PGR: "Estamos longe de vencer a luta contra a corrupção"

Na abertura do novo ano judicial, Lucília Gago disse que não se pode ignorar "os resultados de múltiplos estudos de distintas entidades que invariavelmente apontam dados reveladores de estarmos longe de obtermos vencimento na luta contra a corrupção". Família e menores, cibercrime e o estatuto do Ministério Público também estiveram no seu discurso.

Corrupção e criminalidade económico-financeira foram dois dos temas abordados na abertura oficial do ano judicial pela Procuradora-Geral da República, considerando que necessita de particular atenção.

"Sob pena de inevitáveis e dramáticas consequências, designadamente de cariz socioeconómico, não podemos ignorar os resultados de múltiplos estudos de distintas entidades que invariavelmente apontam dados reveladores de estarmos longe de obtermos vencimento na luta contra a corrupção", frisou Lucília Gago.

A magistrada reiterou que a abordagem a uma multiplicidade de fenómenos criminais, com especial destaque para a criminalidade económico-financeira, exige dotação dos imprescindíveis meios humanos e técnicos.

Proteção de vítimas particularmente vulneráveis

Para 2019, Lucília Gago destaca também outras duas áreas temáticas: a proteção dos direitos das vítimas particularmente vulneráveis e a intervenção do Estado, em particular do Ministério Público, no âmbito do direito da família e das crianças.

A procuradora-geral explicou que a justiça tutelar educativa será ao longo do ano judicial objeto de uma profunda abordagem pelo Ministério Público e pela Procuradoria-Geral da República,

Em breve, adiantou Lucília Gago, terá início a execução do plano de ação "Crianças e Crimes na Internet 2019-2020", uma iniciativa da Procuradoria-Geral da República, que visa melhorar a capacidade de atuação do Ministério Público relativamente a fenómenos ocorridos com utilização das redes de comunicações, quer quando tenham natureza criminal quer quando sejam objeto de intervenção tutelar educativa.

No domínio do sistema da promoção dos direitos e proteção de crianças e jovens, alertou para a necessidade da regulamentação dos regimes de execução das medidas de acolhimento residencial e familiar. A não regulamentação da medida de acolhimento familiar, defendeu, tem condicionado fortemente a respetiva aplicação.

O Estatuto do Ministério Público e a "inevitável turbulência"

A procuradora-geral da República alertou ainda para a "inevitável turbulência" provocada pelas alterações decorrentes da reforma do Estatuto do Ministério Público, que colocam desafios numa magistratura com falta de meios humanos.

As previsíveis alterações, explicou a PGR, são de apreciável dimensão, no funcionamento e na estrutura organizativa e implicam ajustamentos "cujas repercussões e alcance prático não são totalmente antecipáveis".

"Colocarão desafios de relevo numa magistratura em que os meios humanos não se mostram cabalmente providos e em que à tensão quotidiana acrescerá, por força da entrada em vigor de tais alterações, inevitável turbulência", alertou Lucília Gago no discurso da cerimónia de abertura do ano judicial no cargo, o primeiro que profere desde que chegou ao cargo.

As modificações estatutárias que se perspetivam, adiantou, abarcam relevantes domínios com destaque para a consagração formal de um Departamento Central de Contencioso do Estado e Interesses Coletivos e Difusos, o qual considera que irá substituir, "com inegáveis ganhos de eficácia e celeridade, a estrutura informal hoje existente e que resultou de auto-organização do Ministério Público".

Relativamente à autonomia do Ministério Público, a procuradora-geral da República disse estar certa que, sendo um princípio basilar do Estado de Direito Democrático, e na qual se inscrevem matérias como a composição e competências do Conselho Superior do Ministério Público, será como tal inteiramente preservada. Lucília Gago considera essa autonomia "absolutamente imprescindível".

Na sua intervenção, a procuradora-geral da República destacou a importância de prosseguir e aprofundar a sensibilização e formação específica dos magistrados para a cibercriminalidade, designadamente quanto à obtenção de prova digital, apostando quer no diálogo com os órgãos de polícia criminal, que na interlocução com entidades públicas responsáveis pela segurança informática.

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