Avante!. Só por uma vez o PCP não fez a festa

Nos 44 anos que leva a Festa do Avante! só em 1987 a iniciativa não se realizou, em resultado do que o PCP classificou então como uma "decisão reacionária do governo Cavaco/PSD", "inqualificável, discriminatória e persecutória".

Já lá vão 44 anos sempre com a data no calendário - no primeiro fim de semana de setembro os comunistas (e não só) rumam à Quinta da Atalaia, no Seixal, para três dias que são um misto de encontro popular, festival de música e rentrée política. É assim desde 1976, com uma única exceção: em 1987 não houve Festa do Avante!. Agora, está em suspenso se o ano de 2020 vai juntar-se a esta exceção, em resultado das medidas para conter a pandemia da covid.-19.

Esta sexta-feira, o primeiro-ministro, António Costa, abriu a porta à realização da iniciativa, afirmando que esta, a ter lugar, terá de cumprir as orientações sanitárias da Direção-Geral da Saúde (DGS), mas a atividade política dos partidos "não está proibida".

Em 1987 a não realização da festa provocou polémica e seria o detonador para a aquisição, poucos anos depois, da Quinta da Atalaia, no Seixal, onde o evento se realiza ininterruptamente desde 1990. Antes, a iniciativa era uma festa "saltimbanco" que começou na FIL, passou pelo Jamor, pelo Alto da Ajuda e, mais tarde por Loures.

Com exceção do destino definitivo que tem agora, foi ao Alto da Ajuda que mais vezes rumaram os visitantes da Festa do Avante!, que ali se instalou logo em 1980 e aí se manteve até 86. Mas no ano seguinte as coisas foram diferentes e o PCP não conseguiu assegurar o espaço para a festa devido ao que então qualificou como "uma decisão reacionária do governo Cavaco/PSD".

Num comunicado emitido em junho desse ano, a Comissão Política do Comité Central do PCP anunciava a não realização da festa, considerando "esgotadas as prolongadas e insistentes diligências do PCP e do órgão central do partido para que fosse autorizada a realização da Festa do Avante! no Alto da Ajuda". "Na conclusão de procedimentos dilatórios inclassificáveis, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa [o centrista Nuno Krus Abecasis] e o governo demitido do PSD de Cavaco Silva, conluiados, recusaram a utilização do terreno" ao PCP, que se queixava então de uma "decisão inqualificável, discriminatória e persecutória".

O partido dizia então que não havia razões válidas que justificassem a recusa: "O invocado plano de construção nesse terreno de instalações universitárias (a que não corresponde, no período necessário para a realização da Festa, o início de quaisquer obras) aparece como um mero pretexto para impedir a realização da maior e mais notável iniciativa festiva e cultural do povo português, na qual participam anualmente centenas de milhar de portugueses".

O país estava, na altura, à distância de pouco mais de um mês de eleições legislativas que, em julho de 1987, viriam a dar a primeira maioria absoluta a Cavaco Silva, então derrubado por uma moção de censura apresentada pelo PRD.

Um festival de música dentro de uma festa política

Desde a edição inicial, em 1976, que a Festa do Avante! se afirmou como um evento que, levantado todos os anos pelos militantes comunistas, extravasava as fronteiras do partido. Para isso muito contribuiu o forte pendor cultural que a iniciativa assumiu desde os seus primórdios, fazendo subir ao palco os principais nomes da música portuguesa - e não só. Ary dos Santos, Carlos Paredes, Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Jorge Palma, Sérgio Godinho, Xutos & Pontapés, Rádio Macau, GNR, Rui Veloso são alguns dos nomes que foram passando pela Festa do Avante!. Em 1980 Chico Buarque também subiu ao palco, numa edição onde esteve também Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto e Sérgio Godinho, num ano que assinalava o quarto centenário sobre a morte de Luís de Camões.

Logo em 76 a música clássica também tinha subido ao palco, com a Orquestra Sinfónica Popular. Nove anos depois, foi a vez da Orquestra de Câmara de Bratislava e, em 1995, da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Em 1996 começou a tradição que ainda hoje se mantém de abrir os três dias de festa com um concerto de música clássica, na sexta-feira à noite.

Programas que deram à Festa do Avante! um peso considerável no calendário do mês de setembro, quer em termos culturais, quer em termos políticos. E que levam à Quinta da Atalaia, no Seixal, além de muitos militantes comunistas, muitos outros visitantes, até de cores políticas bem distantes do PCP.

Inspirada na Festa do L'Humanité, do Partido Comunista Francês, a festa dos comunistas portugueses foi buscar o nome ao jornal Avante!, órgão oficial do PCP. Feito o 25 de abril, logo em 1974 e 75 o partido promoveu convívios em Belém que foram já uma espécie ce "pré-Festa do Avante!". Rúben de Carvalho, falecido no ano passado, que desde o início esteve envolvido na organização da festa, - e o grande responsável, ao longo dos anos, pela programação cultural do evento - diria da primeira edição, em 1976, que "a afluência excedeu tudo quanto se podia imaginar e a FIL abarrotava literalmente de gente".

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