Premium Bispo do Funchal afasta padre suspeito de abusos

Bispo António Carrilho segue tolerância zero do Papa e Justiça investiga caso. Anastácio Alves, de 56 anos, atualmente em França, foi ordenado padre em julho de 1990, com mais outros sete padres, entre os quais o atual arcebispo Tolentino Mendonça. A notícia publicada na edição deste sábado no Diário de Notícias da Madeira

A Diocese do Funchal decidiu afastar da ação pastoral o padre madeirense Anastácio Alves, que há vários anos exercia funções em França mas que é suspeito de abuso sexual de um menor na Madeira.

A medida cautelar decidida pelo bispo D. António Carrilho representa uma importante viragem na forma como a Igreja Católica madeirense aborda este tipo de situações, pois manifesta-se "em profunda comunhão com o Papa Francisco" e publicamente "repudia e condena a pedofilia e é solidária com as vítimas e com as suas famílias".

Em resposta a questões colocadas pelo Diário de Notícias da Madeira, a Diocese assume que teve conhecimento de suspeitas de abuso sexual relacionadas com Anastácio Alves que levaram à abertura de um processo eclesiástico (justiça religiosa).

Foi tomada a medida cautelar de propor o seu afastamento da ação pastoral, que estava a desempenhar na Paróquia Portuguesa em Paris (Gentilly). A Conferência Episcopal Portuguesa, estrutura que reúne os bispos diocesanos, tratou do procedimento para encontrar um substituto para a vaga aberta em França a 24 de junho.

Pelo menos até à conclusão deste processo, Anastácio Alves não será nomeado para qualquer função sacerdotal na Diocese do Funchal. Entretanto, corre também uma investigação criminal no Ministério Público, sendo que a questão é acompanhada pela comissão de proteção de menores.

Não é a primeira vez que este padre é alvo de investigação por presumível prática do mesmo tipo de crime. Em meados de 2005, quando D. Teodoro Faria era o bispo do Funchal, Anastácio Alves foi denunciado na polícia e constituído arguido pelo Ministério Público.

Esse processo acabou por ser arquivado em meados de 2007. Na altura, o sacerdote estava à frente da paróquia da Nazaré. Menos de um ano depois do arquivamento dessa investigação, o então recém-nomeado bispo do Funchal D. António Carrilho anunciou que Anastácio Alves tinha pedido para ir "trabalhar com os emigrantes na Missão Católica Portuguesa em Lausana (Suíça), e frequentar a Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Friburgo, para atualização e aprofundamento dos estudos".

Foi uma saída que não era de todo esperada na Nazaré e, à época, alguns paroquianos insurgiram-se na comunicação social contra tal "afastamento". Apesar de mostrar conhecimento desse processo anterior e do seu arquivamento, a Diocese do Funchal mantém hoje que a nomeação do padre para funções no estrangeiro nada teve a ver com a suspeita levantada mas sim com a vontade do próprio em "assumir uma experiência pastoral na Suíça e depois em Paris".

O Diário de Notícias da Madeira endereçou algumas questões para o endereço de correio eletrónico do sacerdote, mas não obteve resposta.

Um erudito natural de Santa Cruz
José Anastácio Alves nasceu em Santa Cruz há 55 anos. Numa entrevista recente em Paris confessou que desde pequeno quis ser padre. Foi ordenado a 28 de julho de 1990 na Sé do Funchal, numa cerimónia presidida por D. Teodoro de Faria e na qual outros sete padres foram ordenados, entre eles o atual arcebispo Tolentino Mendonça.

Foi pároco na Quinta Grande (1992-1999) e na Nazaré (1999- 2008). Em setembro de 2008 foi colocado, "a seu pedido", na Suíça, para dar apoio aos emigrantes e frequentar a Faculdade de Teologia de Friburgo. Quatro anos depois foi autorizado a dar assistência aos emigrantes na Paróquia Portuguesa de Paris (Gentilly). Deixou essa igreja francesa em 24 de junho.

Anastácio Alves é um pensador e um estudioso. Na primeira década deste milénio coordenou a página religiosa do Diário de Notícias da Madeira. Até 2008 era um comentador de atualidade em diversos fóruns. Também era dinamizador de iniciativas de solidariedade e culturais. Manteve esta última faceta em todo o seu percurso. Em 2017 até trouxe um grupo de 27 alunos de Gentilly numa visita cultural à Madeira.

D. António Carrilho segue orientação do Papa
O Papa Francisco tomou várias medidas contra os abusos sexuais praticados por padres. Criticou publicamente tais condutas e tem procurado proteger as vítimas. Mudou as orientações da Igreja e por isso está agora a ser alvo de um ataque directo pela linha mais conservadora do clero.

No comentário feito ao Diário de Notícias da Madeira sobre os alegados abusos sexuais, o bispo D. António Carrilho faz questão de sublinhar "a sua posição de comunhão com o Papa Francisco nesta matéria" e assume que a Igreja madeirense está "solidária com as vítimas e com as suas famílias" e que "agirá sempre na sua defesa, acudindo e protegendo com afeição especial os menores e mais indefesos, tudo fazendo, em ligação com as respectivas famílias, para acompanhar e minorar a sua dor".

Além disso, a Igreja madeirense garante que, "em consonância com os valores do Evangelho e com as normas da Igreja, diligenciará pela cessação" de eventuais situações de abuso de menores, "evitando a sua ocorrência, e suspenderá das funções clericais quem seja arguido dessas práticas".

"Todos os casos que sejam do conhecimento da Diocese levam à instauração e instrução de processos específicos tendo em vista o apuramento da verdade", remata a nota do Paço Episcopal. A todos os outros padres da Diocese, D. António Carrilho transmite-lhes uma mensagem de incentivo e de reconhecimento, fazendo questão de "sublinhar e agradecer o ministério de tantos sacerdotes que trabalham com grande entrega em favor das comunidades e do Povo de Deus".

Vaticano foi informado
O caso está agora a ser investigado na Diocese do Funchal. O direito canónico determina que devem ser remetidos para a Congregação da Doutrina da Fé todos os processos em que sejam recolhidos indícios suficientes de abusos.

Ora a própria Diocese assume que "o referido processo culminará com o envio dos autos" para o citado órgão do Vaticano.

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