Armas roubadas estavam na casa da avó do principal suspeito

Os dados fornecidos pelas operadoras telefónicas e os registos de portagens foram fundamentais para a investigação da PJ, que já levou à prisão preventiva do diretor da Polícia Judiciária Militar

As armas roubadas de Tancos estavam escondidas na propriedade da avó do principal suspeito do crime, em Portela de Carregueiros, Tomar, a 35 km dos paióis militares de onde foram tiradas. Foi ai que a investigação à estranha entrega do material localizou o suspeito, e também os militares do Nucelo de Investigação da GNR de Loulé, um dia antes da descoberta das armas ser anunciada. Ou seja, estiveram todos juntos, a preparar a entrega. A descoberta foi fundamental, e foi feita pela triangulação das antenas de telemóveis. Assim os investigadores da Operação Húbris da PJ sustentaram as suas suspeitas que terminaram na detenção dos suspeitos envolvidos. Mesmo que muitos tivessem o cuidado de os desligar em alguns momentos chave - como esse.

O material roubado de Tancos em julho do ano passado viria a ser encontrado a 18 de outubro na Chamusca. E essa entrega, segundo a investigação, terá sido delineada de forma rocambolesca pela PJ Militar, em coordenação com o suspeito da autoria do crime, um ex-fuzileiro natural de Albufeira, de 32 anos. O diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM), coronel Luís Vieira, que se encontra em prisão preventiva, terá alinhado no plano. A ideia seria, segundo a investigação, que os louros da recuperação do material militar ficassem naquela polícia. Daí que o suspeito foi deixado ir em liberdade - tinha, nomeadamente, uma viagem marcada para fora do país.

A própria encenação da descoberta teve a participação das polícias, que não se limitaram a ir buscar o material onde o suspeito o deixaria. Na noite anterior, dois elementos elementos do Núcleo de Investigação Criminal (NIC) da GNR Loulé, terão ido numa carrinha Mercedes da PJM até à propriedade da avó de João Paulino. Um carro da polícia de investigação militar não levantaria suspeitas e traria tranquilamente as armas roubadas de Tancos para o descampado onde viriam a ser encontradas, na Chamusca.

A carrinha da PJM terá chegado à propriedade da avó de Paulino por volta da hora jantar. A PJ suspeita que um dos elementos seria um dos sargentos da GNR, uma vez que a localização do seu telemóvel fornecida pela operadora telefónica apontava exatamente para Carregueiros. Estaria acompanhado de um outro guarda, que seria o amigo de infância do suspeito do roubo - e que teria dado o mote inicial para todo o projeto. Este, embora tenha mantido o seu telefone desligado entre as 21:10 e as 01:55, quando o acionou, a localização apontou para a propriedade onde estariam guardadas as armas.

Daqui, a carrinha da PJ Militar terá levado as armas para o terreno na Carregueira, e terá depois encenado a descoberta - e, até, a chamada telefónica que espoletou a ação. Esta foi feita por um dos militares que estaria em piquete na margem sul para o oficial que a recebeu - na sede da PJ Militar na noite da descoberta. Foi depois dado o alarme e a equipa no terreno - a mesma que tinha feito a encenação - acabou por anunciar a descoberta - antes mesmo de avisar a Polícia Judiciária - que era a responsável pela investigação.

O amigo na GNR de Loulé

E o que estavam os elementos da GNR de Loulé a fazer naquele local? O plano para a devolução do material roubado de Tancos terá começado a ser delineado no final de agosto. O principal suspeito, ter-se-á encontrado com o amigo de longa data, GNR no Núcleo de Investigação Criminal de Loulé. O cruzamento dos dados dos telemóveis permitem concluir que se encontraram em Albufeira. O suspeito propôs devolver o produto do roubo se nada lhe acontecesse - até porque, pelos vistos, não estava a conseguir vendê-lo.

Mais tarde, quando se iniciou o processo, a Polícia Judiciária começou a a investigar as localizações dos telemóveis - uma vez que ainda não tinha escutas - e percebeu que havia muitas similitudes e localizações estranhas dos vários militares da PJ - nomeadamente no Algarve, com os GNR. Foi em parte por isto que perceberam que a descoberta poderia não ter sido assim tão simples e que era possível que tivesse havido encenação para encontrar as armas com o encobrimento do próprio diretor da Polícia Judiciária Militar.

O Tribunal de Instrução Criminal (TIC) decretou na tarde de ontem, sexta-feira, a medida de coação mais gravosa, a prisão preventiva, para o diretor da PJM, que terá confessado a encenação, invocando interesse nacional, e para o suspeito do roubo, conforme requerido pelo Ministério Público. O tribunal de instrução foi ao encontro do pedido do MP, deixando os restantes seis arguidos sair em liberdade, mas sujeitos a termo de identidade e residência, suspensão do exercício de funções, proibição de contacto com os coarguidos e com quaisquer militares das Forças Armadas, da GNR e elementos da Polícia Judiciária Militar.

Rui Baleizão, advogado do diretor da PJM já anunciou que vai recorrer da medida.

Segundo o Ministério Público, em causa estão "factos suscetíveis de integrarem crimes de associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas". Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.