Em outubro de 1918, Lisboa não tinha madeira para tantos caixões

Há 100 anos, a instauração da República festejou-se dentro de portas, como medida de contenção da gripe pneumónica. Mas isso não impedia o contágio. A capital foi atingida severamente pela segunda vaga da epidemia. Morreram milhares de pessoas.

Nas vésperas do 8º aniversário da proclamação da República, soprava uma "nortada rija" em Lisboa, o que era "péssimo" para quem estava doente com gripe. Todas as escolas estavam fechadas e ninguém previa uma data para o início do ano letivo. Na cidade e arredores estavam proibidas feiras e romarias; muitos estabelecimentos mantinham as portas cerradas; nos mercados escasseava o pão, a carne e o leite, que aumentara consideravelmente de preço; as ruas estavam quase desertas; e os elétricos passavam com as cortinas e as portinholas sempre fechadas. Lisboa estava irreconhecível.

Thomaz de Mello Breyner, 4º conde de Mafra, médico no Hospital de São José, chegou a Lisboa, vindo da sua casa na Granja, nos primeiros dias de outubro de 1918 e foi ele quem, num dos seus diários, anotou, como sempre fazia, um breve apontamento sobre o tempo. No dia da "nortada rija", 3 de outubro, Mello Breyner desconhecia ainda que a violenta segunda vaga de gripe pneumónica, que eclodira em agosto em Vila Nova de Gaia, viajava celeremente para o Sul, atingindo sobretudo Lisboa e o Algarve. Nos primeiros dias de outubro, viu as enfermarias de São José lotadas e ficou apavorado quando assistiu aos longos cortejos fúnebres que percorriam a cidade durante todo o dia e toda a noite, com muitos corpos a serem transportados em ataúdes de pau e corda. Escreveu no seu diário:

"19 de Outubro: "Fui ao Hospital e lá tive a certeza de que a epidemia de gripe pneumónica continua assustadora. Em média entram 100 doentes nos hospitais e morrem 30 a 40! Acabou-se em Lisboa o pano especial de cobrir caixões! Todas as flores da Praça são para os mortos."

"21 de Outubro: A mortalidade é medonha. Acabou-se o pano para forrar caixões, acabaram-se as flores no mercado, há enterros toda a noite!! Nem a peste grande 1569 foi assim!!!"

A 5 de outubro, a revolução republicana festejou-se dentro de portas. O Governo de Sidónio Pais proibiu manifestações e quaisquer ajuntamentos, "em atenção ao luto de muitos portugueses", como fez publicar nos jornais, e para evitar a propagação do vírus. Não se fez a tradicional parada militar na Avenida da Liberdade e mesmo a anunciada soirée no Coliseu dos Recreios, a favor da Assistência aos Mutilados da Guerra e com um programa condizente (exibição de filmes propagandísticos sobre a Primeira Guerra Mundial e um concerto da banda da Guarda Nacional Republicana), foi cancelada no dia 4. Em alternativa, Sidónio aceitou que se realizasse uma tourada no Campo Pequeno, à qual assistiu no camarote, a uma distância higiénica.

Nas ruas da cidade, os únicos elementos que evocavam a comemoração do 5 de Outubro eram as bandeiras que engalanavam os edifícios públicos e algumas fachadas iluminadas durante a noite

As comemorações dos 8 anos da instauração do novo regime foram discretas e reservadas: o Presidente da República recebeu os habituais cumprimentos do corpo diplomático no Palácio de Belém, ao princípio da tarde, e cerca de uma hora e meia depois, foi a vez dos membros do Executivo, autarcas e as cúpulas militares desfilarem na residência oficial. Nas ruas da cidade, os únicos elementos que evocavam a comemoração da data eram as bandeiras que engalanavam os edifícios públicos e algumas fachadas iluminadas durante a noite.

Os centros republicanos e algumas juntas de freguesia não deixaram, porém, de festejar o 5 de Outubro - tudo dentro de portas; e tudo a favor dos pobres, como mandava a "tradição" republicana. A paróquia de Benfica distribuiu um bodo aos necessitados da zona; o mesmo fez a junta de Arroios, que ofereceu os donativos às famílias carenciadas dos militares do Corpo Expedicionário Português (CEP) que combatiam na Frente Ocidental da guerra; e a Liga Contra o Aperto de Mão, uma associação fundada em 1905 e que teve, nesta altura, uma compreensivelmente massiva adesão de sócios (aquele que fosse apanhado a transgredir tinha de pagar uma multa de 40 réis, usando-se o dinheiro arrecadado com as multas para comprar bilhetes de lotaria cujos prémios eram depois divididos por todos os sócios, mesmo os que violavam as normas da casa) ofereceu dinheiro a famílias pobres.

