juventude

Tiago foi voluntário na Expo e hoje é o anfitrião de jovens de todo o mundo

Tinha 21 anos, era estudante universitário e candidatou-se para fazer voluntariado na Expo. Agora, 21 anos depois, acolhe a conferência mundial de ministros da juventude, que junta governantes e jovens. Trabalho com juventude "é necessariamente sempre um trabalho inacabado".

Tiago estava viver "uma das aventuras" da sua vida. Tinha 21 anos, era um rapaz do Minho, estudante em Coimbra, "estava a passar do 3.º para o 4.º ano da universidade", e aproveitou um programa de voluntariado para se inscrever e passar um mês e meio em Lisboa num acontecimento de dimensão global que era a Expo 98.

Hoje, 21 anos depois, o jovem Tiago é o ministro anfitrião de Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude 2019 e do Fórum da Juventude. Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, com a tutela da Juventude, recorda 1998 não apenas pela aventura à beira Tejo, mas também como "o momento fundador de uma conferência de ministros da juventude".

O encontro terá lugar este fim de semana na Altice Arena, que era o Pavilhão da Utopia quando o jovem Tiago fazia voluntariado na Exposição Internacional de Lisboa. E o primeiro-ministro português de então, António Guterres, participa no encerramento da conferência como secretário-geral das Nações Unidas (que era à época o ganês Kofi Annan, que também veio a Lisboa à conferência de ministros e ao Festival Mundial da Juventude e esteve em Braga, onde se realizou o Fórum).

"Vinte e um anos depois existe a ambição de concretizar algo que é um verdadeiro arrojo", explica ao DN: juntar governantes e jovens, com a realização em conjunto da conferência e do fórum, "e cada representação nacional ter como condição sine qua non trazer não só o governante mas também um delegado jovem, com menos de 30 anos, representativo da juventude do seu país".

Agora, na "Lisboa+21", o nome pelo qual esta conferência também responde, a agenda é ambiciosa, como já era então. À avaliação nacional, regional e mundial - "para monitorizar e escrutinar tudo o que foi feito" - que se pretende que seja concretizada, o governante explica de um fôlego os objetivos do encontro na capital. "Ter um diálogo, uma troca de experiências e de conhecimentos, entre os jovens e os Estados, primeiro para cumprir a Agenda 2030 - que foi lançada em 2015, com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável - mas também para cumprir a própria Juventude 2030, que é como que um subprograma da Agenda. Como o conseguimos? Formulando novos programas, novas medidas e novas políticas públicas para os jovens e com os jovens."

As "megatendências" que preocupam os jovens

Tiago Brandão Rodrigues quer um "debate sério, maduro e transparente sobre os temas emergentes da juventude", que são chamados de "megatendências": o clima, a poluição, as migrações, associadas com o clima e os conflitos, a globalização e a digitalização e a relação, "que é diferente agora", entre o rural e o urbano, com a crescente urbanização que se verifica no mundo. Estas questões vieram "aprofundar um conjunto de desafios para a população jovem, que agora são muito mais urgentes e prementes".

"Nós não nos podemos esquecer que temos 1,8 mil milhões de jovens em todo o mundo", descreve o ministro da Educação. "Os desafios que os jovens têm por todo o globo são diferentes, mas têm um fio condutor: os jovens têm um acesso ao trabalho digno, à educação e à saúde muito mais deficitário; por outro lado, sofrem de discriminação e exclusão, em termos políticos e de participação; e têm uma maior incidência clara de pobreza e tudo se agoniza se falarmos de mulheres jovens ou raparigas - muitos destes problemas multiplicam-se por duas e três, no caso das jovens." Para Brandão Rodrigues, "muitas das medidas têm que verdadeiramente ser tomadas e esta ação é urgente e não é adiável".

O presidente do Conselho Nacional da Juventude, Hugo Carvalho, acrescenta um outro ponto, neste conjunto de temas: o da toxicodependência, no qual Portugal é um exemplo no mundo, tratando as pessoas toxicodependentes como doentes, despenalizando o consumo. Com 29 anos, Hugo só guarda memórias residuais da Expo 98: veio de Viseu e colecionava carimbos de um passaporte à entrada de cada pavilhão e recorda-se do Gil, a mascote da exposição.

Agora, os carimbos que guarda são outros, no campo das políticas de juventude, nota o presidente da plataforma que congrega associações nacionais de juventude. "Há das duas partes, reconhecidamente, muito a fazer; do lado da sociedade civil, como do lado do Governo", reconhece ao DN, com o ministro a seu lado. "Há sempre trabalho a fazer, quando há jovens que não têm acesso a empregos dignos, têm dificuldade em arranjar casa ou são discriminados. Acho que nunca fizemos de conta que está tudo bem", aponta.

