Os oásis de Monchique que se apagaram

São muitos os casos de estrangeiros que descobriram na serra de Monchique o paraíso para pequenos negócios de hotelaria na natureza. Belgas, holandeses e britânicos procuram reerguer os seus espaços. E os amigos pedem ajuda.

No Eco-Lodge Brejeira, concelho de Silves, só restou uma antiga ambulância alemã, de cor vermelha, que serviu os bombeiros e agora está transformada em alojamento. Era uma das ofertas deste espaço que um casal de holandeses criou há oito anos no cimo da Brejeira. O fogo passou por lá e levou quase tudo a Claire e Alex, que vivem com os seus dois filhos. Não são caso único: um casal de Antuérpia perdeu igualmente a sua hospedaria na serra de Monchique, tal como os britânicos Emily e James, que há um ano investiram as poupanças numa propriedade na serra onde reconstruíram a casa e prepararam o espaço para receber pessoas. Ficaram sem quase nada.

As chamas já passaram em muitos locais de Monchique e Silves e, apesar de o incêndio ainda lavrar, já há paisagens negras em que desapareceram habitações, indústrias, animais e outros bens. Ainda se contabilizam as perdas e os prejuízos - a Câmara de Monchique fala em 50 habitações perdidas -, mas há vários pedidos de auxílio, sobretudo de estrangeiros. Um casal holandês que criou o Eco-Lodge Brejeira viu o seu negócio desaparecer quase na totalidade. As tendas da Mongólia (yurts) onde alojavam os visitantes foram reduzidas a cinzas. Salvou-se "por obra de alguns anjos" o local onde a família reside e a ambulância vermelha dos serviços de bombeiros alemães, convertida agora num espaço com cozinha, chuveiro e sala de estar.

Claire e Alex frisam, numa mensagem no Facebook, que o eco-resort "morreu" e vivem agora "no modo de sobrevivência, de volta ao básico". Mas como o sonho nunca morre, dizem que agora "há muito trabalho pela frente", na reconstrução e na reparação do que sobrou. Prometem não desistir, apesar do infortúnio. Na página de internet do eco-resort contam como tudo começou quando decidiram deixar a Holanda e rumar ao sul da Europa. "No início não havia nada - nem água, nem eletricidade, nem casa -, só a simplicidade do silêncio e a vastidão da natureza, por vezes imprevisível, e os seus habitantes. Cheios de força, embora com poucos meios, o casal de sonhadores deitou mãos à obra. Lentamente mas decididos, com um saco cheio de paciência e litros de sangue, suor e lágrimas, cada pedra de seu sonho foi cuidadosamente colocada", lê-se no texto, escrito, obviamente, antes do fogo.

Dois casais belgas e os amigos

A sua história não é muito diferente do casal Luc Wauters e Freya, que exploram, há vários anos, a Casa Jaede, com alojamento e pequenos-almoços. "Localizado na serra de Monchique, a uma altitude de 650 metros, tem a certeza do silêncio absoluto, do ar puro das montanhas, da água pura (desde a nascente) e de um panorama de tirar o fôlego", descreviam assim o espaço, que ficou parcialmente destruído. Agora estão no GoFundMe, uma plataforma de crowdfunding em que solicitam ajuda para reconstruir o espaço: O pedido nasceu por iniciativa de uma amiga de Antuérpia, onde em três dias já se recolheram 3250 euros, a maioria de doadores belgas. Mereceram mesmo já a atenção de uma estação de televisão belga. Luc Wauters tem escrito no seu Facebook pessoal sobre os incêndios, onde deixa palavras de agradecimento aos bombeiros portugueses.

São amigos de outro casal belga, Ann e Gerritt, que geriam a Quinta O Ninho, em Fornalha, concelho de Monchique. O espaço foi restaurado em 2015 e apresentava-se como um oásis com uma vista privilegiada desde as montanhas. Afetado pelo incêndio, precisa de uma recuperação. Amigos puseram em andamento uma angariação de fundos e já conseguiram mais de dez mil euros para que possam recuperar e reabrir rapidamente. Gerritt, que já foi bombeiro, agradeceu o apoio e relatou o sofrimento dos vizinhos portugueses que perderam muito do que tinham. "A nossa vizinha - que ganhava a vida fazendo queijo de cabra - perdeu a casa. Ela estava aqui ontem com um velho par de calças e uma blusa, não tinha mais nada. Mas a suas cabras ainda vivem, essa era a prioridade para ela."

Também Caroline Leather, do País de Gales, abriu um pedido no GoFundMe, onde conta que a filha Sara e o companheiro James compraram, há um ano, um terreno em Monchique. Apostaram o dinheiro que tinham na reconstrução da casa existente na propriedade e na preparação do território em redor para a receção a visitantes. A ideia era criar um pequeno paraíso da natureza. Tudo se esfumou desde que o inferno de chamas começou a galgar encostas desde sexta-feira. A mãe de Sara diz que o casal pretende recomeçar mas precisa de apoio. Já têm mais de 4000 libras (perto de 4500 euros).

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.