20 anos sem Casal Ventoso

Não basta deitar um bairro abaixo para a droga desaparecer

A ascensão e a queda de um bairro que acolheu as camadas mais pobres da cidade, tornou-se sede do narcotráfico e, por isso, foi apagado do mapa. Ainda existe droga, já não existe é Casal Ventoso. Último capítulo de uma série de três reportagens.

Quem hoje passa na Rua Costa Pimenta, a única que resta do desmantelado Casal Ventoso, não fica indiferente ao movimento que por lá se avista.

Procuram quase todos o mesmo: droga. E deixam rasto. Ali, o chão está revestido de seringas, prata e preservativos usados. O Casal Ventoso que sobrou ainda é o que era.

Nos anos 1980, desaguavam aqui cinco mil toxicodependentes por dia. Vinte anos volvidos da demolição, este cenário continua a ser paragem obrigatória de equipas de rua da Associação Ares do Pinhal. Trocam o material de consumo utilizado por um kit esterilizado e, na melhor das hipóteses, tentam encaminhá-los para tratamento.

António Santos, nascido e criado no Casal, relata um cenário de "gueto". "Só havia uma entrada e uma saída", lembra, apontando a geografia do espaço como explicação essencial para o narcotráfico que ali se registava.

Quando se casou, em 1990, a droga já era um estigma e problema instalado no bairro. Mas nasceu num tempo em que esta ainda não fazia parte da história daquela encosta. Na verdade, a venda e o consumo só chegariam por volta da década de 1980 - e cresceria alimentando-se da extrema pobreza que ali se vivia.

Aquela encosta seria conhecida por todo o país como o "hipermercado da droga".

José Godinho, na altura presidente da Junta de Freguesia de Alcântara, recorda o Casal Ventoso como um cenário "degradante" que gerou desconfiança e insegurança nos de fora.

Um fenómeno como nenhum outro

"O problema da droga nunca será erradicado. Podemos é ter uma situação mais controlada", avança o psiquiatra Rodrigo Coutinho, da Associação Ares do Pinhal, que desde cedo interveio no Casal Ventoso para atuar junto de consumidores e ajudar na sua reconversão.

Com ele estão Elsa Lucas Belo, 47, diretora técnica, e ainda Teresa Cardoso, 40, administrativa. Quando o Casal Ventoso era Casal Ventoso, integravam a a equipa do Gabinete de Apoio ao Toxicodependente (GAT), para tentar mudar a dura realidade da encosta.

O GAT foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa, funcionou entre 1997 e 2002, ano do fim do realojamento. Tinha assistentes sociais, enfermeiros e médicos. A iniciativa pretendia fazer descer até ao gabinete toxicodependentes, a quem ofereciam um banho, uma refeição quente e ainda curativos para as feridas.

O fecho do GAT não se traduziu na resolução dos problemas - muitos dos quadros transitaram então para a Ares do Pinhal, que abriu portas em 1973 e continua em atividade. A droga deixou de ter no Vale de Alcântara o seu hipermercado, sim, espalhou-se por vários supermercados na cidade.

Não há dados específicos sobre os índices de consumo e tráfico nesta região, apenas a opinião de quem aqui trabalha na sua prevenção há mais de uma vintena de anos. E a ideia é clara: a droga nunca desapareceu completamente desta zona.

O cenário antes da demolição, claro, era bem pior. Nesses tempos Elsa e Teresa eram umas miúdas, na casa dos 20 anos. Guardam na memória dias duros e uma chegada para a qual dizem ninguém se ter preparado. "Não estávamos preparados para a dimensão do fenómeno que ali encontrámos", desabafou Rodrigo Coutinho, na altura coordenador clínico do gabinete de apoio.

Antes de ali ter chegado, passou por muitas outras zonas em Lisboa onde tratou dezenas de toxicodependentes por dia, mas soube, assim que pousou no Casal Ventoso, que estava a assistir a um fenómeno difícil de encontrar em qualquer outra parte do país.

Elsa lembra as mãos pretas dos consumidores, "gastas pelo tempo" e pelo descuido higiénico. Muitos chegavam até si com o corpo revestido de tecidos mortos e como "autênticos esqueletos". A maioria tinha apenas entre 25 a 30 anos.

De acordo com os dados recolhidos na altura pela equipa, 55% daquela população era seropositiva, 14% tinha tuberculose e cerca de 80% contraiu Hepatite C. Uma seringa dava para cinco ou seis, sem cautela com os perigos que a partilha acarretava.

Daquele contentor onde trabalhavam, Elsa, Rodrigo e Teresa queriam mudar o mundo, mas "quando se deu por ela, a situação no bairro já estava incontrolável", conta Rodrigo. Todos os dias, morria pelo menos uma pessoa no bairro.

Em 1998, as máquinas demolidoras entraram no terreno para dar início à primeira fase do desmantelamento. E, pela primeira vez, a equipa de apoio entrava nas barracas. Foi esse dia que mais terá marcado Rodrigo Coutinho. Estavam longe de imaginar o que ali encontrariam. Sobre a terra, solo de todas as habitações clandestinas, viam dejetos e injetáveis - tudo misturado. A acompanhar o cenário degradante, um odor que nem vale a pena adjetivar.

No dia seguinte às demolições, os números de pedidos para dar entrada nos programas de metadona subiram radicalmente. "Fazia-se fila", recorda Elsa. Muitos deles ficaram sem casa, por viverem em barracas ou tendas, ou por terem sido rejeitados pelas próprias famílias. Seriam, mais tarde, acolhidos nos centros de abrigo do programa residencial da associação Ares do Pinhal. Outros, vigiados de perto através do serviço ambulatório que ainda hoje se realiza em vários pontos da cidade, para troca de material de consumo.