Curiosamente, as casas de espetáculos, os teatros e os animatógrafos permaneciam abertos, alheios às medidas restritivas impostas pelo Governo e aparentemente indiferentes a uma doença viral sem cura, que não exigia sequer um contacto íntimo com um portador, bastando respirar o mesmo ar e inalar as partículas infetadas que ficavam suspensas no ar durante minutos. No São Luís a noite foi de estreia de uma zarzuela, por uma companhia espanhola; no Gymnasio, o mais antigo teatro da capital, aberto em 1845, prosseguia a peça "Marido à força"; e no Eden, a revista "Trombeta da fama" continuava a ter sala cheia.

Apesar da animação noturna, Lisboa parecia estar sob estado de sítio (e não tardaria para que isso acontecesse). As farmácias tinham um horário de abertura limitado; foram proibidas as visitas aos enfermos; em muitas lojas fechadas liam-se avisos a informar os clientes de que todos os empregados estavam doentes; um dos salões do Governo Civil foi convertido em enfermaria (o próprio governador civil, António Sousa Fernandes, fora contagiado); milhares de pessoas acorriam diariamente aos hospitais civis; outros, já sem forças, eram transportados em carros da polícia, dos bombeiros, da Cruz Vermelha, dos hospitais e de particulares; faltavam polícias nas esquadras e funcionários nos correios. O primeiro e o segundo comandante da polícia foram também infetados com o vírus. E no meio deste caos, surgiu, por uns dias, um outro: estalaram rebeliões em Lisboa e no Porto, organizadas por republicanos anti-sidonistas, que procuravam concretizar um golpe contra a "República Nova".

Sidónio respondeu com a suspensão parcial de todas as garantias constitucionais em todo o país (vulgo, estado de sítio), a 14 de Outubro, e dois dias depois os calabouços do Governo Civil estavam apinhados de centenas de presos. (Foi precisamente a 16 de Outubro que ocorreu a chamada "Leva da Morte": quando o cortejo com estes prisioneiros caminhava em direção ao Cais do Sodré, onde iria embarcar em navios com destino aos fortes de São Julião da Barra, Alto do Duque e Caxias, soaram tiros e gerou-se o pânico. Resultado: dezenas de feridos e alguns mortos, entre os quais o Visconde da Ribeira Brava, famoso conspirador da República.)

Sidónio conseguira estancar as revoltas. Cerca de dois meses depois, seria assassinado na estação do Rossio por José Júlio da Costa, um provável carbonário com problemas mentais.

Convento e Liceu Camões transformados em enfermarias

A 7 de outubro, no dia em que Thomaz de Mello Breyner escreveu no seu diário "vamos a ver se escapo", Espanha fechou as fronteiras e só autorizava a entrada no país àqueles que tivessem certificados sanitários previamente avaliados pelo cônsul espanhol em Lisboa. Ricardo Jorge, diretor-geral da Saúde, não gostou da atitude dos espanhóis, mas não se deteve em rebatê-la, preocupando-se antes em procurar locais de acolhimento para as centenas de doentes que entravam todos os dias nos hospitais. Foram também centenas os que morriam quase diariamente. Num só dia, fizeram-se 250 enterros; descobriram-se famílias inteiras mortas nas suas casas; a Direção-Geral dos Hospitais Civis de Lisboa pediu à câmara para que abrisse uma vala comum no cemitério dos Prazeres.

O novo surto epidémico levou então Ricardo Jorge a pedir ao Governo, nomeadamente ao Ministério da Guerra, a requisição do Convento das Trinas do Mocambo (atual Instituto Hidrográfico), cujas salas já tinham sido usadas como enfermarias aquando da epidemia de febre tifóide em 1912. Ali foram instaladas 300 camas, três enfermarias para mulheres e uma para homens, mas as condições não eram as melhores: havia muita sujidade e o alojamento não era propício para doentes com gripe. Eram necessários mais locais. A escolha recaiu no Liceu Camões, que tinha diversas vantagens: estava perto do Hospital da Estefânia, que prestava um sortido de apoios aos hospitais de Arroios e das Trinas; e os espaços permitiam ali colocar 500 camas, espalhadas pelo ginásio, salas de aula do piso térreo e primeiro andar. Reservaram-se ainda duas salas para os enfermeiros e funcionários hospitalares.

