Um debate, seis líderes e o comentário de três colunistas do DN

Três colunistas do DN - Rogério Casanova, Pedro Marques Lopes e João Taborda da Gama - analisam e comentam a prestação no debate de ontem dos seis líderes dos partidos parlamentares.

O confronto a seis, ontem à noite, na RTP 1, entre os chefes dos partidos com deputados eleitos - PSD, PS, BE, CDS, CDU e PAN - foi o último de uma maratona de 15 debates iniciada dia 2 de setembro. Quem menos se expôs - para o bem e para o mal - foi Jerónimo de Sousa, que recusou participar nos frente-a-frente que não fossem em canal aberto. No de ontem à noite, moderado pela diretora de informação da televisão pública, Maria Flor Pedroso, António Costa foi quem mais tempo falou. Razão simples: passou grande parte do tempo a responder a interpelações de Catarina Martins (BE) e de Assunção Cristas (CDS-PP)

ROGÉRIO CASANOVA

Rui Rio (PSD)

Possui a fisionomia mais interessante de todos os candidatos, em que a testa alta e a ténue hipotrofia das partes constituintes cria uma ilusão de concavidade que irradia a partir do centro, e o faz parecer mais distante de quem observa. É o complemento ideal da sua postura típica, curvado sobre o ângulo dos cotovelos, como um homem incessantemente empenhado em assegurar que tem os pés bem assentes na terra (a mesma terra que um dia nos vai engolir a todos e devolver-nos os cadáveres à poeira).

O tom que Rio adoptou - ou descobriu - ao longo da campanha é o equivalente retórico ao rescaldo de uma moderada crise de meia idade: o fatalismo confiante de quem percebeu que vamos todos morrer e que encontrou nessa revelação um motivo de alegria, bem como a sua modalidade preferida de senso comum. "Bom, vamos lá ver uma coisa", "Temos aqui um debate sobre uma coisa um bocado esquisita...", "Andamos aqui todos à volta dos números, né, mas...". São os maneirismos típicos de quem quer lisonjear o receio da complexidade, mas também formados pelo hábito da súmula final: da pessoa no café que espera que toda a gente acabe de falar antes de os informar que não é bem assim e que tudo aquilo foi uma perda de tempo escusada.

Como fatalista, é possível que tenha uma suspeita secreta de que não é suposto estar a divertir-se tanto. Mas não o consegue evitar, e era claramente a pessoa mais feliz entre todos os presentes.

António Costa (PS)

Como um concorrente do Preço Certo, chegou confiante e bem disposto; a boca repleta de algarismos, e os braços carregados de presentes, que tentou distribuir por toda a gente: dados estatísticos, recortes de imprensa, doçaria regional.

A estratégia de recitar percentagens sucessivas como um triunfante poema em verso branco ("baixámos de 25%/ para 24,9%!") soçobrou na ingratidão de adversários e aliados, ambos incapazes de reconhecer os méritos estéticos de uma boa décima percentual.

Visivelmente desiludido, recuou para terrenos mais familiares, dedicando toda a sua energia a demonstrar a fragilidade de um conceito problemático que é mais uma sobreposição quântica do que uma condição estável: o conceito de "vogal". Fonemas em cuja emissão o ar devia passar livremente pela boca encontram nele uma obstrução inesperada, mas firme, própria de quem é fiel aos seus princípios. Na sua faceta mais conciliadora, Costa tentou repor alguns cortes do passado, embora nem sempre da forma mais criteriosa ("Ntrdade carbónica", por exemplo, ressurgiu como "naturalidade carbónica"). Mas quando se sentiu mais cercado, não cedeu um milímetro ao vocalicamente correcto, prometendo combater a prcridade, aumentar o compmento sldário para idosos, e aludindo mais uma vez a esse organismo misterioso a que chama Trbnal Conxtcnal (que fiscaliza a a conxtcnlidade das leis).

Numa resposta a Catarina Martins, usou a frase "Como disse Manuel Alegre, e bem", naquela que foi talvez a primeira ocasião registada em que a frase "Como disse Manuel Alegre, e bem" foi proferida, ou sequer pensada, por outra pessoa que não Manuel Alegre.

Catarina Martins (BE)

De todos os candidatos, é a que possui as mais óbvias vantagens naturais de dicção, timbre, fluência e modulação de registo, conseguindo, na mesma frase, passar de exasperação não-estridente a apaziguamento melífluo apenas com o expediente de subir ou descer duas oitavas.

Socorreu-se destes atributos, bem como de um aparente conhecimento dos cancioneiros medievais, para transformar a parte final do debate numa cantiga de amigo: aquela em que o amante desarranjado proclama gratidão pela exaltada qualidade do seu desgosto.

A acusação que fez a Costa, descodificada, é de estar a embirrar com ela pelos motivos errados, quando havia tantos motivos melhores.

