Duas horas e seis minutos de emergência nos céus de Portugal

Ao início da tarde, chegou o alerta: um avião da Air Astana declarou emergência com a "perda total dos controlos da aeronave" pouco depois de ter saído das OGMA, em Alverca. Os meios de segurança foram acionados e a Força Aérea entrou em ação. Até que a aeronave conseguisse aterrar em Beja, chegou a temer-se o pior

Avião seguia para a Bielorrúsia

O avião da Air Astana (Cazaquistão) declarou emergência "reportando perda total dos controlos", após descolar de Alverca, explica a Força Aérea em comunicado. O avião andou duas horas e seis minutos no ar até conseguir aterrar em segurança no Aeroporto de Beja este domingo à tarde. Seguia de Alverca para Minsk, capital da Bielorrúsia. Aterrou à terceira tentativa, às 15:27. Ou seja, tinham passado duas horas e seis minutos desde que levantou voo de Alverca às 13.21. Até conseguir estabilizar na pista 19 de Beja, sobrevoou a região de Santarém e o Alentejo, com trajetórias irregulares.

Aterragem borregou duas vezes

Desde que foi conhecida a informação que havia um avião em estado de emergência no ar, o país ficou em alerta. Escoltado por dois caças da Força Aérea - e com um dispositivo de segurança montado em Beja, a aeronave borregou duas vezes até aterrar na pista 19 da Base Aérea nº 11. Borregar é o termo técnico da aviação para designar tentativas frustradas de aterragem. À terceira, a aterragem acabaria por acontecer em segurança.

Porque descolou de Alverca?

O voo KZR 1388 descolou de Alverca às 13:21, onde teria estado a fazer reparações nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA), com destino a Minsk, na Bielorrússia. Já declarada a emergência, às 14:40, o avião sobrevoava a zona do Alto Alentejo. Na página online do Flight Radar, que faz o rastreio dos voos, era possível ver-se um ponto vermelho com uma trajetória irregular, dirigindo-se para sul. Pouco antes de conseguir aterrar, desapareceu da sistema.

Ajuda preciosa dos F-16

A Força Aérea foi chamada a intervir, algo que só acontece em casos excecionais. Quando os caças são solicitados para escoltar um avião civil em dificuldades são uma ajuda preciosa. Tratando-se de problemas no comando dos aviões que impeçam os pilotos de, por exemplo, lerem nos instrumentos de bordo a altitude e a velocidade a que seguem, os caças, voando ao seu lado, permitem dar-lhe essa informação com precisão - explica ao DN o comandante Miguel Silveira da Associação de de Pilotos de Linha Aérea. Podem, portanto, orientar na pilotagem e na aterragem. Terá sido o que aconteceu esta tarde em Beja.

Marinha estava preparada para amaragem

A amaragem do avião no rio Tejo terá chegado a ser equacionada, mas as condições climatéricas difíceis afastaram essa hipótese. Certo é que o ministro da Defesa postou no Twitter que, além dos F-16 que escoltaram o EJ-190LR até Beja, outros dois caças "estavam em prontidão, bem como a Marinha, para o caso de aterragem de emergência no mar". João Cravinho escreve ainda que "dois aviões da Força Aérea Portuguesa conseguiram fazer aterrar em segurança no aeroporto de Beja um Embraer com os instrumentos de navegação avariados". A Força Aéra ativou todo o sistema primário de busca e salvamento.

A escolha de Beja

O avião tinha combustível suficiente - seguia para a Bielorrúsia - e, por isso, foi direcionado para Beja. O comandante Miguel Silveira faz questão de sublinhar os perigos que seria sobrevoar oito quilómetros sobre a capital e os riscos que isso poderia acarretar para a vida de centenas de pessoas. Essa é, aliás, uma das grandes preocupações da Associação de Pilotos de Linha Aérea quando se fala no alargamento do Aeroporto de Lisboa.

Aeroporto de Lisboa atrasou descolagens

Não houve necessidade de nenhum avião com destino a Lisboa divergir a sua rota, disse ao DN fonte da NAV. No entanto, foi preciso atrasar algumas descolagens porque o avião da Air Astana estava na rota destas aeronaves.

Caso vai ser investigado

A NAV desconhece ainda as causas que terão levado os pilotos a reportar problemas técnicos que os obrigou a declarar o estado de emergência - tratou-se de "uma falha crítica nos sistemas de navegação e controlo de voo", segundo fontes aeronáuticas. A Força Aérea é mais específica: a declaração de emergência do EJ-190LR surge na sequência da "perda total dos controlos da aeronave". O avião vai ficar, por agora, no Aeroporto de Beja, para onde já se deslocou uma equipa de investigadores do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários que irá tentar perceber o que aconteceu.

E-190 existem há 14 anos

O avião que declarou emergência depois de levantar voo de Alverca é um Embraer EJ-190LR da Air Astana, companhia do Cazaquistão. As informações disponíveis apontavam para seis pessoas a bordo. A aeronave, fabricada no Brasil, tem uma autonomia de voo de 4 537 quilómetros e atinge uma velocidade de cruzeiro de 829 km/hora. O E-190 fez o seu voo inaugural em 2004.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Brexit

"Não penso que Theresa May seja uma mulher muito confiável"

O diretor do gabinete em Bruxelas do think tank Open Europe afirma ao DN que a União Europeia não deve fechar a porta das negociações com o Reino Unido, mas considera que, para tal, Theresa May precisa de ser "mais clara". Vê a possibilidade de travar o Brexit como algo muito remoto, de "hipóteses muito reduzidas", dependente de muitos fatores difíceis de conjugar.

Premium

Pedro Lains

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita

Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.