Pontal entre as polémicas do Governo, os resultados económicos e a preparação do Orçamento do Estado
Luís Montenegro chega esta sexta-feira, 14 de agosto, ao Pontal com duas frentes políticas a dominar a rentrée social-democrata: as polémicas que marcaram o Governo nas últimas semanas e a preparação do próximo Orçamento do Estado. Miguel Morgado antecipa o caminho que acredita que o primeiro-ministro seguirá; André Coelho Lima evita fazer previsões e centra-se naquilo que considera que Montenegro deveria dizer e fazer.
Para o assessor de Pedro Passos Coelho nos anos da troika, Luís Montenegro aproveitará o discurso no Pontal para valorizar os resultados económicos do Governo e retirar espaço às polémicas que marcaram o último mês, em particular ao caso Luís Neves. O antigo deputado acredita ainda que o primeiro-ministro, na qualidade de líder partidário, adotará um tom mais brando com o PS -«Montenegro vai tentar ser o mais amistoso possível» - a pensar na viabilização do Orçamento do Estado. Em relação ao Chega, prevê a manutenção do “mesmo nível de hostilidade dos últimos tempos”.
Caso Luís Neves. As expectativas de Miguel Morgado para o Pontal são particularmente reduzidas. «Sobre Luís Neves, digo mesmo que não tenho nenhumas.» A permanência de Neves no Governo coloca o antigo deputado numa posição “frontalmente oposta” à do presidente do partido, sem que espere do discurso de sexta-feira qualquer mudança nesse quadro. "Luís Montenegro continua a querer proteger o ministro e a preservar a sua posição. É uma posição sem espaço para uma solução intermédia."
No Pontal, Morgado espera que Montenegro procure retirar centralidade ao caso e deslocar a atenção para os resultados da governação, em particular para o desempenho da economia. "Basicamente, vai dizer que as pessoas estão distraídas a olhar para coisas insignificantes quando deviam estar a olhar para os resultados da governação dele. E esses resultados no plano económico são positivos e vai falar neles."
A estratégia representará, na interpretação de Morgado, uma tentativa de ultrapassar um período em que a atenção pública esteve concentrada em processos que "correram muito mal ao Governo" e de estabelecer uma hierarquia diferente para os temas da rentrée. "O que é mais importante para a vida dos portugueses está a correr muito bem." Morgado resume: "Acho que esta é a estratégia que o Governo vai seguir para ver se as pessoas se esquecem de Luís Neves."
Morgado antecipa um primeiro-ministro mais brando com os socialistas, tendo em vista a viabilização do Orçamento do Estado, e uma abordagem diferente perante o Chega. Acredita que Luís Montenegro vai aproveitar o Pontal para moderar o confronto com José Luís Carneiro, numa altura em que se aproxima a discussão do Orçamento do Estado e os socialistas assumem um papel decisivo na sua viabilização. “Não deixará de fazer criticas, mas será brando”. Diz mesmo: “Vai ser o mais amistoso possível”.
Pontal como “ato um” para o Orçamento do Estado
André Coelho Lima considera que Luís Montenegro deve aproveitar o Pontal para transmitir uma mensagem de confiança ao país, sustentada em factos concretos e sem evitar os temas polémicos que têm marcado o Governo. Dirigente nacional do PSD durante a liderança de Rui Rio, considera que a rentrée social-democrata deve também servir como primeiro momento de preparação política do Orçamento do Estado e para clarificar a relação do partido com o PS e o Chega.
A principal mensagem de Montenegro deve ser de confiança, mas acompanhada por resposta aos problemas que afetaram o Executivo nas últimas semanas.
“O primeiro-ministro, neste caso como presidente do PSD, devia abordar com coragem os temas que abalaram o Governo recentemente, não propriamente com vista a justificá-los, mas com vista a procurar virar a página e dar um passo em frente”, defende.
Rejeita uma estratégia de silêncio ou desvalorização. “Não faz sentido que o primeiro-ministro passe por cima do assunto ou procure ignorar ou aligeirar”, afirma, defendendo que os temas devem ser abordados “com coragem e com frontalidade para virar a página e seguir em frente”.
A mensagem de confiança que gostaria de ver sair do Pontal deverá, na sua opinião, assentar sobretudo em medidas destinadas a reforçar a competitividade da economia, incluindo na área laboral. “Correu manifestamente mal a tentativa de reforma laboral e das leis laborais”, lembra, e insiste “na necessidade de avaliar o desempenho económico pelo efeito concreto que produz na vida das pessoas”.
É na preparação do próximo Orçamento do Estado que Coelho Lima identifica uma das principais funções políticas do Pontal.
“Muito embora se espere que possa vir a ser aprovado o Orçamento, a verdade é que não vai ser com a facilidade com que sucedeu no primeiro Orçamento”, afirma.
Na sua perspetiva, o Pontal pode servir para apresentar não as medidas concretas que integrarão a proposta orçamental, mas as principais linhas políticas que a irão enquadrar. “A mensagem de confiança não pode ser só abstrata, tem de ser concreta. E ela concretiza-se nas linhas de força orçamentais”, sustenta.
Coelho Lima assume, neste ponto, uma preferência clara pelo entendimento com os socialistas. “As grandes reformas devem ser sempre feitas com o PS, como, aliás, foram feitas desde o 25 de Abril”, afirma.
“O Orçamento deve ser aprovado no eixo da responsabilidade e, sendo aprovado no eixo da responsabilidade, deve ser aprovado com o PS, ou então o PS assumir o ónus de não aprovar esse mesmo Orçamento”, afirma.
É neste quadro que atribui ao Pontal um papel de arranque para os meses que antecedem a discussão orçamental. “O Pontal deveria ser o ato um, o primeiro momento para lançar as linhas de força que vão daqui até ao Orçamento”, defende.
A rentrée serviria, assim, para lançar uma mensagem coerente até à apresentação do Orçamento e para aumentar o custo político de uma eventual rejeição por parte dos socialistas.
O DN tentou sem sucesso obter depoimentos de social-democratas da direção do PSD ou próximos da atual orientação do partido.