Assunção Cristas (CDS-PP)

Entrou determinada a provocar um enorme chavascal com cada intervenção e foi parcialmente bem sucedida, revelando um timing exemplar na escolha dos momentos em que obrigou alguém a interromper a sua interrupção para lhe dizer "eu não a interrompi". Foi a alternativa possível (e, em rigor, mais razoável) à sua estratégia original, que consistia em rasgar o abdómen do primeiro-ministro de alto a baixo com uma unha pontiaguda e brandir o seu coração palpitante à luz dos holofotes enquanto gritava na direcção das câmaras: "É ISTO QUE ACONTECE A QUEM ME TIRA OS MEUS 6%".

Apesar de tudo, em nenhum momento transmitiu outra impressão que não a de se sentir nas suas sete quintas, nenhuma das quais fica no Alentejo.

Jerónimo de Sousa (CDU)

Num político tão compenetrado em fazer o seu trabalho, que é discordar das coisas como elas são, pode parecer paradoxal que se notem tão poucas diferenças na sua linguagem corporal entre as ocasiões em que está a discordar das coisas como elas são ou a concordar com as coisas como elas são. Mas ele não mede o tempo como nós, nem reage do mesmo modo à sua prosaica linearidade. É teoricamente possível, por exemplo, que Jerónimo de Sousa não participe sequer em "debates", no plural: na sua percepção tudo o que acontece faz parte de um único e interminável debate, em que umas vezes discorda de umas coisas, e outras vezes discorda de outras: um segmento cristalizado de eternidade, à margem do tempo, que insiste obstinadamente em fluir de formas pouco comunistas.

O seu rosto é uma litografia de desencanto, os sulcos desenhados pela repulsa entre a substância humana e as substâncias do mundo. O espaço entre palavras é vasto, preenchido com silêncios e reticências. "Em relação à... questão que... também está sempre... hmm... colocada... essa concepção dum... da... de justiça fiscal... hmmm". Através da indeterminação sintáctica, o Infinito é conjurado.

Depois de supervisionar tranquilamente o tráfego aéreo de frases que o sobrevoavam, concluiu o debate com uma proposta ousada para tornar as creches gratuitas, de forma a que os jovens trabalhadores possam ter imenso sexo uns com os outros sem contraceptivo, permitindo que a interacção solidária entre esperma e óvulo produza mais jovens trabalhadores.

André Silva (PAN)

Ao contrário de Jerónimo, ganha espaço para respirar não com intermitências na articulação, mas repetindo palavras, um efeito que já seria invulgar mesmo que não reproduzisse fielmente o tique de uma personagem secundária do filme Goodfellas (Jimmy Two Times): "onde eu quero chegar, onde eu quero chegar... Lisboa, assim como, assim como o Porto, ao nível, ao nível do IMI... aumentar, aumentar..." (etc).

Munido com esta redundância embutida, debateu não como como portador de opiniões específicas , mas como o fiel depositário de um segredo terrível, cuja natureza era sua missão proteger a qualquer custo. Mudando de assunto a intervalos regulares, recorreu a um catálogo restrito de temas, que usou como palavras de segurança numa exótica sessão de sado-masoquismo (Grampo. Chicote. "Fotovoltaicas!" Stop.)

Tem um talento peculiar para conseguir ser previsível mesmo enquanto diz a coisa mais inesperada possível. Quantas pessoas antes do debate esperariam ouvir a expressão "estufas da costa vicentina"? Quantas pessoas, depois de a ouvirem, não acenaram tranquilamente, pensando "as estufas da costa vicentina, como é óbvio"?

PEDRO MARQUES LOPES

Rui Rio (PSD)

Quando todos os elementos estão contra nós, não há golpe de asa que nos salve. Rui Rio, no entanto, mostrou que está na campanha para, pelo menos, vender cara a previsível derrota. O líder do PSD fez mais por um bom resultado nestes quinze dias do que nos últimos dois anos. Os seus melhores atributos - franqueza e desassombro - passam melhor sem mediação e ajuda muito não haver ruído interno. Gente da sua área política que andava desiludida com Rio foi recuperada, era esse o objetivo. Foi ele quem mais ganhou com os debates,

António Costa (PS)

António Costa esteve nos debates como aquelas equipas que estão a ganhar dois zeros e faltam poucos minutos para acabar a partida devem jogar: sem correr riscos e a espreitar o contra-ataque. Fingiu que arriscou um ataque a Assunção Cristas, mas sofreu mesmo um golito marcado por Catarina Martins no último debate. É que as histórias têm sempre mais do que uma versão.

