Óxido nitroso. O gás hilariante está na moda e preocupa autoridades

Há quem lhe chame droga do riso, das gargalhadas ou gás hilariante. O óxido nitroso não será muito usado para fins recreativos em Portugal, mas o seu consumo tem vindo a aumentar entre os jovens de países como Inglaterra, Espanha e China.

"Na zona onde moro parece haver uma epidemia disso, especialmente entre adolescentes, tanto que o meu council já anda a fazer campanhas de prevenção. Foram raras as vezes em que vi os miúdos a fazerem-no, mas muitas vezes de manhā vemos dezenas de cápsulas de óxido nitroso nos passeios junto aos estacionamentos. Também se ouve falar que muitos deles conduzem sob o efeito desse gás."

O relato é feito ao DN por Ana S., emigrante portuguesa em Londres, que fala da situação preocupante que se vive em Tower Hamlets, Londres, nos últimos meses. "Além do perigo para a saúde deles, também é perigoso quando o fazem a conduzir. Existem também muitas queixas de moradores devido ao barulho e comportamento antissocial", conta. Segundo o jornal Evening Standard , esta é uma "epidemia" que preocupa decisores políticos e polícias, que lutam diariamente para a combater. Há relatos de adolescentes internados devido ao consumo da substância, bem como de apreensões em lojas, onde era vendida a crianças em idade escolar.

Em Inglaterra, o óxido nitroso foi associado a 16 mortes desde 2007, mas este está longe de ser um problema exclusivo do Reino Unido. Espanha, China e Austrália são alguns países onde tem crescido o aumento do uso recreativo do óxido nitroso, um agente anestésico em forma de gás que, a longo prazo, pode ter consequências nefastas para a saúde.

Chamam-lhe "gás hilariante" porque provoca riso e gargalhadas, mas o seu uso não é tão inofensivo como os consumidores podem pensar. Segundo um artigo publicado em outubro na The Lancet, o uso recreativo em pubs e casas de diversão noturna na China aumentou em 2017. De acordo com a mesma publicação, o consumo de elevadas quantidades de óxido nitroso pode levar à dependência psicológica e anoxia cerebral (falta de oxigénio no cérebro) e o uso continuado pode causar défices de vitamina B12 e sintomas neurológicos e psicológicos graves.

O uso deste gás para fins recreativos não é novo. "Na Era Vitoriana [1987-1901] já havia relatos da utilização de 'gás hilariante' em contexto de festivais musicais, teatros e nalguns clubes", conta Graça Vilar, diretora da Direção de Serviços de Planeamento e Intervenção do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). No Relatório Crime Survey for England and Wales (CSEW), o seu "uso para fins recreativos foi mencionado pela primeira vez em 2012-2013, em que 2,3% dos adultos (16-59 anos) tinham consumido óxido nitroso no último ano". Mas em 2011-2012, no MixMag Global Drug Survey, já havia "referência ao consumo recreativo de óxido nitroso ao longo da vida em 49,6% dos respondentes do Reino Unido, e a 27,2% no último ano". Nos frequentadores regulares de clubes no Reino Unido, 43% revelaram ter consumido óxido nitroso no último ano.

Em Espanha, é sobretudo procurado nas instâncias balneares por jovens, que inalam o óxido nitroso através de balões coloridos nas festas. No ano passado, surgiram várias notícias de apreensões deste gás em Ibiza. Segundo Graça Vilar, no Projeto Europeu para o Estudo do Álcool e Outras Drogas em Meio Escolar - ESPAD 2015, a média de consumo de inalantes ao longo da vida era de 7%, com diferenças significativas entre os países europeus. "A Croácia com a maior percentagem (25%) de consumo nos jovens, seguida da Eslovénia (14%)."

Em Portugal, este gás não terá uma presença significativa ou preocupante. "O consumo recreativo de óxido nitroso não tem sido comunicado pelas equipas especializadas de intervenção em comportamentos aditivos e dependências, como motivo para a procura de tratamento especializado. Contudo, em relação a utentes em seguimento, por perturbação do uso de outras substâncias, nestas unidades especializadas pode haver referência a consumos pontuais de inalantes, mas com muita baixa expressão", revela Graça Vilar. No âmbito do ESPAD 2015, 4% dos jovens inquiridos disseram que já tinham consumido inalantes.

Consumido em balões ou latas

Em contexto recreativo, o óxido nitroso inalado é geralmente consumido através de balões do gás contido em cartuchos ou latas, ou pela descarga direta na boca. "Após a inalação surge a euforia, com consequente desinibição psicomotora, alteração do estado da consciência, estado dissociativo, com sensação de desconexão do ambiente circundante, despersonalização e desrealização." Graça Vilar diz que podem também ocorrer sensações corporais de calor, frio ou de aumento de energia. "Habitualmente surge também uma sensação de relaxamento e de sedação. Podem ocorrer distorções auditivas, como sejam o eco de vozes e zumbidos. Alguns efeitos visuais podem ocorrer, como visão turva e alteração da perceção das cores e das distâncias dos objetos", indica.

Como os efeitos duram muito pouco tempo, a maioria dos consumidores repete o consumo da substância por mais um período de 30 a 60 minutos ou até de horas.

O uso sucessivo pode, segundo a diretora da Direção de Serviços de Planeamento e Intervenção, provocar confusão, paranoia e ansiedade acentuada. A longo prazo, pode causar alterações na memória, depleção da vitamina B12, parestesias nas extremidades, zumbidos, alterações no sistema imunitário, repercussões no feto se consumido durante a gravidez, depressão e psicose. E, se for inalado diretamente de cartuchos, latas ou lâmpadas, "é intensamente frio podendo provocar lesões no nariz, lábios e orofaringe".

Desde 2006, foram associadas pelo menos 16 mortes a esta substância no Reino Unido, sendo que um dos principais motivos é a asfixia, já que é por vezes consumida com o recurso a sacos de plástico na cabeça, a fim de facilitar a inalação, ou dentro de espaços fechados como carros.

De acordo com a literatura existente, diz Graça Vilar, o gás hilariante tem baixo potencial de adição, mas os efeitos de curta duração tendem a levar a um consumo repetido, pela procura da sensação de prazer. "Há evidência do desenvolvimento de dependência psicológica com o consumo reiterado de óxido nitroso, de tal modo que o consumo diário deve ser evitado em pessoas com problemas de doença mental ou outras vulnerabilidades psicológicas."

A droga do riso é um composto químico constituído por nitrogénio e oxigénio (N2O), apresentado na forma de gás incolor à pressão atmosférica, inodoro e com um ligeiro sabor adocicado. É um medicamento disponibilizado sob a forma de gás medicinal liquefeito, em cilindros, que pode ser usado, em contexto clínico, como anestésico básico, adjuvante anestésico em combinação com outros anestésicos e relaxantes musculares. Também é usado por ter propriedades anestésicas fracas em intervenções dolorosas de curta duração, intervenções odontológicas, partos e cirurgia de otorrinolaringologia.

"É um medicamento sujeito a receita médica restrita, não comparticipado", refere Graça Vilar.

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