Ex-diretor da PJ Militar diz que Marcelo aceitou falar com a PGR sobre Tancos

Presidente da República afirma que apenas se disponibilizou a "receber oportunamente" ex-diretor da PJ Militar em Belém, o que "acabou por nunca se realizar".

O ex-diretor da PJ Militar Luís Vieira afirmou esta quarta-feira que o Presidente da República se disponibilizou a intervir junto da Procuradora-Geral da República (PGR) face às suas reservas quanto à transferência para a PJ da investigação ao furto de material militar em Tancos.

A Presidência da República, numa nota recém-publicada na sua página digital, dá outra versão do que ocorreu em Tancos a 04 de julho de 2017, durante a visita de Marcelo Rebelo de Sousa aos paióis assaltados uma semana antes: "Como o Presidente da República já disse várias vezes, no final da visita a Tancos, o então ministro da Defesa trouxe para junto de si o então diretor da Polícia Judiciária Militar. O Presidente da República disse-lhe que haveria de o receber oportunamente, audiência que acabou por nunca se realizar."

O coronel Luís Vieira, que esteve preso preventivamente durante meses, falava perante a comissão parlamentar de inquérito ao furto de Tancos, em junho de 2017, onde considerou que a operação para recuperar o material "não foi uma encenação" mas "uma recuperação" - e deixou ainda uma garantia: "Nunca informei" o ministro da Defesa Azeredo Lopes, apenas "telefonei ao chefe de gabinete" do governante para dizer que "possivelmente teríamos recuperado o material".

Citado pelo jornal digital Observador, o oficial contou que a reunião onde alegadamente Marcelo Rebelo de Sousa se ofereceu para interceder junto da PGR "ocorreu na presença de muitos oficiais".

Nessa reunião, "o Presidente perguntou-me algumas coisas sobre a investigação e eu disse que não estava em condições de responder. Disse que estava preocupado com a decisão da PGR [em atribuir a investigação à PJ]. Ele disse que ia falar com a PGR e que ia dizer ao ministro da Defesa para falar com a ministra da Justiça", prosseguiu o coronel Luís Vieira.

O militar, dizendo não estar arrependido e que assumirá as consequências do que um dos seus principais investigadores no caso, Vasco Brazão, qualificou como encenação, disse ter transmitido as suas preocupações com a PGR durante a visita do Presidente da República a Tancos, no dia 4 de julho de 2017 e na companhia do então ministro da Defesa Azeredo Lopes.

Para Luís Vieira, a decisão de Joana Marques Vidal em retirar a PJM da investigação a um crime estritamente militar violava a lei - em rigor, "três normas da Assembleia da República" - e por isso transmitiu a sua "preocupação" ao Presidente da República.

Sobre a operação simulada para recuperar o material furtado, Luís Vieira insistiu que "não foi encenação, foi recuperação". Mais, "não sei como" os agentes da PJM envolvidos "cumpriram a missão que lhes dei" para recuperar o material furtado, disse o ex-diretor da PJM, que participou na operação. "As tarefas implícitas" dos seus subordinados "para a concretizar ainda não sei", adiantou.

"Agi como militar, como chefe militar, não como diretor nacional" da PJM, ao participar na operação para recuperar as armas e porque meses antes "dei instruções para me chamarem quando isso acontecesse". Sabendo que há quem diga que "fiz asneira", Luís Vieira repetiu: "Não estou arrependido, sofrerei as consequências."

Ainda sobre Joana Marques Vidal, o ex-diretor da PJM reconheceu ter-se tornado incomunicável depois do telefonema "tão desagradável" em que a PGR lhe comunicara que a investigação iria ficar a cargo da PJ. "Foi um quero, posso e mando" de Joana marques Vidal, que "não tendeu aos meus argumentos" de que estava "a violar" a lei.

Questionado sobre se sabia estar a infrigir a lei, o antigo diretor da PJM contrapôs que a PGR "Também não obedeceu à lei, violou três normas" legais aprovadas pela Assembleia da República.

Luís Viera argumentou ainda que os documentos que entregou ao Presidente da República e ao ministro da Defesa eram apenas "pareceres meus" sobre os acontecimentos e para ficarem como registos para "memória futura". Eles "não têm" conteúdo passível de violar o segredo de justiça.

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