Miss Portugal perdeu o glamour mas ainda se disputa a coroa

A gala não é transmitida na televisão, as candidatas têm de pagar despesas do seu bolso, mas o título de miss ainda faz sonhar.

"Procuram-se jovens bonitas, com personalidade e um papel ativo na sociedade. É importante que queiram ter uma carreira". Este poderia ser o anúncio utilizado pela organização Miss República Portuguesa, desde 2011 a tentar encontrar a miss perfeita. Não é. O resumo pertence a Isidro de Brito, presidente da organização, e um dos nomes que pretende revitalizar o concurso que já foi um dos mais mediáticos de Portugal. "Há quem pergunte se ainda existem misses, se isso não é algo do século passado", desabafa Rafaela Pardete, a Miss Portuguesa 2015. Não é Miss Portugal - o nome está patenteado e foi preciso encontrar outro. "Abreviámos e agora em vez de lhe chamarmos Miss República Portuguesa optámos por usar o título Miss Portuguesa". Fica mais no ouvido, mas está longe de ser aquilo que o concurso Miss Portugal já foi. E a culpa não é só do nome.

"Antes de 1950 já existiam concursos para escolher a mulher mais bonita de Portugal. Tinham o patrocínio ou o apoio de jornais como o ABC, O Século, e mais recentemente do Correio da Manhã . Inexplicavelmente, em 2002, o concurso desapareceu", tenta contextualizar Isidro de Brito. Não é totalmente verdade. Em 2004 houve uma tentativa de recuperar o conceito. O concurso Miss Portugal 2004 era uma parceira entre a SIC e o jornal Correio da Manhã e trazia uma novidade: seria o público a escolher a mulher mais bonita de Portugal. Isto foi depois do concurso ser, a par dos Jogos Sem Fronteiras e do Festival da Canção, um dos programas mais vistos na televisão portuguesa. Antes de Carla Caldeira vencer, em 1990, ou Marisa Ferreira, oito anos depois. E ainda todos sabem que Ana Maria Lucas foi a primeira Miss Portugal da "nova era", em 1970.

Em 2004, os requisitos eram mais ou menos os mesmo das eleições anteriores, mesmo as pré-25 de Abril: podiam concorrer jovens entre os 18 e os 23 anos e tinham de ser solteiras. "Procuramos uma mulher que não seja só uma miss, no sentido de ser uma pessoa bonita, mas para além disso, que tenha conteúdo e talentos e que traduza melhor o que é a mulher portuguesa de hoje", explicava, então, Isabel Rodrigues, a diretora de marketing do jornal associado ao concurso.

Em 2015, as candidatas a rainhas da beleza continuam a não poder ser vistas a fumar, a beber ou a namorar em público. E nem sequer podem ter fotografias ousadas, por exemplo, nas suas páginas de Facebook. Regras que muitas das jovens com 16 ou 17 anos e que hoje concorrem aos castings não conseguem cumprir. São afastadas. Isidro de Brito tenta desmistificar. "Podem namorar, claro, a Miss Mundo foi pedida em casamento durante o seu mandato. Mas uma miss tem de ser um exemplo e não nos podemos esquecer que é um trabalho muito exigente: há pais e namorados que não aceitam as viagens, as ausências", explica Isidro de Brito.

Rafaela Pardate, por exemplo, esteve um mês na China a participar na competição Miss Mundo. Mas o problema principal nem são os namorados, mas o investimento financeiro que uma ida a estes certames implica. As concorrentes portuguesas têm de pagar muitas despesas do seu próprio bolso, ou do bolso de familiares. A organização Miss República Portuguesa não consegue cobrir todos os gastos, apesar de, desde 2011, se ter começado a organizar melhor e a pedir patrocínios.

"Começámos a fazer os castings nesse ano e a evolução data dessa altura", explica o responsável. Não havia misses antes? "Sim, mas não existiam castings nem nada organizado. Faziam-se uns jantares e havia um desfile, e a miss era escolhida assim. Depois, participava nos concursos internacionais", conta. Andreia Rodrigues, manequim e apresentadora da Sic, foi a miss escolhida para representar Portugal nas competições internacionais em 2008.

O sonho dos organizadores - e das candidatas - é levar uma representante portuguesa aos grandes concursos. Existem dezenas, mas apenas cinco pertencem áquilo que é chamado o Grand Slam: Miss Mundo - o concurso mais antigo, Miss Universo - o mais mediático, devido aos anos em que foi comandado pelo empresário Donald Trump, Miss International, Miss Supra Nacional e Miss Grand International. É preciso pagar licenças para participar nestes concursos: "Os mais caros custam 5000 euros", revela Isidro de Brito.

