"Perguntas ridículas". Sócrates não gostou de perguntas sobre férias

Juiz de instrução quis saber onde o ex-primeiro-ministro passou a Páscoa de 2006 e se tinha sido o primo a pagar a estadia num resort de luxo em Albufeira. Debate instrutório foi adiado para quinta-feira.

O antigo primeiro-ministro José Sócrates prestou esta quarta-feira novas declarações na instrução do processo Operação Marquês, depois de ter sido chamado a depor pelo juiz Ivo Rosa, que tinha programado para este dia o início do debate instrutório. Foi ouvido mais de duas horas e à saída do tribunal disse aos jornalistas que as perguntas do juiz eram "perguntas ridículas" - sobretudo aquelas sobre umas férias no Algarve.

Ivo Rosa quis saber, por exemplo, se o antigo governante passou as férias da Páscoa, em abril de 2006, com o primo José Pinto de Sousa, num resort de luxo em Albufeira. O ex-primeiro-ministro negou que tenha estado no Algarve nessa altura, uma vez que decidiu passar as férias com o pai, em Vilar de Maçada, alegou.

O juiz Ivo Rosa quis saber se Sócrates, conforme consta da acusação, passou as férias da Páscoa de 2006 hospedado no hotel Pine Cliffes e se estas foram pagas -- cerca de mil euros -- com o cartão de crédito do seu primo e arguido José Paulo Pinto de Sousa.

"O Ministério Público construiu um embuste, uma grande mentira e depois de tudo ali desfeito vem perguntar se sabia se uma amiga minha tinha estado no Algarve", relatou Sócrates no final, considerando que as dúvidas dos procuradores não faziam qualquer sentido.

"Estive aqui duas horas e tal [a prestar declarações a pedido do juiz Ivo Rosa] e depois o Ministério Público fez aquelas perguntas", comentou o antigo governante.

Na acusação aparecem faturas em nome de José Sousa, umas com morada de Cascais e outras apenas com a mera indicação de Portugal.

Segundo Sócrates, quem esteve de férias nessa altura no Algarve foi o seu primo José Paulo Pinto de Sousa, afirmando lembrar-se disso com exatidão porque a mulher deste estava grávida.

Depois de o primeiro-ministro ter sido interrogado em cinco tardes na fase de instrução, o juiz tinha mais perguntas para fazer ao antigo chefe do Governo, concretamente sobre a concessão do TGV ao consórcio Elos, além das férias no Algarve, as viagens governamentais feitas à Argélia, Angola e Venezuela e ainda o caso Freeport.

O ex-primeiro-ministro esteve cerca de duas horas a responder ao magistrado, algumas vezes num tom mais ríspido, e depois a cinco questões do procurador do Ministério Público Rosário Teixeira, com quem se chegou a exaltar.

"É preciso ser mesquinho", afirmou Sócrates após uma pergunta de Rosário Teixeira.

Outro dos assuntos que consta na acusação e foi abordado pelo juiz foi a concessão do TGV ao consórcio ELOS.

Sócrates insistiu que nunca falou com o seu amigo empresário Carlos Santos Silva, que esteve ligado ao Grupo Lena e é arguido no processo, sobre o concurso para a construção do comboio de alta velocidade e que não teve qualquer intervenção durante o concurso.

"Não estive em qualquer reunião para tratarmos da adjudicação do TGV", afirmou Sócrates,acrescentando que enquanto ocupou o cargo de primeiro-ministro "raramente falava com Carlos Santos Silva".

Viagens a Angola, Argélia e Venezuela eram de "diplomacia económica"

Sócrates reiterou no interrogatório que ninguém o informou sobre como decorria o concurso e que as adjudicações eram da competência dos ministros das respetivas áreas.

As viagens governamentais a Angola, Argélia e Venezuela foram outro dos temas abordados no interrogatório, tendo o ex-governante socialista afirmado que faziam parte da diplomacia económica do pais.

O debate instrutório do processo Operação Marquês estava marcado para as 14:00 desta quarta-feira mas com a intenção de última hora de ouvir novamente José Sócrates acabou por ser adiado para quinta-feira às 14:00. A inquirição do ex-chefe do Governo terminou depois das 16:30.

O Ministério Público vai abrir a sessão em tribunal e o procurador Rosário Teixeira já avisou que vai precisar de pelo menos duas horas para expor os seus argumentos.

Na fase de instrução, o juiz que a dirige verifica se a acusação do Ministério Público foi ou não justificada, através da análise das provas recolhidas no inquérito, outras que entenda obter e as que lhe são apresentadas pelos arguidos.

Depois de analisada a prova, interrogados os arguidos e dezenas de testemunhas é a vez do procurador Rosário Teixeira apresentar os seus argumentos a favor da acusação e dos advogados de defesa a contrariarem (debate instrutório).

Alguns deles deverão voltar a referir as ilegalidades que dizem existir no processo e que já apresentaram ao juiz Ivo Rosa no Requerimento de Abertura de Instrução.

O juiz já marcou nove sessões de debate instrutório, devendo as defesas de alguns dos arguidos invocar novamente as alegadas ilegalidades que dizem existir no processo e que já foram apresentadas ao juiz Ivo Rosa no Requerimento de Abertura de Instrução.

Vários dos 19 arguidos que pediram a abertura da fase de instrução invocaram nulidades e refutaram os crimes económico-financeiros de que estão acusados.

(Notícia atualizada às 20:01)

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG