Diário da viagem de Magalhães merece reconhecimento da UNESCO

No dia em que a Comissão Nacional da UNESCO celebra 40 anos, José Moraes Leitão, presidente do organismo, defendeu que o diário da viagem de Fernão de Magalhães devia ser incluído no Registo de Memória do Mundo.

Portugal devia propor a inscrição do diário do italiano António Pigafetta, sobre a viagem de circum-navegação feita há 500 anos por Fernão de Magalhães, no Registo da Memória do Mundo da UNESCO.

A sugestão foi feita nesta segunda-feira pelo presidente da Comissão Nacional da UNESCO (CNU), embaixador José Moraes Cabral [que deu esta entrevista ao DN], na cerimónia dos 40 anos da criação da CNU presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

"Julgo que deveríamos considerar e propor, no quadro das celebrações da viagem de Magalhães e de Elcano, que o diário que desta viagem nos legou o italiano António Pigafetta seja igualmente inscrito" nesse registo histórico da UNESCO, afirmou o diplomata.

Moraes Cabral, fazendo um retrato da atividade da CNU, referiu que Portugal "pode orgulhar-se de ter dez inscrições no Registo da Memória do Mundo da UNESCO", destinado a preservar e divulgar documentos relevantes na história da humanidade e onde estão o Tratado de Tordesilhas, o Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia e a Carta de Pêro Vaz de Caminha.

O diplomata destacou depois a importância das redes UNESCO existentes em Portugal, como a das 12 cátedras UNESCO, a dos 62 centros e clubes UNESCO, passando pela das 11 cidades de aprendizagem da UNESCO, das 34 bibliotecas e das 11 reservas da biosfera ou das 104 escolas associadas da UNESCO.

Agora "estamos a tentar dinamizar uma rede de bens de origem portuguesa ou de influência portuguesa espalhados pelo mundo", adiantou o presidente da CNU, lembrando que Portugal já tem 17 bens reconhecidos como Património da Humanidade - sendo o Palácio de Mafra e o Santuário do Bom Jesus, em Braga, os últimos a obter esse estatuto.

"É um conjunto importante de que nos devemos orgulhar e cuja qualidade se impõe enquanto termo de referência quando formos chamados a apreciar outras eventuais candidaturas", assinalou o embaixador.

Em matéria de cultura, enfatizou Moraes Cabral, "temos uma inquestionável autoridade moral junto do Comité do Património Mundial, que nos cabe preservar e valorizar, continuando a dar o exemplo na escolha criteriosa dos bens a candidatar em termos do seu efetivo valor universal e da sua conformidade com a letra, o espírito e os objetivos da Convenção de 1972".

O diplomata, após lembrar que Portugal aderiu em 1965 à UNESCO (criada em 1945) e depois saiu em 1971 - para voltar após o 25 de Abril -, acrescentou: "Com esta retirada, estabelecemos porventura um precedente pouco honroso de que outros, de consciência igualmente pesada e igualmente desrespeitadores do Direito dos Povos, se têm aproveitado, imputando à organização todo o tipo de torpeza para tentarem justificar a sua saída."

Quanto aos próximos anos, o presidente da CNU identificou o património cultural subaquático como "uma área onde manifestamente deveremos fazer um esforço suplementar".

Moraes Leitão disse ainda que, "assim como se faz pedagogia em relação ao meio ambiente, também temos de passar a ter nas escolas disciplinas que refiram o valor do património histórico, cultural e económico" ( ver entrevista ).