A procura de novos lugares transformados em enfermarias tentava também responder à elevada afluência de pessoas provenientes dos arredores da capital. Foi sobretudo a partir desta altura que a imprensa começou a ter uma função relevante na publicitação dos avisos da Direção-Geral da Saúde (DGS), publicando também notícias breves de todo o país sobre a evolução da epidemia. Nalguns casos, intervinham mesmo na ajuda aos doentes mais necessitados. Uns apelavam a donativos; outros, como o Diário de Notícias, começaram a comprar diariamente 100 senhas nas Cozinhas Económicas e entregavam-nas aos hospitais civis de Lisboa para que fossem distribuídas àqueles que pudessem ter alta hospitalar. Não tardou para que outras instituições seguissem o exemplo do jornal, como a Padaria do Povo, que ofereceu 500 senhas, correspondentes a outros tantos quilos de pão, para todos os hospitais da cidade. E o próprio Sidónio ordenou que o Estado deveria dar a cada doente que tivesse alta, só ou com família, 1 escudo, aumentando para 2 escudos aos familiares dos que tinham morrido. A Obra de Assistência 5 de dezembro, fundada em abril e criada para administrar as Cozinhas Económicas, doou ainda fármacos, alimentos e dinheiro em várias zonas do país.

Nos jornais, a lutuosa concorria em espaço com a publicidade a elixires que prometiam a cura da pneumónica e enxameavam todas as páginas: chás, capotes, fluorofórmio, bombons de chocolate com recheio de mentol, eucalipto e terpinol, comprimidos dentífricos, pastilhas de mentol (quem não tinha 3 escudos para comprá-las na farmácia, gastava o que tinha na taberna, contavam alguns periódicos). Alguns médicos publicavam também as suas receitas para a cura. Barros Castro, por exemplo, prescrevia para os primeiros sintomas uma chávena de chá de borragem, fenacetina (analgésico) e pós de Dower (um cocktail de pó de ipecacuanha, uma planta medicinal, e ópio) de meia em meia hora. O doente deveria depois enfiar-se na cama, debaixo de grossos cobertores e "suar a valer". No dia seguinte, mais 30 gramas de sulfato de soda em água e quente. E ao terceiro dia, caso se mantivessem os sintomas, correr para o hospital.

O Diário de Notícias, como outros jornais, começou a comprar diariamente 100 senhas nas Cozinhas Económicas para entregar aos hospitais civis de Lisboa para que fossem distribuídas àqueles que pudessem ter alta hospitalar

Em novembro, um artigo de autor anónimo, publicado na Ilustração Portuguesa, questionava a ausência do crivo da censura prévia (imposta desde 1916, logo após a declaração de guerra da Alemanha a Portugal) na publicação destes anúncios: "Não sabemos se têm reparado que os jornais vêm cheios de anúncios de remédios contra a pneumónica. Remédios de botica, isto é, medicamentos? Não, senhores. Tal comerciante anuncia que os gabões de Aveiro são o melhor preservativo contra a gripe; tal restaurante afirma que um cafezinho bem quente, tomado lá na casa, evita a doença; até um sapateiro engenhoso já declarou nas folhas que o calçado que fabrica mata infalivelmente o micróbio da terrível doença. É claro que o leitor inteligente não vai no bote e recorre à farmácia, sem que lhe passe pela cabeça que uma camisa de flanela ou um par de peúgas possa servir-lhe de panaceia; mas nem toda a gente é inteligente - antes pelo contrário - e não falta quem, com 40 graus na axila, ponha um chapéu comprado à lojista que apregoou como remédio, calce umas botas reclamadas para o mesmo efeito ou se banhe em água de cheiro, com iguais pretendidas virtudes. Uma ideia: e se a censura se exercesse sobre estas explorações em vez de recair em comentários inofensivos à política ou aos costumes? Se se pusesse a bom recato o intrujão que nos jura que cura a gripe com umas galochas compradas lá na loja?"

Em meados de outubro, correu a notícia, falsa, de que os casos de pneumónica estavam a descer. "O que diminui com certeza é o número de vivos em Lisboa", escreveu Mello Breyner a 23 de outubro. Os doentes acamados em São José pareciam-lhe grotescos: "A expectoração que sai pelo nariz e boca parece xarope de ameixa, e a cianose da cara e mãos é horrível."

