Mais do que a mudança na apresentação da candidatura presidencial de André Ventura, com o evento que estava agendado para esta sexta-feira, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, substituído por um vídeo nas redes sociais, a questão principal na reentrada do líder do Chega na corrida a Belém - após ter tido 11,90% e quase meio milhão de votos em 2021 -, é o verdadeiro objetivo que persegue. E esse, segundo especialistas ouvidos pelo DN, é claro: a passagem à segunda volta, que, por si só, seria histórica, pois não ocorre desde 1986, e o empenho de todos os outros partidos na vitória do adversário, que todas as sondagens indicam ser o favorito Gouveia e Melo.“A segunda volta seria ouro sobre azul para ele”, diz o investigador universitário Riccardo Marchi, especialista em direita radical, comparando esse cenário com as Presidenciais francesas de 2002, quando o fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, enfrentou na segunda volta Jacques Chirac, que seria reeleito. “Ventura sabe perfeitamente que terá uma taxa de rejeição de 80%, mas tornar-se-ia uma personagem conhecida a nível mundial, porque seria um dos poucos líderes da direita radical na segunda volta de Presidenciais”, diz.Por seu lado, André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, diz que “nem num sonho” o líder do Chega acredita ter hipóteses de vencer. Mas a ida à segunda volta “seria um grande prémio”, beneficiando do fracionamento dos votos por muitos candidatos, e “permitiria aproveitar para reafirmar o Chega, numa espécie de moção de confiança do eleitorado”, após a quebra das Eleições Europeias. Na carta que enviou aos membros do grupo parlamentar do Chega em janeiro, anunciando a intenção de avançar para Belém, Ventura reconheceu que “uma candidatura que represente o espaço da direita anticorrupção e anti-imigração” acarretava riscos, mas permitiria “expressar a maioria crescente, notória desde as últimas Legislativas, contra o sistema vigente de bipartidarismo e de negociatas do regime”, tornando as Presidenciais “particularmente importantes” para o Chega se posicionar como alternativa ao “centrão dos interesses”.André Azevedo Alves defende que a passagem de André Ventura e de Gouveia e Melo à segunda volta “seria um abalo significativo para o sistema partidário”, pois forçaria a escolha entre dois candidatos anti-sistema, “ainda que de natureza diferente”. Mas ter todos a apoiar o adversário, “do Bloco de Esquerda ao CDS”, permitiria ao líder do Chega “dizer, com alguma legitimidade, que a única coisa que os une é serem contra o único partido verdadeiramente anti-sistema”.Riccardo Marchi realça que “o almirante é um outsider só até certo ponto”, tendo em conta o seu posicionamento entre o PSD e o PS. E, acerca dos riscos decorrentes da segunda candidatura presidencial de Ventura, admite que não conseguir ser o segundo mais votado - ou ver Gouveia e Melo eleito à primeira volta -, constituiria um revés.“Perder com um candidato fraco, como Marques Mendes ou António Vitorino, seria chato”, diz o investigador, ressalvando que “nunca será uma derrota estrondosa, pois pode sempre apresentar-se como o inimigo número 1 do sistema, com os partidos e os media contra ele”. Ainda assim, André Azevedo Alves destaca o risco da repetição do resultado “muito mau” das Europeias (9,79%), sobretudo se Gouveia e Melo “conseguir ir buscar um terço, ou metade, do eleitorado do Chega nas Legislativas”..Marchi não acredita em ajuda de Musk.A hipótese de André Ventura poder contar com ajuda de Elon Musk, como nos últimos meses tem acontecido com diversas figuras da sua área política, beneficiadas por sucessivas publicações na rede social X, é desvalorizada por Riccardo Marchi. “Já pensei nisso, mas tenho dúvidas. Apesar de tudo, Portugal é um país periférico e não estou a ver o Elon Musk a preocupar-se, particularmente, que ganhe em Portugal um nome da direita radical”, diz o investigador universitário, que mais depressa percebe a intervenção do multimilionário próximo de Donald Trump em países como Espanha, Alemanha e Itália, confessando-se curioso em ver como será em França, pois Marine Le Pen “não gostará muito disso”. No entanto, Marchi admite poder “ser desmentido” no caso de André Ventura. .Ventura lança esta sexta-feira candidatura à Presidência da República através de um vídeo nas redes sociais.Primeira tentativa de André Ventura ser Presidente “dos portugueses de bem” falhou