Sensores e drones. As armas de Maria João contra incêndios

Engenheira mecânica, de 25 anos, é a única portuguesa entre os finalistas do concurso "Jovens Campeões da Terra", promovido pela ONU. Vencedores ganham 13 000 euros

Imagine vários sensores espalhados por uma zona florestal onde existe elevado risco de incêndio. Se houver um aumento da temperatura, provocado por um eventual fogo, é detetado pelos sensores e, através de mecanismos de inteligência artificial, a informação é comunicada à Proteção Civil. Perante o alerta, as autoridades enviam drones para o local, a fim de confirmar se há ou não um incêndio. Caso o pior cenário se confirme, são alocados os meios necessários ao combate. Para já, isto ainda é ficção. Mas a ideia de Maria João Sousa, jovem portuguesa de 25 anos, é que no futuro esta seja a realidade. E a Organização das Nações Unidas (ONU) pode dar uma ajuda.

A engenheira mecânica, com especialização em engenharia de sistemas, quer usar sensores terrestres, drones e balões de grande altitude para a deteção precoce de incêndios florestais em zonas rurais. Uma ideia que lhe permitiu conquistar um lugar entre os 35 finalistas do Young Champions of the Earth (Jovens Campeões da Terra, em português), um concurso promovido pela ONU, que pretende premiar jovens com potencial para criar um impacto ambiental positivo.

Maria João Sousa, a única portuguesa entre os finalistas, não se cansa de dizer que isto ainda é apenas uma ideia. "Não vai estar a funcionar amanhã", frisa. Se tiver oportunidade de avançar com o projeto, quer criar uma rede dinâmica de sensores, que transmitam dados em tempo real sobre as mudanças no ambiente. "O objetivo é fazer uma deteção mais precoce dos eventos, de forma a permitir confirmar os fogos e fazer uma melhor alocação de recursos", explica a bolseira do Instituto de Engenharia Mecânica (IDMEC) do Instituto Superior Técnico, que trabalha em colaboração com a Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI).

Segundo a investigadora, o sistema "incorpora sensores terrestres e plataformas móveis, como drones e balões de alta altitude, de forma a ter áreas de cobertura mais elevadas". Enquanto os estáticos medem variáveis como a temperatura, os móveis são baseados na imagem. Dados que são incorporados num "sistema inteligente" e transmitidos em tempo real às autoridades competentes para uma melhor atuação nas etapas de "preparação, resposta de emergência e pós-incêndio".

Para já, Maria João não quer "avançar com promessas", pois esta "ainda é uma fase de idealização". Reconhece, no entanto, que este pode ser "mais um contributo para a problemática" dos incêndios, que no ano passado provocaram mais de uma centena de mortes em Portugal. Um projeto, ressalva, que se aplicaria "em zonas rurais, onde o risco é maior". Mas não substitui os guardas florestais. "Os algoritmos não estão ao nível humano", ressalva.

Destaque entre 760 ideias

Entre as 760 ideias a concurso, os 35 finalistas regionais destacaram-se pela motivação e pelo potencial para lidar com questões ambientais urgentes. "Esta é uma problemática a nível global. Afetou muito Portugal, mas também afeta muito a Califórnia, por exemplo. E tem tendência a agravar-se devido às alterações climáticas", sublinha Maria Sousa.

Há mais de um ano que a investigadora, natural de Braga, se dedica a esta área, tendo inclusive feito a tese de mestrado sobre a deteção de fogos em parques de campismo e caravanismo. "Este projeto é uma extensão do que tenho vindo a fazer, mas mais alargado", adianta, destacando que o alcance do sistema "dependerá do tipo de hardware usado".

Na votação online, Maria foi uma das cinco selecionadas a nível europeu, tendo conseguido mais de 950 votos. Depois de conhecidos os finalistas das diferentes regiões (África, Ásia e Pacífico, Europa, América Latina e Caraíbas, América do Norte e Ásia Ocidental), os júris da ONU vão deliberar, de 1 a 6 de julho, quem são os finalistas. Mas só em setembro serão conhecidos.

Cada vencedor recebe financiamento no valor de cerca de 13 000 euros, orientação de especialistas e acesso a uma rede de pessoas, que o ajudarão a implementar o projeto. "É um orgulho chegar a esta fase num concurso com esta escala e de uma organização tão relevante", diz a investigadora.

Questionada sobre se este sistema poderia ser importante para minimizar os danos provocados pelos incêndios que devastaram o país em 2017, a jovem diz que "casos como os que aconteceram no ano passado são extremos e precisam de outras medidas, nomeadamente ao nível da prevenção".

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