"Não queremos movimentos zero nas Forças Armadas"

"Esses movimentos aparecem porque o poder político não dá resposta", disse o presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas na apresentação de um inquérito sobre condições de trabalho.

O presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA), António Mota, condenou hoje o aparecimento de movimentos de reivindicação inorgânicos entre os militares e admitiu a criação de um sindicato do setor em breve.

"Não queremos, de forma nenhuma, contribuir para o aparecimento de movimentos zero nas Forças Armadas. Temos, ao nível dos oficiais, conseguido ser o órgão verdadeiramente representativo. Esperemos que isso não aconteça. Esses movimentos aparecem porque o poder político não dá resposta. As pessoas vão trabalhando, apresentando ideias e sugestões e as coisas não se resolvem. Depois, há os movimentos inorgânicos, que vão aparecendo e esses é que são perigosos", disse.

António Mota falava durante a apresentação dos resultados de um inquérito a mais de mil oficiais sobre as condições de trabalho e outros temas, num hotel lisboeta.

"Estamos abertos ao diálogo. É através dos mecanismos legais que queremos resolver os problemas. Vamos opor-nos fortemente ao aparecimento de alguns movimentos inorgânicos que sabemos que se estão a formar, inclusivamente, ao nível dos praças, que já têm uma página na Internet. Temos de os combater clara e definitivamente. O poder político não pode assobiar para o lado porque isto vai-lhes cair em cima", continuou.

O representante referia-se ao movimento Naval Zero (elementos da Armada), semelhante ao Movimento Zero, que congrega elementos da Polícia de Segurança Pública (PSP) e da Guarda Nacional Republicana (GNR).

Excessiva "influência" da política

A sondagem aos associados da AOFA, incluindo "60 generais, 721 majores, tenentes e coronéis e muitos oficiais subalternos e capitães", revelou uma maioria favorável (52,9%) à criação de um sindicato, mas são mais os inquiridos (70%) contra o direito à greve.

O inquérito a 1.105 oficiais - no ativo, na reserva e reforma - foi feito entre 21 de outubro e 30 de novembro.

Mais de metade dos inquiridos (52,9%) concorda "em absoluto" com a criação de um sindicato militar (23,6%) ou entende que pelo menos sejam "iniciados passos nesse sentido" (29,3%), enquanto 7% não se pronunciou.

"Não sendo para nós propriamente uma surpresa, é-o no entanto em termos da expressão dos oficiais. É um sinal muito forte e o mesmo se está a passar por toda a Europa. Nós seguiremos sempre o caminho que os oficiais nos indicarem. É um tema que vamos ter de debater aqui e nas próximas semanas, ao nível do conselho nacional, com base nos resultados que temos. É inequívoco o sinal que os oficiais deram, em todos os postos, incluindo os generais, no sentido de que teremos de caminhar inevitável e rapidamente para um sindicato", afirmou António Mota.

O dirigente da AOFA sublinhou que a associação sempre pautou a sua "atuação dentro dos limites legais", sem nunca pôr "em causa" o respeito pela lei.

"Fizemos mais de 80 reuniões em unidades militares. Fizemos o seminário da condição militar há 15 dias. Estamos a preparar tudo isto para produzir um documento - o caderno reivindicativo da AOFA para a legislatura -- que vamos apresentar em janeiro aos oficiais, mas também ao Presidente da República, primeiro-ministro, ministro da Defesa, grupos parlamentares e chefias militares", explicou.

O responsável destacou que do inquérito da AOFA resulta a constatação de que "a situação das Forças Armadas é para lá de dramática", ao nível de operacionalidade, condições de trabalho e condições de segurança.

"Na casa dos 80%, 90% dos oficiais dizem que as Forças Armadas estão partidarizadas, por via da forma como os chefes militares são nomeados. Não acusando os chefes, mas acusando o sistema que os elege", alertou ainda António Mota.

Segundo o inquérito da AOFA, uma esmagadora maioria dos inquiridos (88%) considera que há uma excessiva influência do poder político na instituição militar. Apenas 6,1% dos inquiridos considera que não há influência a mais e 5,4% não sabe ou não responde. A percentagem é ligeiramente mais elevada entre os oficiais no ativo (89,6%) que acham que há uma influência excessiva dos políticos na instituição.

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