com os seguidores do que para a mobilização eleitoral ou a conquista de novos eleitores. A conclusão é de um estudo académico do IPAM, que analisou mais de duas mil publicações nas principais redes sociais durante o mês de dezembro de 2025. 

A investigação, conduzida por dois professores do IPAM, analisou a forma como oito candidatos às Presidenciais de 2026 comunicaram no Facebook, Instagram e TikTok ao longo de dezembro de 2025. No total, foram observadas 2.104 publicações de André Ventura, António Filipe, António José Seguro, Catarina Martins, Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo, Jorge Pinto e Luís Marques Mendes. 

Os dados revelam um padrão claro: a comunicação digital dos candidatos assumiu, maioritariamente, um caráter relacional e simbólico. Mais de metade das publicações analisadas corresponde a mensagens sazonais, sobretudo associadas ao Natal e ao Ano Novo. Quando somados os conteúdos relacionados com eventos, visitas e ações de proximidade, cerca de três quartos da comunicação digital teve como principal objetivo reforçar a ligação emocional com as audiências, deixando a comunicação programática, a mobilização eleitoral direta ou o confronto político em segundo plano. 

André Ventura lidera de forma destacada em termos de escala. As 372 publicações analisadas geraram mais de 5,5 milhões de interações, o valor absoluto mais elevado do estudo. No entanto, o engagement médio fica-se pelos 1,9%, o mais baixo entre os candidatos, indicando uma relação menos intensa com audiências amplas, heterogéneas e fortemente polarizadas. O estudo aponta para uma mobilização assente no conflito, eficaz para amplificação, mas menos consistente na construção de envolvimento relacional.  

Cotrim Figueiredo consegue combinar exposição e envolvimento. Com 215 publicações, apresenta um engagement médio de 11,6% e ultrapassa 1,2 milhões de interações, posicionando-se como um dos candidatos com melhor equilíbrio entre escala e intensidade da relação com o público. A sua comunicação beneficia da leitura mediática da campanha e da aposta na lógica competitiva, sem depender exclusivamente da polarização. 

Jorge Pinto surge como o caso mais evidente de mobilização intensiva. Com uma média de engagement de 41,2%, a mais elevada do estudo, e cerca de 397 mil interações geradas em dezembro, o candidato construiu uma relação muito intensa com uma comunidade pequena, mas fortemente identificada do ponto de vista ideológico. O alcance é limitado, mas a capacidade de mobilização interna é elevada. 

Gouveia e Melo destaca-se pelo volume de atividade, com 400 publicações no período analisado. Apesar de somar mais de 567 mil interações, o engagement médio situa-se nos 6,8%, refletindo uma comunicação marcada por visibilidade institucional e proximidade social, mas com menor coesão relacional e ativação emocional.  

António Filipe e Catarina Martins apresentam padrões semelhantes de comunicação ideológica. António Filipe regista um engagement médio de 8,6% e cerca de 268 mil interações, mobilizando públicos politicamente alinhados, ainda que com alcance limitado. Catarina Martins apresenta um engagement médio de 4,4% e aproximadamente 308 mil interações, sustentadas numa comunidade coesa, mas de menor dimensão. 

António José Seguro mantém uma presença digital regular e pouco polarizadora. Com 354 publicações, um engagement médio de 4,8% e cerca de 482 mil interações, a sua estratégia assenta numa narrativa de estabilidade e confiança, sem picos de viralidade, mas com envolvimento consistente. 

Luís Marques Mendes surge como o candidato com menor tração digital. Apesar de 226 publicações, o engagement médio não ultrapassa os 4,9%, com cerca de 141 mil interações, revelando dificuldades na mobilização da audiência e na criação de uma relação digital significativa. 

Apesar de abordarem temas semelhantes, os candidatos diferenciaram-se sobretudo na forma como os enquadraram. O mesmo contexto, como o período natalício, foi utilizado para transmitir mensagens distintas, que oscilaram entre apelos à justiça social, referências à união institucional, afirmações de identidade nacional ou, nalguns casos, clivagem política explícita. 

“O objetivo deste estudo não é avaliar ou julgar posições políticas, mas compreender de que forma os candidatos usam as redes sociais enquanto instrumentos de comunicação, que estilos discursivos privilegiam e que tipo de relação constroem com as suas audiências”, explica Luís Bettencourt Moniz, um dos autores do estudo e professor do IPAM. 

A análise do envolvimento confirma que este tipo de comunicação emocional é aquele que gera maior volume de reações, alcance e partilhas, sobretudo no Instagram e no TikTok. Em contraste, os conteúdos centrados em visão política, propostas ou mobilização programática alcançam menos pessoas, mas tendem a gerar comentários mais longos e politizados, revelando maior densidade discursiva. Esta diferença evidencia a coexistência de estratégias orientadas para o alcance emocional e outras focadas na coerência ideológica. 

“Em dezembro observámos duas estratégias claras: uma mais emocional, orientada para o alcance, e outra mais política, focada na mobilização interna. No entanto, nenhuma delas teve como objetivo central convencer novos eleitores”, sublinha João Andrade Costa, coautor do estudo e professor do IPAM. 

Comunidades pequenas versus audiências amplas 

A análise por candidato revela uma clivagem entre quem privilegia a escala e a amplificação das mensagens e quem aposta numa relação intensa com comunidades mais reduzidas. Os dados mostram que volumes elevados de interações não correspondem, necessariamente, a maior envolvimento relativo ou a uma ligação mais sólida com os seguidores. 

O estudo confirma ainda que as plataformas analisadas apresentam dinâmicas distintas. Facebook e Instagram registam níveis de engagement mais estáveis, enquanto o TikTok se caracteriza por picos elevados associados a conteúdos pontuais e virais, sem consistência ao longo do tempo. Nesta rede, poucos conteúdos concentram grande parte das interações, beneficiando formatos específicos em detrimento da regularidade. 

“A comunicação política digital em dezembro funcionou sobretudo como um espaço de relação e de reforço identitário, e não como um espaço de debate público ou de persuasão eleitoral”, resume Luís Bettencourt Moniz. Para João Andrade Costa, os resultados mostram que “a eficácia da comunicação digital não pode ser avaliada apenas pelo engagement. É necessário olhar para a visibilidade, a regularidade, o tom discursivo e a capacidade de gerar reconhecimento simbólico”. 

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