Crise do covid-19 afetou menos a rádio que imprensa e tv

Estudo do Observatório da Comunicação chama a atenção para os desafios da digitalização, cujo fortalecimento se tornou imparável com o confinamento. Consumo de notícias e informação já está a descer.

Os meios de comunicação social vão sofrer uma mudança de paradigma quando acabar a crise que a pandemia de covid-19 instalou? É bem possível, e é essa uma das conclusões principais do segundo estudo sobre o Impacto do Coronavírus no Sistema Mediático Português e Global, do Observatório da Comunicação.

Estarão em causa novos hábitos de consumo e de vida, novas formas de encarar o que é notícia. Daí que, segundo este segundo estudo, que, como o primeiro, é coordenado por Gustavo Cardoso e Vania Baldi, ambos do Iscte, isso terá efeitos "na forma como se percecionam e abordam as dinâmicas da criação e medição de valor". O estudo tem ainda como autores Tiago Lima Quintanillha e Miguel Paisana.


"À medida que os consumidores reavaliam as suas atitudes relativamente ao que os rodeia no pós-crise, deverão os media também refletir sobre a génese do seu trabalho, de como captam a atenção dos públicos e o fidelizam, e, sobretudo, como intensificarão a sua relevância em termos futuros". Para os autores, os meios de comunicação teriam resistido melhor se já se tivessem melhor adaptado às potencialidades do digital - modificando, nomeadamente, o modelo de negócio, da dependência da publicidade geral para um modelo mais virado para as receitas dos leitores, com assinaturas e pagamentos diretos.

E acentuam que "num contexto em que já existem projetos relevantes em termos de proposta de valor digital ao nível da imprensa em Portugal, o facto de serem casos isolados e não a regra está a retardar consideravelmente a criação de uma mentalidade digital entre os consumidores, e, portanto, a afetar consideravelmente a sustentabilidade do ecossistema noticioso."

Falhas na adaptação ao digital

Ainda que a atual crise seja inaudita e sem precedentes, o Observatório volta a
argumentar que "esta situação é fortemente acentuada por questões anteriores que
aguardam ainda resposta, tais como a crescente pressão para a digitalização dos conteúdos e dos modelos de negócio de media, a ascensão do paradigma da sociabilidade associado aos consumos de media e, também, a consolidação da mobilidade como status quo."

Estes dados são corroborados pelo consumo de bens tecnológicos, com uma subida de mais de 200% dos consumos online e uma queda de 40% dos consumos offline. Mais um dado na equação: é muito provável que o mercado da publicidade digital recupere com muito mais dinamismo do que os setores publicitários tradicionais. Daí que quanto mais à vontade os meios estejam nesta área melhor consigam dar o salto. Além disso, mesmo as grandes plataformas, como Google e Facebook, em perda, "estarão porventura numa posição privilegiada para sair dela de forma mais rápida, aspeto que poderá consolidar o seu poder económico, político e social, no curto prazo".

Isto ganha particular relevância num momento em que o consumo de informação já se alterou - as televisões generalistas e de canal aberto perdem audiência, os sites descem para níveis normais, muito abaixo do período mais inicial da pandemia. "Os dados Statista reforçam um comportamento muito destacado na versão anterior deste relatório, ou seja, que o consumo de notícias em período pandémico havia disparado significativamente, principalmente nos
canais online".

Mais recentemente, no entanto, o NiemanLab, nos EUA, verificou que o pico do consumo de notícias de março não está a ser acompanhado no mês de abril, "levando o laboratório norteamericano a falar de um pico que não é mais do que isso mesmo, não constituindo por isso um novo paradigma de mudança", explica o estudo. E continua: "O facto de os consumidores não encontrarem, nos media tradicionais, nomeadamente televisão offline, informação mais equilibrada que contrabalance o material informativo sobre a pandemia, tenderá a conduzir à adoção de novas práticas de consumo, adoção essa fortemente incentivada pelo aumento dos conteúdos digitais de entretenimento e de informação não noticiosa."

Streaming em alta

No caso da televisão, é evidente. A Netflix e outros canais de streaming cresceram mais do que o esperado, apesar da crise económica. "A Netflix registou lucros de 709 milhões de dólares e um aumento de 15,7 milhões de subscritores, números que duplicam as melhores expectativas do grupo para o primeiro trimestre, o que fez o valor das suas ações duplicar de 0,73 euros em 2019, para 1,48 euros em 2020. Desta nova vaga de subscritores, apenas 2,3 milhões são observados nos E.U.A. e Canadá, sendo que os restantes 13,5 milhões dizem respeito ao resto do mundo". Em Portugal, o streaming teve 800 000 novos subscritores, subindo para 2,5 milhões a cobertura total. De notar também o aumento de utilização de redes, até aos 45% no caso da MEO e aos 25% no da Vodafone, com a NOS a não revelar dados quanto a estas tendências.

