Uma estrada ruiu e levou-os com ela. Quem são as vítimas de Borba

Nas freguesias de onde são naturais, chora-se a perda. A quinta e, ao que tudo indica, última vítima mortal da tragédia de Borba foi resgatada este sábado. Fortunato Ruivo seguia em direção a uma loja de informática.

Às 15:45 do dia 19 de novembro, segunda-feira, uma extensão de cerca de 80 a 100 metros da antiga EN255 desaparece do mapa. A via que liga Borba a Vila Viçosa seria engolida através por um deslizamento de terras para o fundo de uma pedreira, coberta de água lamacenta. Com ela, iriam Gualdino, João, Zé, Carlos e Fortunato. Todos homens com a ideia de um outro destino e todos longe da sorte naquela tarde.

Os operários da pedreira

Pouco depois de terem dado início àquele que poderia ser apenas mais um dia de trabalho, Gualdino e João ver-se-iam no meio da tragédia que assombrou Borba há quase duas semanas.

Só cerca de 24 horas depois seria encontrada a primeira vítima mortal, Gualdino Pita, de 49 anos. Sepultado pouco depois de resgatado, trabalhava como maquinista na pedreira. Gualdino, natural da freguesia de Santiago Maior, Beja - onde decorreu o seu funeral -, operava como funcionário da A.L.A de Almeida, uma empresa que explora uma das pedreiras que ladeia a estrada 255. Foi para lá que terá sido arrastado, juntamente com o colega João Xavier, de 57 anos.

No dia 19 de novembro, João estava na pedreira como auxiliar de uma retroescavadora. Seria também engolido pelo deslizamento daquele troço de estrada que ruiu e encontrado às 21:00 do dia 24 de novembro. Há 38 anos, o operário tinha já perdido um dos seus cinco irmãos, na altura apenas com oito anos, numa pedreira.

Os cunhados. Zé negociava a pedra, morreu numa pedreira e Carlos foi de arrasto

Naquela segunda-feira, José Rocha, 53 anos, mais conhecido como Zé Algarvio, entrou na sua carrinha cinzenta de caixa aberta e guiou em direção ao seu contabilista. Era negociante de mármore e precisava de ir atualizar algumas questões financeiras. Mas não seguiu sozinho. Na mesma viatura, ia também Carlos Andrade, de apenas 37 anos, a convite do cunhado. Afinal, estava de férias do seu trabalho no Intermaché, tinha tempo livre. Seguiriam, então, por aquele que não era uma estrada de frequente passagem para Zé Algarvio, como explicou depois uma amiga da sua mulher Gertrudes.

Zé, reconhecido por todos como um homem "muito sério, que pagava a tempo e a horas", era também de telefonar muito. A família, natural de Bencatel, Vila Viçosa - onde também morava Gualdino, o trabalhador da pedreira - terá estranhado a falta de notícias e o pior viria a confirmar-se. José Rocha e Carlos Andrade seriam dados como desaparecidos até esta sexta-feira, dia em que foram resgatados da pedreira.

Algumas testemunhas do momento da derrocada dizem ter visto os cunhados a travar a carrinha, assim que se terão apercebido da queda daquele troço de estrada, mas esta acabaria por os vencer. Foi tarde demais.

Em Bencatel, chorou-se a perda das três vítimas mortais. Na freguesia, diziam ter perdido "um grande ponta de lança", como era Zé Algarvio.

O antigo militar

Pouco se sabe ainda sobre aquela que parece ser a última vítima a ser retirada da pedreira. A viatura onde seguia Fortunato Ruivo, de 85 anos, seria encontrada esta sexta-feira, mas o seu corpo só seria de lá retirado este sábado.

Uma rápida visita a Vila Viçosa a uma loja de informática terá ditado o seu destino. Fortunato era um reformado sargento do Exército, residente no Alandroal. Foi a sua mulher quem deu conta do seu desaparecimento à GNR, depois de perceber que o percurso planeado por este naquela tarde envolvia passar por aquela estrada que acabara de ruir.

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