Problemas com o Facebook na RTP? Antigo diretor avisou

Paulo Dentinho pediu demissão da RTP após polémica publicação na rede social de Zuckerberg. José Alberto Carvalho, diretor de informação em 2009, alertou os jornalistas da redação para os cuidados a ter com as opiniões na Internet.

O jornalista Paulo Dentinho pôs o lugar de diretor de informação da RTP à disposição e a administração da estação de televisão pública aceitou, Um post sobre violação, da autoria do jornalista, entretanto apagado, desencadeou a situação.

Não é a primeira vez que televisão é posta à prova com questões deste género. Casos em que posts de jornalistas da RTP se tornam polémicos levaram José Alberto Carvalho, diretor de informação em 2009, a fazer nove alertas à redação num e-mail enviado à redação.

Alertas que chegaram aos jornalistas

Estes foram os 9 pontos enviados à redação pelo jornalista, atualmente na TVI.

1) Nada do que fazemos no Twitter, Facebook ou Blogues (seja em posts originais ou em comentários a posts de outrem) deve colocar em causa a imparcialidade que nos é devida e reconhecida enquanto jornalista.

2) Os jornalistas da RTP devem abster-se de escrever, "twitar" ou "postar" qualquer elemento - incluindo vídeos, fotos ou som - que possa ser entendido como demonstrando preconceito político, racista, sexual, religioso ou outro. Essa percepção pode diminuir a nossa credibilidade jornalística. Devem igualmente abster-se de qualquer comportamento que possa ser entendido como antiético, não-profissional ou que, por alguma razão, levante interrogações sobre a credibilidade e seriedade do seu trabalho.

3) Ter em conta que aquilo que cada jornalista escreve, ou os grupos e "amigos" a que se associa, podem ser utilizados para beliscar a sua credibilidade profissional. Seguindo a recomendação do "NY Times", por exemplo, os jornalistas - deverão deixar em branco a secção de perfil de Facebook ou outros equivalentes, sobre as preferências políticas dos utilizadores.

4) Uma regra base deve ser "Nunca escrever nada online que não possa dizer numa peça da RTP".

5) Ter particular atenção aos "amigos" do Facebook e ponderar que também através deste dado, se pode inferir sobre a imparcialidade ou não de um jornalista sobre determinadas áreas.

6) Enunciar, de forma clara, no Facebook e/ou nos blogues pessoais que as opiniões expressas são de natureza estritamente pessoal e não representam nem comprometem a RTP.

7) Meditar sobre o facto de 140 carateres de um tweet poderem ser entendidos de forma mais deficiente (e geralmente é isso que acontece!) do que um texto de várias páginas, o que dificulta a exata explicação daquilo que cada um pretende verdadeiramente dizer.

8) Não publicar no Twitter ou em qualquer plataforma eletrónica documentos ou factos que possam indicar tratamento preferencial por parte de alguma fonte ou indiciem posição discriminatória sobre alguém ou alguma entidade.

9) Ter presente que todos os dados eventualmente relevantes para fins jornalísticos devem ser colocados à consideração da estrutura editorial da RTP, empresa de media para a qual trabalham.

O lugar à disposição

Paulo Dentinho, soube-se esta quarta-feira, dia 11, à noite, pôs o lugar à disposição e a administração, liderada por Gonçalo Reis aceitou.

Na origem do mal-estar dentro da RTP está um post publicado esta semana na sequência das notícias que envolvem Cristiano Ronaldo num processo de alegada violação. Embora não use o nome do capitão da seleção portuguesa de futebol, atualmente ao serviço da Juventus, o jornalista foi criticado pela ironia e termos utilizados no seu post.

Esta publicação, entretanto apagada, levou a uma reunião do conselho de redação.

O diretor de informação também teria sido muito criticado pela falta de cobertura da RTP nos fogos do fim de semana na serra de Sintra.

Numa reunião que se realizou na terça-feira, dia 9, entre vários diretores da RTP, com o conselho de administração, Paulo Dentinho esteve ausente e por outro elemento da sua direção, João Fernando Ramos. Dentinho disse que havia "indícios que sustentam suspeitas de um possível complô" contra ele. Em causa estaria a notícia dada pelo site de televisão Vox Pop TV em que, além da notícia do post, se dizia que o diretor de informação teria violado o código deontológico da empresa e que ele relacionava com fontes da empresa.

O Conselho de Redação reuniu-se na segunda-feira, dia 9, para debater o assunto do post , entretanto elminado, mas não respondeu a qualquer pergunta e leu uma declaração em que falava do tal complô. "O diretor entende que esta situação é grave e admite dar dela conhecimento às autoridades competentes."

O post em causa dizia: "Há violadas de primeira, violadas de segunda categoria, violadas de terceira categoria, etc. Depende do estatuto delas, mas sobretudo, do estatuto deles. Questão de perspetiva. Um não de uma p**ta - e tem também ela direito a dizer não - vale nada. É mercadoria. E se o violador tiver a auréola de herói nacional, é puta de certeza, no mínimo dos mínimos uma aproveitadora sem escrúpulo algum. Logo, p**ta. Os factos, que se f**dam os factos. Estava a pedi-las, foi o que foi. Felizmente não é a mamã, a filhota ou o filhote de ninguém. Porque nesta justiça será sempre uma filha ou um filho da p**ta."

Entre as pessoas que criticaram o post do diretor de informação estava Manuela Brandão, que trabalha na Gestifute, a empresa que gere a carreira de Cristiano Ronaldo.

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