Catarina Martins (BE)

Um dos objetivos de Catarina Martins era mostrar que era ela a líder da oposição e fez por isso sendo quem mais irritou António Costa e o fez cometer mais erros - o líder do PS não esconde o pouco que aprecia o BE. Não era, convenhamos, uma tarefa fácil para quem esteve ao lado do governo e subscreveu a ortodoxia centenista. Catarina Martins, porém, pode correr os riscos que quiser porque já ganhou as suas eleições: se entrar numa nova geringonça, por falta de maioria absoluta do PS, pode tentar condicionar a governação e reclamar que é a barreira contra o poder absoluto dos socialistas; se o PS vencer os mais de 115 deputados terá o espaço de descontentamento à esquerda para ocupar.

Assunção Cristas (CDS-PP)

Aquele tom entre o professoral e o condescendente de Assunção Cristas não é um registo que resulte quando se tem de conquistar eleitorado. António Costa bem a tentou ajudar fingindo que ela é a adversária à direita, mas a tentativa foi demasiado óbvia. O pior para ela é que foi essa a única memória que fica das suas prestações.

Jerónimo de Sousa (CDU)

Jerónimo de Sousa está cansado, muito cansado. O líder do PCP ainda conseguiu, de vez em quando, tirar um daqueles coelhos de sabedoria popular da cartola, mas o cansaço traiu a sua combatividade. Também não ajudaram os constantes abraços de urso que Costa lhe deu.

Jerónimo de Sousa foi um grande líder do PCP e um homem a quem os comunistas devem muito, o seu cansaço é, no fundo, a melhor metáfora do partido que lidera.

André Silva (PAN)

André Silva foi o grande derrotado dos debates e a razão é a pior possível: é que se ficou a saber quais são as propostas do seu partido. O líder do PAN tem quinze dias para tentar que as pessoas se esqueçam de que não tem programa e que não tem nada para propor.

André Silva é a prova viva de que os debates são importantes.

JOÃO TABORDA DA GAMA

Rui Rio(PSD)

Rui Rio a ser Rui Rio, uma sinceridade desarmante, dizendo o que pensa, mostrando o que é, genuinidade radical para o bem e para o mal. Em crescendo na estruturação de propostas alternativas concretas, sem ter de justificar o legado da PAF, que não é seu, em que não acredita. Vale pontos ao centro, aliena a direita passista. Está para ver o saldo desta postura. Rio, como é, posiciona-se bem como um político diferente. Mas ainda está por provar que as pessoas - apesar do que dizem - queiram políticos diferentes.

António Costa(PS)

Vê-se que gosta e não gosta dos debates, gosta da discussão política mais pura, do argumento, da resposta, de encostar adversários nas cordas; mas não gosta de ser contrariado. Sobretudo por duas pessoas. Assunção Cristas irrita-o, Catarina Martins irrita-o, não consegue esconder, talvez seja esse o seu ponto mais fraco nos debates. O sucesso da geringonça é o seu ponto forte, muito alicerçado na narrativa económica bem percecionada pela maioria dos portugueses, com o INE a ajudar com novos números.

Catarina Martins (BE)

Em todos os debates a tranquilidade de não estar a ser afetada pelas sondagens, mas a intranquilidade de uma má relação com Costa e com o PS. As coisas estão complicadas e com aquela amargura de quem sabe que pode ter de passar mais quatro anos a viver na mesma casa. Setas azedas de um lado ao outro, entre dois parceiros que não querem nem viver juntos nem separados, mas que podem estar destinados a isso mesmo. A não ser que PANe.

Assunção Cristas (CDS-PP)

Fcou com o encargo, que não desdenha, de ser a força da oposição, com muitas e estruturadas propostas concretas de governo, sem fugir aos temas complexos. Gosta de debates e não os teme. Alheia a alguma convulsão interna no seu partido, projeta confiança. Muito favorecida por Rui Rio ser Rui Rio e lhe ter entregue as cartadas mais cortantes, das questões judiciais aos incêndios.

Jerónimo de Sousa(CDU)

Percebendo que a geringonça foi prejudicial para os comunistas - porventura injustamente - já disse o que fará. A conjuntura mudou, não há mais nada que nos possam dar, a lei laboral não vai mudar, vamos voltar ao que sempre fomos, oposição nas ruas ao PS. Poderá travar a queda comunista e permitir um reposicionamento pós-Outubro.

André Silva(PAN)

A fazer um jogo muito inteligente, aquele que muito provavelmente será parte da próxima solução de governo, André Silva limita-se a existir, a estar, a moderar alguns impulsos que possam alienar votos, a repetir ideias já testadas com sucesso. Agarra temas para lá dos animais, com oportunidade e tranquilidade. A tranquilidade de quem já disse a senha para entrar no novo Governo: "Erro político de Costa? Não consigo identificar nenhum"; a tranquilidade de quem percebe que a ridicularização primária do PAN, nas redes sociais, na opinião publicada, apenas joga em seu favor.

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