O que esta pandemia pode alterar para sempre são os hábitos de trabalho - o trabalho remoto como sendo o novo normal, e o abaixamento de exigências estéticas que custam caro, em função da facilidade de transmissão da informação. "As ideias podem ser partilhadas, as histórias podem ser co-elaboradas, as edições podem decorrer com a normalidade possível, e um grande e ambicioso jornalismo pode ser feito remotamente. No fundo, refere Carolyn Ryan, editora assistente do Times, e entrevistada pela Vanity Fair , as ideias podem continuar a fluir em qualquer tipo de plataforma, sendo até possível que as boas ideias possam surgir também remotamente."

O jornalismo não será o mesmo


Que implicações isto terá para o jornalismo como o conhecemos, não podemos dizer ainda, até porque até lá teremos de ultrapassar a enorme crise em que ele se encontra - com a fragilização das redações, algumas já em lay-off, ao mesmo tempo que aumenta o consumo informativo. Analisando o mercado, este estudo acentua que "a contenção de custos parece assim apontar para a derradeira e mais nefasta modalidade de redução de despesa, que geralmente entronca nos pedidos de insolvência, nos despedimentos coletivos ou na dispensa de trabalhadores". Isto apesar de "muitas marcas, nomeadamente as mais fortes, estarem a inovar em produtos, de forma a poderem de alguma forma explorar possíveis fontes de receita".

Como apontam os autores, "a complexidade do futuro do jornalismo e da imprensa reside nesta equação de questões complexas, não só económicas, mas também intrínsecas ao setor." Isto porque se "cada vez mais os jornalistas tendem a considerar que a melhoria qualitativa dos conteúdos jornalísticos, em termos de rigor e precisão, são um eixo fundamental para a sobrevivência do campo", isso por vezes faz-se "em detrimento da exclusividade ou do lucro associados a um acontecimento".

Só que "esse posicionamento quase moral sobre o papel do jornalista na profissão e sociedade implica a existência de condições económicas estruturais que o possibilitem. A grande questão sobre mudança económica no jornalismo não incide sobre a possibilidade de deixar de haver jornalismo e notícias, incide sobre a eventual qualidade dos conteúdos noticiosos, em geral".

É aqui que poderão entrar as relações com o Estado ou com eventuais "doadores" privados que entendam este serviço como um serviço público ou ao público. Este relatório alerta para " as
estruturas históricas a colapsar e centenas de profissionais do jornalismo em risco." Assim, "os incentivos do Governo Português tendem a constituir-se mais como um paliativo do que como uma cura para as adversidades que o setor enfrenta".

No âmbito europeu, a publicidade em jornais totaliza cerca de 12 mil milhões de euros por ano - daí que um consórcio de editores liderado pelo Euraktiv propõe "alguma ordem de magnitude": assumir a perda de um terço este ano, ficando com um défice de 4 mil milhões de euros. "A Comissão e o Parlamento poderiam gastar metade disso, 2 mil milhões de euros, e incentivar os governos a gastar outro tanto."

Rádio escapa e adapta-se


No meio da crise, um meio escapa: a rádio. "Os efeitos na rádio terão sido menos acentuados do que no caso da televisão e da imprensa, fazendo-se uma vez mais prova da resiliência e da capacidade do mercado da voz em resistir às adversidades", diz o estudo, explicando que a rádio foi também, de forma mais abrangente, o meio que melhor integrou o digital no seu modelo: "no rescaldo desta crise pandémica, a rádio pode revelar-se como um importante estudo de caso em termos de resiliência e de adaptação".

Apesar das mudanças de hábitos, nomeadamente as viagens para o trabalho, a quebra de audiência global foi de apenas 2% (de 60% em 2019 para 58% em 2020). E as diminuições do investimento publicitário deverão ser menos acentuadas na rádio do que na televisão e imprensa, onde deverão observar-se cortes na ordem dos 40% a 50% do investimento.

Como conclusão, e comparando as várias áreas, nomeadamente a do cinema e dos videojogos, os autores do estudo propõem que chegue o tempo de pensar no futuro para a indústria dos media. "Será natural que as empresas e organizações de media adotem uma
estratégia de negócio que não seja apenas voltada para o curto prazo, até porque novas estratégias começam a poder ser sustentadas por importantes indicadores e leituras que estão a ser apresentados, quase diariamente, pela amálgama de centros e institutos que estudam o fenómeno dos media", concluem.

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