Uma empresa aeroespacial e uma de blindados estiveram esta quarta-feira, dia 28 de janeiro, na agenda do ministro da Defesa, Nuno Melo, que se encontra na Turquia, numa deslocação centrada na cooperação industrial em Defesa, no reequipamento das Forças Armadas e na diversificação de parcerias estratégicas no quadro da NATO. A visita inclui contactos com empresas do setor militar e o acompanhamento de programas relevantes para Portugal, incluindo a construção dos novos navios reabastecedores da Marinha.Esta quarta-feira, o ministro visitou duas empresas turcas de referência: a Baykar, produtora de drones militares e do caça não tripulado Kızılelma, e a Nurol Makina, especializada em veículos blindados táticos 4×4 e camiões militares para missões de combate, segurança interna e apoio logístico. Na Baykar, empresa que ganhou projeção internacional com os drones Bayraktar TB2, utilizados pela Ucrânia na guerra contra a Rússia, Nuno Melo destacou o nível tecnológico observado, classificando-o como “tecnologia de ponta, do melhor que se faz no mundo”, e sublinhando que “os drones são o presente e o futuro”.A Baykar é responsável pelo Kızılelma, um caça a jato não tripulado, furtivo e com inteligência artificial, concebido para missões de combate ar-ar, ataque ao solo e operações navais, um dos programas mais avançados no domínio dos sistemas de combate autónomos..Uma moeda de Camões, novos navios e o KC-390: a viagem estratégica de Nuno Melo .A agenda do ministro prevê para esta quinta-feira a visita aos estaleiros onde estão a ser construídos os dois novos navios reabastecedores da Marinha Portuguesa — NRP Luís de Camões e NRP D. Dinis —, incluindo a participação na cerimónia de assentamento da quilha do primeiro, na qual será cunhada no casco uma moeda com a efígie de Camões. Sobre o programa, Nuno Melo afirmou que o navio em construção na Turquia é “de altíssima qualidade”, justificando a escolha com critérios de fiabilidade e necessidade operacional.Questionado sobre a opção por um parceiro fora da União Europeia, o ministro rejeitou uma leitura ideológica da cooperação, enquadrando-a na lógica da NATO e da interoperabilidade militar, defendendo que não há razão para uma perspetiva dogmática quando estão em causa capacidades operacionais e qualidade técnica.Nuno Melo reiterou ainda a estratégia do Governo de deixar Portugal de ser apenas comprador de equipamento militar, defendendo um modelo centrado em cadeias de produção, manutenção e exportação, com maior envolvimento das indústrias nacionais.Reações políticas e leitura estratégicaA opção do Governo por aprofundar a cooperação em Defesa com a Turquia está a ser acompanhada com atenção pela oposição e por representantes de organizações do setor. O deputado do Chega e presidente da Comissão de Defesa Nacional, Pedro Pessanha, considera que a cooperação com a Turquia pode ser compatível com os interesses nacionais, desde que seja garantido retorno industrial e financeiro para Portugal, enquadrando o tema na evolução recente da política europeia de Defesa.O parlamentar lembra que, no último ano, a UE assumiu um ponto de viragem na sua política de Defesa, apelando aos Estados-Membros para realizarem “em conjunto, pelo menos 40% das suas aquisições de defesa” e para a criação de “um verdadeiro mercado interno de armamentos”. Ainda assim, sublinha que Portugal já cooperou fora da Europa com vantagens internas, sobretudo para as indústrias nacionais. .Como exemplos, aponta o envolvimento português em programas aeronáuticos internacionais como “o desenvolvimento e a aquisição de aeronaves de transporte KC-390 e a valorização decorrente da compra das aeronaves A-29 ‘Super Tucano’.”Quanto à Turquia, Pedro Pessanha admite que a cooperação pode fazer sentido, até pelo facto de se tratar de um aliado da NATO, mas defende que qualquer decisão deve ser enquadrada em critérios estratégicos claros e em benefícios concretos para a indústria nacional.“Caso seja entendido por Portugal e pelas Forças Armadas Portuguesas haver potencial de cooperação entre os dois países – até porque a Turquia é um país da NATO –, no seio do acordo entre a República Portuguesa e o Governo da República da Turquia sobre Cooperação no Domínio da Indústria de Defesa, admito que pode ser uma solução desenvolver e adquirir sistemas de armas à indústria turca.”Essa abertura é, porém, condicionada a uma exigência central: “Desde que seja equacionado, no que concerne à produção e à manutenção, o retorno financeiro nacional, designadamente à indústria de defesa portuguesa.”.Também o PS se mostra aberto a parcerias com aliados da NATO, mas sublinha que Portugal não pode limitar-se a ser um mero comprador de equipamento militar. O coordenador socialista para a Defesa, Luís Dias, afirma que “não basta comprar e importar, é preciso produzir e exportar”, defendendo um envolvimento efetivo das Indústrias de Defesa Nacionais (IDN). O dirigente socialista alerta ainda que o Governo terá de ser coerente com o discurso de promoção da produção nacional, avisando que “é bom que seja consequente nesta intenção e que não fique apenas pelas palavras”, e garante que o PS “vai estar muito atento”.Luís Dias levanta, em particular, dúvidas sobre o programa dos navios reabastecedores em construção na Turquia, questionando qual será a participação das IDN nos NRP Luís de Camões e D. Dinis, e se a comitiva que acompanha o ministro inclui empresas portuguesas dos setores tecnológico e naval, ou se "o retorno para a economia nacional ficará limitado à reconfiguração do Arsenal do Alfeite". .Num plano mais estratégico, o antigo CEMGFA e presidente do Eurodefence Portugal, Valença Pinto, enquadra estas escolhas no contexto europeu, defendendo que a Europa deve “gastar mais em conjunto e desejavelmente mais europeu”, embora reconheça que continuará a existir dependência do mercado norte-americano durante pelo menos uma década. Na sua leitura, excluindo China e Rússia, mercados como Índia, Japão, Coreia do Sul e Brasil ganham relevância, num momento em que “a tecnologia importa pelo menos tanto, se não mais, do que a geografia” na definição de parcerias industriais.Valença Pinto destaca ainda a Índia como um destino promissor, apontando o recente acordo UE–Índia como um possível enquadramento para cooperação futura, e defende que a indústria europeia de Defesa deve articular grandes campeões industriais com start-ups e PME, frequentemente associadas a inovação tecnológica avançada. .Já João Annes, membro do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, considera que a cooperação com a Turquia "não representa uma mudança estrutural na política externa portuguesa, nem um esforço para assumir um papel de intermediário geopolítico entre a UE e Ancara". Na sua avaliação, trata-se sobretudo de uma "decisão operacional, destinada a suprir necessidades de sustentação logística oceânica, com uma boa relação custo-benefício".Segundo João Annes, o posicionamento estratégico português deverá manter-se centrado no Atlântico, com ambição de liderar projetos na área dos drones marítimos, nomeadamente através de financiamento PESCO, sem alterações ao alinhamento diplomático com a União Europeia. Para o analista, esta opção traduz um "realismo político, sem comprometer os valores portugueses, incluindo em matérias como direitos humanos e outros dossiers sensíveis na relação entre Bruxelas e a Turquia"..Defesa. Nuno Melo na Turquia e o potencial de uma cooperação mais funcional e menos ideológica