Casos "graves" como o do canil de Santo Tirso resolvem-se com educação

De acordo com Ricardo Lobo da direção da Associação Nacional de Médicos Veterinários dos Municípios, não é admissível que existam animais a viver em más condições e que "todas as entidades fechem os olhos e que nada seja feito".

A associação de médicos veterinários municipais considera necessário investir em políticas de educação e sensibilização que possibilitem resolver casos "graves" como o de Santo Tirso, onde morreram mais de 50 animais em dois abrigos, devido a um incêndio.

Em declarações à agência Lusa, Ricardo Lobo, da direção da Associação Nacional de Médicos Veterinários dos Municípios (ANVETEM), explicou que há um excesso de animais errantes em Portugal que é fruto da falta de educação.

"Temos de fazer um investimento forte em educação, temos de fazer um investimento forte em políticas corretas e dotar as autoridades competentes de meios que possibilitem resolver casos graves como este de Santo Tirso [distrito do Porto]", salientou.

De acordo com Ricardo Lobo, não é admissível que existam animais a viver em más condições e que "todas as entidades fechem os olhos e que nada seja feito".

"Aquilo que assistimos no terreno é uma passagem de testemunho a associações, muitas delas - diga-se - com trabalho seríssimo e meritório, mas a grande maioria delas está a atuar de forma totalmente anárquica", observou, acrescentando que "muitas delas recebem apoios estatais de forma pouquíssimo transparente e não prestam contas a ninguém".

Defendendo também um levantamento nacional dos abrigos que acolhem animais e as condições em que funcionam, como o bastonário da Ordem dos Veterinários, o dirigente afirmou que deve haver mais atuação na gestão dos animais errantes.

"Este é um problema que tem de ser encarado e tem de ser resolvido. Que se atue nomeadamente no resgate dos animais e no seu realojamento", expôs, adiantando que os Centros de Recolha Oficial (CRO) têm de estar preparados para receber os animais.

Segundo Ricardo Lobo, a Lei n.º 27/2016, que proíbe os abates nos CRO, provoca "inúmeros constrangimentos" e não existe noutros países.

"Nós temos uma lei agora que impede o abate de forma cega que é lei 27 de 2016, que não se vê em nenhum dos países com condições mais favoráveis do que nós, nomeadamente a Alemanha, a Holanda [Países Baixos] ou Reino Unido", revelou, reiterando que se tem de "atacar o problema dos animais errantes".

Para o responsável, não é possível desmantelar um espaço como o de Santo Tirso devido à sobrelotação dos CRO, alertando que não pode aceitar que existam abrigos clandestinos em Portugal em 2020.

"Isto tem de ser resolvido na esfera das autoridades oficias. Não pode ser no quadro anárquico em que nós vivemos, em que as associações - muitas delas - receberam apoios estatais e apoios de autoridades que acabaram por baixar os braços, porque não entendem como resolver o problema dos animais errantes", apontou.

À Lusa, Ricardo Lobo recordou que conheceu o caso dos abrigos de Santo Tirso há mais de três anos, tendo denunciado à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) que, segundo o mesmo, "ignorou o problema".

Várias centenas de pessoas concentraram-se na segunda-feira à noite junto à Câmara Municipal de Santo Tirso para protestar "contra o massacre" ocorrido no fim de semana na serra da Agrela, em que 54 animais de um abrigo ilegal morreram num incêndio.

Na segunda-feira, o ministro da Administração Interna determinou a abertura de um inquérito à atuação da GNR e da Proteção Civil no incêndio que matou 54 animais.

Já a Procuradoria-Geral da República anunciou a abertura de um inquérito.

Segundo a GNR, a morte dos animais no incêndio não se deveu ao facto de ter impedido o acesso de populares ao local, mas à dimensão do fogo e à quantidade de animais.

A morte de 52 cães e dois gatos carbonizados motivou reações dos partidos políticos, com PAN, BE e PCP a exigirem explicações do Governo.

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