PSD. Rui Rio ataca isenção do Expresso. Balsemão ironiza

Entre as cerca de 60 notícias que Rio considerou negativas para a sua liderança está uma entrevista a Assunção Cristas, outra a Rui Moreira e até sondagens dando o PS a subir e os sociais-democratas a descer. Direção do jornal mantém confiança na equipa.

O PSD acusou o Expresso de "más práticas jornalísticas" na cobertura que faz do partido e fez queixa à ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), pedindo uma "advertência" ao jornalista responsável por esta área política. A Direção do Expresso afasta, no entanto, qualquer alteração na equipa, e na resposta que já enviou à ERC defende a isenção do jornal e contraria as alegações de Rui Rio.

Questionado sobre a pressão de Rio, o grupo liderado pelo sócio número um dos sociais-democratas, Francisco Pinto Balsemão, chega a ironizar: "Numa semana, inventam que a SIC favorece o PS, noutra inventam que o Expresso favorece o PSD e vice-versa. Felizmente os leitores conhecem a história e os valores do Grupo Impresa", sublinha o porta-voz.

A denúncia contra o semanário, noticiada esta sexta-feira pelo jornal online Eco, já chegou à ERC em janeiro passado, mas o PSD vem agora focar a sua perseguição no jornalista que escreve sobre o partido. "É preciso deixar bem claro que não há nenhuma queixa contra o Expresso, mas sim uma exposição a por em evidência a prática jornalística de Filipe Santos Costa, jornalista que desde meados de 2018 escreve notícias contra o PSD e o seu presidente. Reunimos um vasto conjunto de notícias, tuítes e comentários no Facebook que põem em causa a ação do partido. São todas notícias críticas, sempre negativas. Entendemos que são más práticas jornalísticas e pedimos à ERC que faça uma advertência ao jornalista", sintetiza a porta-voz oficial de Rui Rio.

Expresso contraria PSD

Esta posição é contrariada pelo facto de a ERC ter remetido, para contraditório, a denúncia à direção do jornal e não ao jornalista, ou sequer ao seu editor na altura, Vítor Matos. "A direção do Expresso confirma que já respondeu à ERC relativamente à queixa do PSD, não tendo sido notificada de qualquer conclusão relativamente a esse processo", declara fonte autorizada. Contactado pelo DN, Filipe Santos Costa não quis fazer qualquer comentário.

Junto com a "exposição", assinada pelo secretário-geral do PSD José Silvano, foi enviado um "dossiê muito factual" que, no entender do partido fundamenta as suas acusações. Nessa pasta estão cerca de 60 artigos, publicados desde julho do ano passado até ao final do ano.

Entre essas notícias que o PSD classifica de "negativas" contra o seu líder e que imputa responsabilidade ao jornalista, está, por exemplo, uma entrevista à presidente do CDS, Assunção Cristas, uma entrevista ao Rui Moreira (presidente da Câmara Municipal do Porto); entrevistas a Pedro Duarte e a Miguel Morgado - dois críticos de Rio - mas também a Mónica Quintela (a porta-voz para a Justiça). Queixa-se ainda dos textos da sondagem do Expresso, dando o PS a subir e o PSD a descer.

A seleção criteriosa de artigos inclui também peças que nem sequer são da autoria do mesmo jornalista, até artigos de opinião.

O DN sabe que o entendimento da direção do Expresso é manter tanto Filipe Santos Costa a cobrir o PSD, como Vítor Matos a editar a secção de Politica. À exceção do novo diretor-adjunto, David Dinis, quer o atual diretor João Vieira Pereira, quer os seus adjuntos Martim Silva e Miguel Cadete, que integravam a anterior direção de Pedro Santos Guerreiro, subscreveram a contestação do jornal enviada à ERC, em defesa do trabalho desta equipa da Política.

Viagem a Bissau e o artigo da rutura

Na redação do Expresso, o momento da "rutura" com o PSD está identificada a partir de um artigo sobre aquela que foi a primeira viagem oficial de Rui Rio ao estrangeiro. "Rio levou empresários amigos para fazerem negócios na Guiné", titulou o jornal a 14 de julho de 2018.

Na visita à Guiné Bissau, por ocasião do Dia de Portugal, a 10 de junho, o presidente social-democrata foi levou na comitiva três empresários militantes do PSD, que o apoiaram nas eleições diretas e que aproveitaram a viagem para explorar oportunidades de negócio, conforme os próprios confirmaram na altura ao Expresso.

Rui Rio, o líder que levantou a bandeira da necessidade de um "banho de ética" na política, entendeu que a sua seriedade estava a ser atacada - por alegadamente estar a misturar negócios privados com a ação partidária - e deu ordens aos dirigente do partido para cortarem relações com o jornalista.

Neste artigo, foram ouvidos todos os interlocutores, à exceção do próprio Rui Rio que se recusou a falar sobre o assunto. Esta visita causou tanto mais estranheza porque, sendo também o "dia das comunidades portuguesas", foi escolhido um destino onde nem sequer existe uma comunidade portuguesa, mas apenas alguns cooperantes.

A visita durou três dias e os empresários estiveram sempre ao lado de Rio em vários momentos do programa oficial, conforme demonstram fotografias publicadas na página oficial do partido. O mais simbólico, a homenagem aos soldados mortos na guerra da Guiné.

Com o avançar do ano, o partido ferveu com a contestação interna, que se foi agravando nos últimos seis meses, culminando com Rui Rio a ter que propor ao Conselho Nacional uma moção de confiança - e que viria a vencer. O PSD entende que foi o Expresso quem mais patrocinou a oposição ao seu líder e é esse um dos argumentos usados na queixa à ERC.

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