Ruy de Carvalho: "Todos os anos passo no dia da minha morte, mas qual será?"

Prestes a celebrar 90 anos, Ruy de Carvalho sentou-se à conversa no "Alta Definição" para falar do amor da sua vida, da família, da morte e dos mais de 70 anos de carreira

Assinala 90 anos de vida no próximo dia 1 de março. Para celebrar com aqueles que o admiram, Ruy de Carvalho passou pelo Alta Definição, da SIC, para percorrer, na companhia de Daniel de Oliveira, todas as décadas da sua vida.

O menino "aventureiro" que nasceu no dia de Carnaval de 1927, e que passou os primeiros anos com a família em África, estreou-se no teatro com apenas 16 anos. Aquele que é hoje um dos mais consagrados atores portugueses começou por recordar emocionado, nesta entrevista, o período em que iniciou o namoro com a mulher da sua vida, Ruth, que morreu em 2007.

"A perda está sempre presente. Eu gostava de ter partido antes, isso não aconteceu. Mas a memória dela está sempre presente. Às vezes, até me apanho a falar com ela. Isso é uma enorme vitória moral, ter uma grande mulher ainda comigo", reconheceu.

Apesar de já ter lutado contra três tumores na bexiga, e outros problemas de saúde, Ruy garante que a morte não o aflige. "Não tenho medo da morte. É uma coisa natural. Está-me destinada. Não vou ficar por cá. Mas enquanto cá estiver, faço questão de viver intensamente. Não morro antes do tempo, de maneira nenhuma".

Ainda assim, admite que tem alguma curiosidade para saber o que o espera. "Um dia, uma cigana leu-me a sina e disse que eu ia morrer aos 33 anos. E eu dizia isso como graça. Todos os anos passo no dia da minha morte, mas qual será o dia? E morrerei de quê? Será que o coração para? Será um acidente? Tenho curiosidade de saber", confessou.

Ao falar da profissão, o artista que já soma mais de 70 anos de carreira explicou que os egos nunca o afetaram. "Acho que tenho um chapéu-de-chuva maravilhoso. Não me chovia muito em cima essa maldade". Aliás, se há algo que tem vindo a tentar "semear" ao longo dos anos, é o amor. "Sem amor, a vida não vale a pena".

E o que é, para ele, amar? "Amar é envelhecermos juntos. E a maior parte não envelhece juntos. Não são capazes de chegar ao fim da vida com o mesmo amor que tinham quando casaram. Não é fácil. Não é fácil viver em casamento. Inicialmente, a parte dominante é a sexual, mas há gente que não pensa que 23 horas e meia são para viver a vida, com maus cheiros, doenças, com ir à casa de banho, com mau hálito, com o ressonar... Há muita coisa que faz parte do casamento e isso tem que ser pensado. A estupidez é que destrói as coisas, o egoísmo, a preguiça, o egocentrismo", defendeu o ator.

Pai de dois filhos, avô de três netos e com uma bisneta com pouco mais de um ano, Ruy de Carvalho lamentou ainda a forma como, em 2012, a TVI pôs fim ao seu contrato de exclusividade. "Ao fim de 14 anos como exclusivo, acabou e nem disseram nem boa tarde, nem boa noite. Dei a outra face e ficaram muito ofendidos com isso. O que eu peço é só boa educação. Não custa muito".

O homem que gostava de poder ter "uma varinha para acabar com as guerras" garante ainda que não tem sonhos para cumprir. "Não preciso de ser grande, não preciso de ter papéis enormes ou de protagonistas. Preciso é de participar num bom espetáculo".

Sabe que é adorado por um país inteiro - "dão-me beijinhos, pagam-me o almoço, dizem-me para não morrer ou então 'já posso morrer, porque já o vi'" -, e é por isso que Ruy de Carvalho assegura: "Se o país me recordar com saudade, vou satisfeitíssimo. Quando falarem de mim, digam que o Ruy foi útil quando por cá passou. Essas são as palmas eternas que vou ter", conclui.

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