"Quando um jovem enfrentava ainda dificuldades, estávamos a falhar", confirma o ministro. "Nós, como tutela e quem dinamiza as políticas públicas, e a sociedade civil porque não estava a conseguir harmonizar com quem decide para influenciar, para que isso não aconteça. Acho que podemos dizer que este trabalho em prol da juventude, por parte do Governo e da sociedade civil, é necessariamente sempre um trabalho inacabado." Sem ser pessimista no discurso, argumenta: "Porque as tais megatendências, os tais problemas, são também eles mutáveis com os tempos e por muito que acabemos por resolver muitos destes problemas, outros necessariamente vão surgir no futuro."

A semente de 1998

Aquele que era o secretário de Estado da Juventude em 1998, Miguel Fontes, provavelmente concordaria com esta leitura 21 anos depois, se estivesse sentado à mesma mesa. "Acho que foi muito importante o que se fez há 21 anos", defende ao DN, acrescentando que os encontros de então ajudaram "a colocar na agenda as temáticas ligadas às políticas de juventude". Até aí, argumenta o atual diretor executivo da Startup Lisboa, "a juventude estava longe de ser uma prioridade", mesmo "em espaços regionais". "Não havia políticas partilhadas", recorda.

Na primeira pessoa, Miguel Fontes testemunhou como se deram passos decisivos na União Europeia e na Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) para desenvolver políticas de juventude. São "questões horizontais" as que dizem respeito aos direitos dos jovens - e que tiveram assim um forte impulso.

Admitindo que é complicada uma avaliação mais setorial, em questões como o emprego, a habitação ou a educação sexual reprodutiva, que variará muito de região para região ou de país para país, Miguel Fontes insiste que "na agenda mais clássica das políticas de juventude foi importante" o que se fez há 21 anos.

Portugal acolheu então três reuniões de ministros da juventude: da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), da OEI e de todo o mundo, para além da organização do Fórum da Juventude e de um Festival Mundial da Juventude. Foram dias cheios, num ano em que o país estava em destaque. "Portugal liderava em 1998 a agenda internacional na política de juventude", defende Fontes, "sem ter medo das palavras". Por isso, faz sentido que, em 2019, o país volte a liderar este evento, com o endosso das Nações Unidas. "Portugal tem de saber tirar proveito dessa situação que teve a liderança internacional", insiste.

Políticas de juventude "não podem ser secundarizadas"

Tiago Brandão Rodrigues também concorda. "O setor da juventude não é de todo um patinho feio. Não vou dizer que se converteu num cisne glorioso, mas fez o caminho que o patinho feio fez na sua história: vir para a centralidade, não é secundarizado nem periférico. As políticas de juventude não podem ser secundarizadas nem periféricas", aponta o ministro.

Daqui a 21 anos, Hugo Carvalho diz esperar que "o setor da juventude se mantenha jovem", e lembra neste ponto que a lei do associativismo revista nesta legislatura definiu que os jovens devem ser os líderes das suas associações.

"O que eu gostava é que não se voltassem a esperar 21 anos para fazer uma nova conferência e que as Nações Unidas têm de olhar para isto também, de uma vez por todas, como uma ação que tem que interiorizar, estando mais vezes com os jovens e com os ministros que tutelam a área a discutir o futuro. Ter decisores de todas as gerações" no sistema das Nações Unidas.

Miguel Fontes lembra que as coisas não mudam por decreto, nem acontecem de um dia para o outro. "Estes fóruns são importantes para dar um impulso às coisas e dar força aos protagonistas." E exemplifica com as conferências mundiais do ambiente, como a Eco 92 ou a Cimeira de Paris. "Não é porque há uma declaração que tudo muda", avisa, mas cada um destes eventos foi dando força aos protagonistas e aos temas. Por isso, faz todo o sentido voltar.

A partir desta sexta-feira e até domingo, cerca de 100 delegações nacionais, com centenas de responsáveis pela pasta da juventude, organizações internacionais e não-governamentais, e de jovens juntam-se à beira Tejo para discutir os seus problemas. O encontro abre oficialmente este sábado, com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o ministro Tiago Brandão Rodrigues a acolherem os participantes da "Lisboa+21". No domingo, o primeiro-ministro, António Costa, junta-se ao secretário-geral da ONU, o português António Guterres.

Desta vez não há barcos a chegar da Margem Sul, com milhares de jovens que participavam no Festival Mundial da Juventude, na Costa da Caparica, com o jovem voluntário Tiago a recebê-los, no ambiente de festa que era a Expo. Será porventura mais formal o encontro na Altice Arena. Mas o anfitrião de hoje parece manter o entusiasmo de então, enquanto insiste que vai continuar a ouvir os jovens. "Foram nos desacomodando nas nossas políticas públicas."

Exclusivos