Geringonça, o "maior êxito da esquerda europeia nos últimos anos"

Com um governo socialista que não consegue apoios à sua esquerda para governar, os espanhóis olham para os últimos quatro anos de governação em Portugal com especial atenção. E o Financial Times elogia Costa.

Como poucas vezes, Espanha olha para a política portuguesa com redobrado interesse: o governo do PS com o apoio parlamentar do BE, PCP e PEV converteu-se, escreve este domingo a enviada do jornal El País a Lisboa, na "maior história de sucesso da esquerda europeia nos últimos anos", apesar de se tratar de uma "fórmula frágil".

"Seja para elogiar ou para a descartar", a esquerda espanhola usa a geringonça portuguesa como arremesso num debate que se arrasta sem que se vislumbre qualquer luz ao fundo do túnel para um acordo de governação em Espanha.

O jornal caracteriza o executivo do PS como "um Governo socialista em minoria presidido por Costa, depois de breves acordos assinados com cada um dos partidos à sua esquerda e nenhuma garantia de apoio parlamentar ao programa socialista".

A geringonça - como de forma depreciativa a direita apelidou a fórmula de governação - tem funcionado desde 2015, apesar de "poucos augurarem que o esquema aguentaria os quatro anos da legislatura, como afinal aconteceu". "O empenho era tão delicado que não há uma só foto jornalística que tenha imortalizado o momento", descreve a repórter Lucía Abellán. "Apenas umas quantas imagens protocolares que mostram Costa a assinar um rudimentar documento com líder das esquerdas. Em separado e sem posar. Todos os partidos jogavam muito nesta aposta", sintetiza o jornal El País.

A pose ficou para o Parlamento, o novo "centro de gravidade" na política portuguesa. Foi aí que os quatro orçamentos do Governo foram aprovados pela maioria de esquerda, apesar de nem sempre se terem entendido. A Lei de Bases da Saúde e a legislação laboral são dois exemplos difíceis e distintos apontados pelo secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro, numa curta entrevista ao El País.

Para Duarte Cordeiro, no futuro, "há que encontrar fórmulas à esquerda, que possam ser alternativa em matérias que são muito próximas, como os serviços públicos ou a luta contra as desigualdades". E sentenciou: "Os votantes de esquerda têm dificuldades para compreender a incapacidade de entendimento entre partidos progressistas."

De fora da análise do jornal ficam as mais recentes picardias vividas na geringonça - sobretudo das últimas semanas da legislatura, ainda mais desveladas com a entrevista de António Costa, no sábado, ao jornal Expresso - apesar de a reportagem notar que "é de esperar que a contenda política vá recrudescendo nas próximas semanas".

No editorial do jornal, sobre os últimos desenvolvimentos na política interna espanhola, sublinha-se que a aposta do PSOE de Pedro Sánchez em "envolver as organizações da sociedade civil no desenvolvimento de um programa cuja responsabilidade recaia sobre os grupos parlamentares pode, sem dúvida, ser interpretado como um procedimento indireto para que Unidas Podemos dispense a exigência de um governo de coligação e aceite uma fórmula de colaboração parlamentar, como em Portugal".

O "sagaz" Costa

Também este domingo, o editorial do britânico e conservador Financial Times (FT) reserva elogios para António Costa, juntando no mesmo pacote o Bloco de Esquerda (e referindo-se ao PCP com a fórmula "outros grupos de esquerda"). "Contrastando com a Itália, a coligação permanece estável e funcional", diz o jornal, apesar de ter havido quem olhasse com desconfiança para a solução em 2015.

O "sagaz" Costa, como adjetiva o FT, foi capaz de avançar com uma mistura de "escolhas políticas acertadas" e "uma boa dose de sorte", apresentando "perspetivas brilhantes para Portugal oferecem à Europa alguma esperança". Os créditos não são exclusivos para o PS, defende o jornal económico, com o FT a lembrar que o governo anterior de direita tomou "as medidas difíceis, mas necessárias".

É nesta linha que Paulo Portas defende a atuação do executivo de que foi vice-primeiro-ministro de Passos Coelho, falando ao El País. "É justo dizer que grande parte do trabalho estava feito", disse, num argumentário muito invocado por PSD e CDS. "Mas devemos reconhecer que Costa foi inteligente o bastante ao não mudar os fundamentos macroeconómicos", argumentou. Este elogio é a maior crítica da esquerda parceira do PS, nestes quatro anos.

Como antecipa o El País, "só o conjunto de resultados elucidará se a geringonça é reeditada ou se ficará como um episódio isolado na história democrática portuguesa". Espanha continuará atenta.