A 26 de outubro fecharam todas as estações e apeadeiros da linha ferroviária do Sul, tendo O Século noticiado que cerca de dois mil ferroviários estavam doentes; o número de órfãos na capital não parava de aumentar, lotando o Albergue das Crianças Abandonadas e o orfanato da Cruz Vermelha Portuguesa; para o dia de finados, 1 de novembro, o Governo autorizou que se colhessem flores nos jardins municipais e que estas fossem vendidas a preços baixos; algumas ruas foram lavadas com cal corada; particulares mais abastados ofereciam tábuas para os caixões; nas oficinas de Santa Apolónia passaram a ser construídas urnas; das cadeias do Aljube, Mónicas e Limoeiro saíam mortos todos os dias. E, em meados de novembro, em Lisboa, um surto de varíola juntou-se à pneumónica, tendo o Governo decretado que as crianças com mais de 8 anos que ainda não tivessem sido vacinadas estavam proibidas de ir para as escolas, fábricas, oficinas e lojas.

Bebés e jovens adultos: as principais vítimas

O contágio atenuou a partir de finais de novembro. Mas o país assistiria ainda a um terceiro surto, na primavera de 1919, com menor mortalidade. Precisamente nesse mês, Ricardo Jorge apresentou na Comissão Sanitária dos Países Aliados um relatório (titulado "La Grippe") sobre o que acontecera em Portugal, notando que em apenas 9 semanas tinha sido registados 5 mil óbitos em Lisboa (o triplo dos mortos em períodos anteriores semelhantes). Na mesma sessão, o diretor-geral da Saúde lembrou que a pneumónica surgira em Espanha em maio de 1918, pelo que o país vizinho não poderia ter escapado a tal "incêndio". Foi nessa altura que começou a primeira vaga epidémica, entre maio e julho, afetando sobretudo as regiões de Trás-os-Montes e do Douro.

O rescaldo estatístico do "incêndio" foi feito muitas décadas mais tarde, nos anos 90, por João Frada, professor jubilado da Faculdade de Medicina de Lisboa, cuja tese de doutoramento consistiu no estudo da pneumónica em Portugal continental. Frada chegou a um número aproximado de vítimas mortais - 60. 474 pessoas, num período de seis meses, de junho a novembro -, não deixando de citar um autor da época, Silva Correia, que contabilizou 150 mil óbitos. O estudo de Frada permitiu ainda conhecer mais dados sobre os efeitos da epidemia, nomeadamente os locais com maior taxa de mortalidade: no universo total dos concelhos (269), Benavente foi o maior alvo da gripe, com 7% de mortalidade bruta; e no conjunto mais restrito de 29 concelhos (aqueles que tinham como sede uma cidade), surge em primeiro lugar a Covilhã, com 2,35%, e logo depois Leiria, com 1,81%. O distrito de Lisboa, que, de acordo com o censos de 1911 tinha 852.354 habitantes, foram registados 38.581 mortos. Também as faixas etárias mais atingidas pela mortalidade foram identificadas pelo especialista: bebés (dos 0 aos 23 meses) e jovens adultos (entre os 20 e os 39 anos); abaixo dos 30 anos, as mulheres lideravam o número de óbitos.

Segundo Ricardo Jorge, os primeiros portadores do vírus foram trabalhadores rurais alentejanos que trabalhavam em Espanha. Não tardou para que a doença chegasse aos quartéis do Porto e de Lisboa e daí propagou-se para todo o país. A guerra e o verão proporcionavam veículos de contágio, com as migrações balneares, militares e populacionais.

Logo em junho, Lisboa tentou responder à epidemia, criando áreas de isolamento nos hospitais de Santa Marta, Estefânia, São José e Rego (mais tarde, o Governo reabriu o Hospital de Arroios que estava fechado para obras). Nesta altura, a imprensa estava ainda longe de perceber a gravidade da situação, dando apenas destaque a um surto de tifo que surgira no Porto. Somente a revista Medicina Contemporânea, não acessível à esmagadora maioria dos portugueses, dedicava páginas à pandemia gripal. Na edição de 23 de junho lia-se que tinham sido já detetados casos em Vila Viçosa, Elvas, Arronches, Porto, nas prisões do Aljube e de Monsanto; algumas páginas adiante, diversos médicos debatiam a origem do vírus (basicamente era Ricardo Jorge, sozinho, contra um grupo de médicos que garantiam que a pneumónica propagava-se através de mosquitos, designando-a como a "febre dos papatazes"). Ricardo Jorge aproveitava para fazer profilaxia: "Práticas imunizantes não se conhece nenhuma; drogas preventivas não existem e nenhuma deve tomar-se com tal fim. A boa higiene interna e externa é sempre um bem mantê-la. Tomar ar livre, e arejar os recintos de estada. Não requintar todavia a ventilação até às correntes de ar, incómodas e prejudiciais, a que a nossa gente é atreita, sobretudo em quadra de calmas. Quando o mal vier, cama, dieta, tizanas e médico. Nada de droguear-se por sua conta, nem com purgas, nem com as inás, nem com os grogues."

