Familygate. PSD ficou sozinho a explorar o caso que embaraça Costa 

Primeiro-ministro associou onda noticiosa sobre as redes familiares do Governo à campanha eleitoral em curso para as Europeias.

Com a demissão, esta manhã, do secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins - por ter nomeado um primo para adjunto - António Costa esperava apaziguar as críticas de que é alvo por causa das redes familiares no seu Governo. Conseguiu-o, de certa forma, no debate parlamentar que manteve esta tarde com os deputados.

Na verdade, só o PSD explorou o caso, através de Fernando Negrão, que perguntou ao primeiro-ministro porque é que o Governo não consegue recrutar pessoas competentes sem que estas tenham relações familiares com membros do PS.

Costa vinha obviamente preparado para contra-atacar, recordando insistentemente que nos seus três anos de existência a comissão parlamentar da Transparência nunca se lembrou de discutir este assunto - e com isto sugerindo também que o assunto só surgiu agora por causa das eleições europeias do próximo dia 26 de maio.

Neste contexto, o presidente do Governo sugeriu que essa comissão faça uma "reflexão" para "definição de critérios" do que pode ser permitido ou não em termos de nomeações de familiares. Pelo meio, recordou notícias falsas entretanto dadas, como a de que a ministra do Mar Ana Paula Vitorino é filha de António Vitorino (atual diretor-geral da Organização Internacional das Migrações).

Depois, a única referência ao caso surgiu no CDS, pela voz de Assunção Cristas, numa referência de raspão à "família socialistas". E por aqui se ficou: nenhum outro partido explorou o assunto.

Ponto importante do debate foi o fortíssimo ataque do primeiro-ministro ao ex-Presidente da República Cavaco Silva.

António Costa procurou colar o PSD - e Cavaco Silva - às ideias defendidas por Joaquim Sarmento, porta-voz do Conselho Estratégico Nacional dos sociais-democratas, que esta quarta-feira lançou um livro em que defende que o IVA da restauração volte aos 23% (atualmente está nos 13%, por decisão do atual governo), ou que seja reposto o horário das 40 horas na função pública. O líder do PSD, Rui Rio, e o ex-Presidente da República marcaram presença no lançamento, e Costa aproveitou esse facto para desferir um violento ataque à direita.

Até foi Jerónimo de Sousa quem abriu as hostilidades contra Cavaco, apontando à "gritante declaração de Cavaco Silva", que atribuiu a degradação do Serviço Nacional de Saúde à redução do IVA da restauração. "É preciso ser muito rancoroso para voltar à carga com uma questão tão importante", disse o líder do PCP.

O primeiro-ministro aproveitou a boleia. "Bem pode estar furiosa hoje a direita, tão furiosa que até o ex-Presidente da República saiu do recato próprio a que os ex-presidentes da República se costumam dedicar, não hesitando sequer em polemizar, já nem é com o Governo, mas com o atual Presidente da República que lhe sucedeu, só para conseguir exprimir a raiva que tem, que a direita tem, relativamente ao sucesso desta solução governativa", atirou o líder do Executivo.

Para concluir assim: "O melhor que podemos fazer, para continuarem bem raivosos, como merecem, é continuarmos serenamente a executar as políticas" do Governo.

Pelo meio, o primeiro-ministro deixou uma promessa ao Bloco de Esquerda: a de que na próxima legislatura estará disponível para discutir o fim das taxas moderadoras do SNS nos atos prescritos por médicos. Também em resposta a Catarina Martins, Costa disse que o Governo não vai rever a meta do défice que estabeleceu para este ano (0,2% do PIB).

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