As roupas são normalmente cedidas por estilistas. As joias não. A viagem é paga pela organização, mas o excesso de bagagem - e é preciso levar muita coisa, entre maquilhagem, sapatos e diversa roupa - não entra na fatura paga pela organização Miss República Portuguesa. Afinal, não basta ser "bonita e ter personalidade". Também é preciso ter dinheiro para pagar o sonho, o que não acontece em países da América Latina, por exemplo, onde até existem clínicas de cirurgia especializadas em transformar uma adolescente bonita numa forte candidata aos títulos de Miss Mundo ou Miss Universo. Em países como o Brasil, a Venezuela ou a Colômbia, os concursos de beleza são uma espécie de desporto nacional. Em todas as cidades existem organizações ou sindicatos que organizam concursos para escolher uma miss. As jovens acorrem em massa - em países muito pobres, ser miss é encarado como um caminho para uma vida melhor e as próprias famílias investem tudo o que têm nesse sonho. E as candidatas chegam aos concursos internacionais já como prováveis vencedoras.

"Na China, partilhei o quarto com a Miss Venezuela . Eu levava três malas e tive de pagar do meu bolso 600 euros de excesso de peso - já paguei 1800, noutras competições. A minha companheira trazia oito malas e nem sabia o que cada uma delas tinha. A organização fez-lhe a malas e deu-lhe um guião onde estava explicado aquilo que ela ia vestir em cada um dos dias", contou ao DN Rafaela Pardate, 24 anos, e uma vida a ganhar concursos de beleza.

"Todas as meninas querem ser princesas e eu cresci a ouvir as amigas da minha mãe dizerem que eu era muito bonita e que um dia seria miss. Acabou por acontecer", revelou a representante portuguesa no concurso Miss Mundo 2015.

"Normalmente a jovem que é escolhida como Miss Portuguesa concorre ao Miss Mundo. Para o concurso de Miss Universo é preciso ter outras características", explica Isidro de Brito.

Para concorrer a Miss Mundo é obrigatório que a candidata esteja ligada a uma causa social. "É o conceito de beleza com propósito. E tem de ser mais menina, ao contrário da Miss Universo, que se espera que seja mais alta, mais mulher", decompõe Isidro de Brito. As candidatas não sabem disto, até entrarem no circuito.

"Há jovens muito bonitas mas que não apostam nos concursos certos. As provas para Miss Portuguesa são muito exigentes: têm de ter um talento, fazer provas físicas". Ter uma carreira ajuda. Emília Araújo, a candidata deste ano a Miss Universo, é médica. A vencedora de 2015 foi a modelo Mireia Lalaguna, natural de Barcelona e estudante de Farmácia. Rafaela Pardete é licenciada em Marketing e Relações Públicas e está a tirar ouro curso, de Gestão de Empresas. "Não chega ser bonita", reforça Isidro de Brito. Pois não.

Rafaela viajou sozinha para a China - não havia dinheiro para mais um bilhete ou mais uma estadia - mas a família foi ter com ela à final. Afinal, foi a mãe que lhe disse que um dia haveria de ser miss. Aos 14 anos venceu o Concurso Miss Vestido de Chita, em Setúbal, onde vive, depois foi Miss Setúbal e Miss Vitória de Setúbal, ganhou ainda um concurso de uma operadora de telemóveis e em 2013 concorreu ao Miss República Portuguesa. Não ganhou. Ficou no top 10. Este ano regressou e conquistou a coroa.

"Vou parar agora, sinto que fechei o ciclo, tenho de começar a tratar da minha vida. Ser miss ocupa muito tempo", confessa. Cumpriu o sonho, apesar de ser menos brilhante do que aquele que imaginava em menina, quando assistia ao concurso pela televisão e sonhava ser ela a usar a coroa.

"Ser Miss em Portugal, agora, não é muito relevante. No estrangeiro há um fascínio pelas misses. Aqui as pessoas até ficam surpreendidas quando digo que sou miss. Lá fora, se alguém me vê com a faixa de miss faz logo uma festa", desabafa Rafaela.

Ter deixado de ser exibido na televisão fez do concurso para escolher a Miss Portugal um acontecimento que parece pertencer ao passado. O tempo em que ter sido coroada miss garantia uma carreira na moda ou na televisão - como aconteceu com Carla Caldeira - já não existe. "Tira-lhe visibilidade, é verdade, mas temos de ter noção do tempo em que vivemos: uma hora e meia em televisão implica uma mega produção que nós não podemos custear. Então, encontramos este meio termo", refere Isidro de Brito. Para as meninas que sonham ser princesas e usar uma tiara ser Miss Portuguesa ainda é ser uma miss. Quem é que não quer ser a mais bonita?

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