Comandante da fragata Corte Real afastado após viagem tempestuosa

Decisões tomadas pelo oficial durante temporal que causou danos consideráveis no navio terão estado na base da decisão do chefe da Marinha.

O chefe do Estado-Maior da Marinha exonerou quarta-feira Valter Bulha de Almeida do comando da fragata Corte Real, dias após o fim de uma missão ao serviço da NATO, soube o DN.

Na base da demissão terão estado os estragos consideráveis que o navio sofreu durante o temporal - com ondas da ordem dos 15 metros - que enfrentou na viagem de regresso, disseram fontes militares ouvidas sob anonimato por não estarem autorizadas a falar.

A fragata regressou sexta-feira a Lisboa, após uma missão de três meses ao serviço da NATO e que envolveu a participação no maior exercício militar realizado pela Aliança nos últimos anos - ao largo da Noruega, onde a Corte Real comandou os meios de combate da guerra de superfície da força naval criada para o efeito.

Segundo várias das fontes, terão sido as decisões tomadas pelo comandante naquele período - como a velocidade do navio, por exemplo - que contribuíram para a ocorrência de mais e maiores danos do que aqueles que a fragata inevitavelmente sofreria perante aquelas condições de mar, admitiram algumas das fontes com experiência de navegação.

Os maiores estragos foram provocados na peça de artilharia de 100 mm situada à proa, cuja dimensão e custos de reparação só serão conhecidos depois de concluído o processo de avaliação.

O porta-voz da Marinha, comandante Pereira da Fonseca, limitou-se a dar uma resposta lacónica ao DN sobre a decisão tomada pelo almirante Mendes Calado: o chefe do ramo "tem competência para nomear e exonerar os comandantes das unidades" navais.

A verdade é que essa competência tem de ser fundamentada, como há meses clarificou o tribunal a propósito de um caso que envolveu um antecessor do almirante Mendes Calado como chefe da Marinha.

Fica também por saber se a Marinha abriu algum processo de averiguações ao ocorrido, bem como para apuramento de eventuais responsabilidades.

A par dos registos de bordo, admitiu uma das altas patentes do ramo, esse processo de averiguações permitiria aprofundar algumas questões relacionadas com o processo de decisão do comandante Bulha de Almeida - como saber se podia ter invertido o rumo de navio para ficar com as ondas pela popa, situação em que os estragos causados são necessariamente menores.

Sendo essa operação de colocar o navio a "correr com o tempo" arriscada ou mesmo impossível de concretizar com o tipo de mar existente, manter o navio com as ondas pela proa - a "navegar de capa" - envolveria outras medidas de minimização de estragos que alegadamente não terão sido adotadas pelo comandante do navio, cujo sucessor, comandante Coelho Gomes, já estava nomeado para assumir funções no primeiro semestre de 2019.

Certo, segundo algumas das fontes, é que a decisão foi inesperada - o oficial não levava a espada quando foi recebido pelo almirante Mendes Calado - e causou algum mal-estar entre oficiais com experiência de navegação naquelas condições de mar, observaram algumas das fontes.

Esse mal-estar poderá também estar associado ao recente processo de escolha e nomeação de oficiais superiores para o curso de promoção ao almirantado, sem que tivessem o tempo de comando de navios ou as horas de navegação suficientes e estatutariamente obrigatórias - e que nos bastidores passaram a ser designados como "comandantes Ryanair", referiram várias fontes com ironia.

Exemplo disso, adiantaram, ocorreu com a criação artificial de um cargo para um desses oficiais obter as qualificações mínimas: a Marinha nomeou-o como comandante de uma força-tarefa - em rigor, unidade-tarefa - composta por um único navio, quando este foi há semanas em missão a Angola.

Foto retirada das redes sociais

O regresso a Lisboa da fragata Corte Real - navio que foi comandado pelo atual chefe da Marinha - na sexta-feira também ficou marcado por um episódio protagonizado por um agente da PSP à civil.

O caso, que o porta-voz da Marinha disse ao DN ter motivado apenas contactos informais do ramo com a PSP, foi detetado através de uma fotografia publicada pela Marinha nas redes sociais e onde se vê o referido agente com a pistola de serviço exposta à cintura.

Perante as reações, a Marinha optou por retirar a imagem da sua página de Facebook.

Segundo diferentes fontes policiais ouvidas pelo DN, a ocorrência revelou apenas desatenção ou descuido por parte do polícia, uma vez que a arma é de serviço e anda permanentemente com os agentes da PSP.

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