Em julho, a epidemia diminuiu. Mas em meados de agosto, a população de Vila Nova de Gaia entrou pânico, com centenas de habitantes a ficarem doentes e a praguejarem contra a "peste pneumónica". Ao mesmo tempo, o CEP informou a DGS de que os casos de pneumónica estavam a aumentar no contingente português - segundo os militares, terão morrido 37 expedicionários de um total de 418 casos diagnosticados. Estes números, porém, não são rigorosos. Muitas mortes podem ter sido registadas com causas erradas e os números do CEP não incluem, sequer, os prisioneiros de guerra portugueses que morreram nos lazaretos dos cárceres.

Depois de Gaia, o vírus viajou imparável para o Porto, Marco de Canaveses, Amarante, Ribatua, Alijó, São João da Pesqueira, Vila Real, Bragança, Cinfães, Resende, Viseu, Gouveia, Guarda, Penamacor, Castelo Branco, Castelo de Vide e Portalegre. O Algarve e o Litoral Centro e Sul tinham escapado ilesos. Mas por pouco tempo.

Em setembro, chegou aos Açores e à Madeira. Ricardo Jorge continuava a publicar artigos na Medicina Contemporânea, agora alertando para a falta de médicos (muitos tinham sido mobilizados para a guerra; no entanto, o Governo acabou por destacar para as áreas mais afetadas médicos milicianos) e para a burocracia que não era compatível com o estado de emergência do país. E no dia 24, identificou, no Conselho Superior de Higiene, ao qual presidia, as zonas mais afetadas pela epidemia: Douro e Trás-os-Montes. Que Sidónio visitou, em finais de setembro, tendo com esse gesto insuflado o seu apoio popular.

A leitura dos jornais diários mostrava a tragédia nessas regiões: em Alijó nenhum dos mais de 100 doentes estava hospitalizado; não havia médicos em Mogadouro; em algumas freguesias de Lamego a gripe dizimara toda a população, como aconteceu em Ferreiros; em Vila Real todas as escolas estavam fechadas; 15 estações das linhas do Minho e do Douro tinham sido encerradas, pois todos os funcionários tinham morrido ou estavam doentes; em Guimarães proibiram-se as missas; em muitas aldeias e vilas o dobre dos sinos ouvia-se ininterruptamente.

Em finais de setembro, O Século noticiou os primeiros casos em Setúbal, Almeirim e Azambuja. A segunda vaga da pneumónica estava prestes a atingir Lisboa.

Pneumónica matou pelo menos 50 milhões de pessoas

John M. Barry, historiador norte-americano e autor do livro "The Great Influenza: The Epic Story of the Greatest Plague in History" (2004), identifica a origem da gripe pneumónica nos Estados Unidos, nomeadamente no Arkansas, em meio militar, em março de 1918. Mas não há consenso sobre a origem: uns apontam a China e o Sudeste Asiático; outros a Europa (Brest ou Bordéus). E também não há concordância sobre o total mundial de mortes provocadas por esta estirpe severa do vírus da gripe. A maioria dos países não possuía recenseamentos populacionais e supõe-se ainda que muitos casos de pneumónica poderão ter sido mal diagnosticados.

A estimativa mais baixa é de 21 milhões de mortos, entre 1918 e 1919, numa população mundial de quase 2 mil milhões. Contudo, estudos mais recentes feitos por epidemiologistas defendem que a pneumónica matou, pelo menos, 50 milhões de pessoas, aproximando-se possivelmente dos 100 milhões. No período de pouco mais de um ano, a pandemia gripal matou mais pessoas do que a "peste negra" no período de um século e do que a Primeira Guerra Mundial (8 milhões entre 1914 e 1918).

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