Parlamento convida jovem ativista sueca a vir discursar a Portugal

Greta Thunberg, adolescente sueca, iniciou o movimento de greve às aulas para obrigar os governos a agir contra as alterações climáticas

"O meu nome é Greta Thunberg, venho da Suécia e quero que entrem em pânico". A frase com que a jovem ativista Greta Thunberg tem iniciado boa parte dos seus discursos - alguns deles transformados em fenómenos de popularidade à escala global - poderá vir a ouvir-se em Portugal. O Parlamento aprovou esta tarde, por unanimidade, uma proposta para convidar a jovem sueca a discursar na Assembleia da República, tendo como tema as alterações climáticas.

A proposta para dirigir um convite à jovem ativista foi apresentada pelo presidente da comissão parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação, o bloquista Pedro Soares, e mereceu concordância generalizada.

A comissão vai agora dar conta da votação ao Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues - a quem cabem os convites institucionais a pessoas ou entidades exteriores ao Parlamento -, que deverá ainda pôr a questão à conferência de líderes. Até porque será necessário definir o formato para uma intervenção da jovem sueca que poderá passar, por exemplo, pela realização de uma conferência.

Os convites a pessoas externas para discursar no hemiciclo da Assembleia da República são raros e habitualmente restringidos a chefes de Estado.

"A nossa casa está a arder"

O trajeto público de Greta remonta ao verão de 2018, quando a jovem sueca assentou arraiais em frente ao parlamento do seu país, com um cartaz onde se lia "Skolstrejk för Klimatet" - qualquer coisa como "greve à escola pelo clima". Quando, semanas depois, se iniciou o ano letivo, surgiu o movimento fridaysforfuture, uma greve escolar que tem lugar todas as sextas-feiras, com o objetivo de reclamar mais medidas dos líderes políticos contra as alterações climáticas. A 15 de março último, jovens de mais de 70 países juntaram-se ao movimento, numa greve às aulas à escala planetária.

Desde o protesto inicial na sua cidade natal Greta Thunberg tem percorrido a Europa (sempre de comboio, por ser um meio de transporte muito menos poluente que o avião), seja para falar nos parlamentos nacionais seja para se juntar aos protestos nas ruas. A 17 de maio esteve no Parlamento Europeu e, como é seu hábito, não poupou na mensagem aos dirigentes políticos. "Quero que ajam como se a vossa casa estivesse em chamas. Se a vossa casa estivesse em chamas não estariam a voar à volta do mundo em executiva", disse então a jovem.

A imagem também se repete nos seus discursos. "A nossa casa está a arder", foi dizer à reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça. "Estamos a menos de 12 anos de não conseguirmos desfazer os nossos erros. Precisamos de fazer mudanças sem precedentes em todos os aspetos da sociedade, como reduzir as emissões de CO2 em pelo menos 50%", referiu então a jovem sueca, que não costuma intimidar-se com a presença de dirigentes políticos ou económicos. Como se viu no Fórum Económico Mundial: "Em lugares como Davos, as pessoas gostam de contar histórias de sucesso. Mas o vosso sucesso financeiro veio com um preço impensável".

Greta Thunberg já esteve no Parlamento italiano e britânico (onde reuniu com o presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow) e juntou-se, nas ruas de Londres, aos ativistas do Extincion Rebellion, um movimento transnacional que tem levado a cabo ações de desobediência civil um pouco por toda a Europa, mas com particular incidência no Reino Unido.

Agora com 16 anos, a jovem sueca foi diagnosticada há alguns anos com síndrome de Asperger, transtorno obsessivo-compulsivo e mutismo seletivo. "Isso quer dizer que só falo quando acredito que é absolutamente necessário", explicou a própria. Greta diz que desde os oito anos que houve falar em alterações climáticas, mas que inicialmente - quando lhe diziam que tinham que apagar as luzes - não levava a questão a sério, porque não via ninguém a agir de acordo com a gravidade que atribuíam ao problema. Mas a questão da clima acabou por se transformar numa obsessão, levando a que aos 11 anos sofresse uma depressão que a fez perder dez quilos, e da qual só saiu quando se convenceu de que havia muito para fazer e estava a desperdiçar tempo.

"Estamos numa situação de emergência"

Pedro Soares diz ao DN que "o problema das alterações climáticas está a ganhar um relevo enorme e a comissão parlamentar de Ambiente tem feito um grande esforço para colocar este tema na agenda política". É neste quadro que surge a proposta para o convite à jovem ativista sueca, que poderia "contribuir para que esta matéria ganhe relevo", sobretudo entre os mais jovens.

Para o deputado bloquista é preciso que "o processo de descarbonização da economia, e da sociedade, se transforme numa emergência" - "As notícias sucedem-se, ainda agora soubemos que há um milhão de espécies em risco. É preciso mostrar que estamos numa situação de enorme gravidade, estamos numa situação de emergência".

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