A esquerda mais à esquerda do Bloco de Esquerda

Subscritores da Moção M, críticos da direção bloquista, têm um discurso duro sobre o partido. "Abdicámos de fazer a política que importa", acusou um militante. E recusam que o BE se encoste

A presidente do CDS, Assunção Cristas, que tanto tem criticado e apontado o dedo às "esquerdas encostadas", encontra uma estranha caixa de ressonância na corrente minoritária de oposição interna do Bloco de Esquerda, agregada na Moção M, cujo título é "Um Bloco que não se encosta".

Esta Moção M sublinha que, logo a abrir o seu texto, "o projeto político do BE sempre se assumiu como autónomo e alternativo ao do centrismo, do social-liberalismo e de quem olha para o capitalismo como o fim da história". É, por isso, escrevem os subscritores da moção, "porque um mundo novo é o que nos move, o BE permanece a esquerda que não se encosta".

E esta esquerda "não se encosta ao fatalismo que cruza os braços enquanto se aprofunda a desigualdade no mundo, se preparam novas guerras e crescem os fascismos"; "não se encosta às regras da burguesia europeia que confinam a política ao horizonte único da austeridade permanente"; nem "se encosta nem se resigna com a ditadura financeira internacional"; e "não se encosta às formas rotineiras e tarefistas de fazer política, aos modelos burocráticos e verticalizados, à institucionalização e redução da política a um espetáculo mediático".

No púlpito do Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa, onde decorre a XI Convenção bloquista, o sucesso recente de um partido que tem participado na atual solução governativa, com o PS a governar com o apoio do BE, PCP e PEV, não encantou militantes como Mateus Sadock, que afirmou a sua desilusão. "O Bloco não é o partido que eu achava que era." E mais à frente: "Abdicámos de fazer a política que importa."

Também para João Patrocínio, há um mea culpa a fazer. "Precisamos de assumir que a esquerda falhou", atirou. Afinal, a esquerda encostou-se, disse, arrancando aplausos aos "aderentes" da moção (que, sentados à esquerda do pavilhão não aplaudiram, por exemplo, a intervenção de Francisco Louçã, que levantou o pavilhão).

"Não há debate interno, só interessa a manchete do dia."

Também Mateus Sadock apontou críticas à organização interna: "Não há debate interno, só interessa a manchete do dia." Defendendo as bandeiras da Moção M, este jovem bloquista recusou o que pode vir a ser a social-democratização do partido.

Ao "caos geoestratégico" e à "urgência do internacionalismo e do eco-socialismo", a Moção M defende que como "a geringonça não resolveu nenhum dos problemas fundamentais do país, a luta anti-austeritária continua a ser urgente".

No texto desta moção, que classifica o governo socialista de "social-liberal", "o BE deve partir das enormes limitações da "geringonça" para uma rutura política com as instituições europeias existentes e com a burguesia nacional que permita combater a ideia de que existe um qualquer acordo idílico com o PS que possa mudar de facto as condições de vida de quem vive e quer viver em Portugal".

"Só assim", apontou Mateus Sadock, "não estamos condenados ao triste destino de um partido social-democrata".

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