O que o Casal Ventoso deu a Lisboa serviu de lição para um país inteiro, servindo até como caso de estudo a nível internacional.

Miguel Chaves, sociólogo e autor de livros sobre a história do bairro, acredita que a realidade que lá existiu "teve um papel muito importante na alteração da política das drogas em Portugal, sobretudo na intensificação de introdução da metadona".

Na verdade, em Portugal, cultivou-se a "ideia de que se o Casal Ventoso fosse demolido a droga em Portugal desaparecia", conta. Lamenta, contudo, que a história do bairro ainda seja contada com "excessivo ênfase, por parte da comunicação social" sobre a droga que lá morou.

Alerta que "o tráfico e consumo surgiram apenas em meados da década de 1980" e que "é possível falar do Casal Ventoso sem falar de droga". Mas quando Miguel lá entrou pela primeira vez, esta era a parte da história que não esperava encontrar: ali viviam décadas de memórias "que não só não têm nada a ver com a droga como explicam como é que esta se instala e se difunde por lá".

"Vinha preparado para encontrar o estranho e fui gradualmente encontrando o que me era familiar", recorda.

Anatomia da dependência

"Eu vi muita morte lá", conta Dário Ramos. A droga roubou a vida a muitos dos seus amigos e até a um irmão, que faleceu com 25 anos. O antigo morador desabafa que crescer no bairro era "uma prova da vida". Por ter nascido, crescido e lá ter permanecido até ao início da sua vida adulta, Dário garante que "era fácil as pessoas perderem-se na droga". "Era novidade, as pessoas não estavam informadas e experimentaram", diz.

Para muitos, a experiência foi fatal. Todos os dias, "lá se viam ambulâncias a levar alguém", conta Dário.

Foi fascinado pelos maiores segredos daquela encosta, temida por muitos, que Miguel Chaves, atualmente professor de Sociologia na Universidade Nova de Lisboa, decidiu fazer do bairro o tema da sua tese de mestrado - o resultado daria, mais tarde, origem ao livro da sua autoria, intitulado Casal Ventoso: da gandaia ao narcotráfico.

Chegaria ao bairro com apenas 22 anos, em 1992, enquanto estudante da licenciatura. Integrou a equipa de um projeto de intervenção social intitulado "Amanhã", que pretendia apoiar a formação de jovens em risco de bairros na cidade - entre os quais o Casal Ventoso.

Que riscos, afinal? "Ficarem fora do sistema escolar, tornarem-se consumidores ou traficantes de droga, enfim. Era um bairro onde esse potencial existia e muito", recorda.

A iniciativa propunha conceder competências sociais e culturais à população deficitária jovem que ali morava, alheia a um conjunto de valores e referências importantes ao crescimento, como o trabalho e a escolaridade. Através do projeto "Amanhã", os menores tinham acesso a pequenos cursos de canalização e de informática.

A comunidade que Miguel Chaves encontrou no Casal Ventoso era "mais juvenil do que encontramos no concelho de Lisboa, de maneira geral", aponta. Acompanhados pela população mais idosa, muitos destes jovens passavam os seus dias no Centro Social do bairro - criado após o 25 de abril de 1974 e construído no meio da encosta.

"Aquele espaço era o nosso melhor amigo", recorda Dário, cuja infância passou por tardes de jogos e refeições quentes naquele lugar, sob a responsabilidade de José Luís Coelho - também antigo residente e que acabaria por morrer antes do realojamento do bairro. Em homenagem, o filho e agora presidente da instituição, Luís, decidiu dar o nome do pai à entidade: hoje Centro Social José Luís Coelho.

Miguel, que ali começaria as primeiras páginas do seu livro como observador daquela comunidade, diz que a instituição "conseguia prestar um apoio à população incrível para a dimensão que tinha". "Parecia um edifício relativamente pequeno, mas na realidade cabiam ali dezenas e dezenas de crianças - nunca menos do que uma centena - em apoio permanente, em atividades lúdicas, mas também dezenas de idosos a circular por lá diariamente e a receber refeições ", conta.

O Centro Social do Casal Ventoso tentou impedir muita da juventude de cair na teia do narcotráfico, mas o bairro que os rodeava atraía-os para aquele submundo. O mesmo bairro onde praticar a ilegalidade era levado com naturalidade. Tudo parecia aceitável e até, em alguns casos, meritório.

"O fechamento do bairro, em termos de acesso, facilitou a criação de oportunidade ilegais e criou aqui a possibilidade de um hipermercado e droga", explica Miguel. Mas não foi o que impulsionou este fenómeno.

O tráfico e consumo de droga infiltrar-se-ia no Casal Ventoso depois da revolução e da chegada de milhares de pessoas vinda das antigas colónias. Contudo, raramente os moradores assumiam o papel de consumidores. Ou se tornavam negociadores ou se mantinham à margem, como meros espetadores deste ecossistema.

Haxixe e heroína, era o que mais se via trocar nas ruas. Partilhavam-se seringas despudoradamente. Parte dos toxicodependentes dessa altura acabaria por morrer com SIDA, numa altura em que o conhecimento sobre os perigos do consumo ainda eram desconhecidos pela vasta maioria.

Mas, ao contrário do que se possa pensar, "aqui não se podia fazer o que se queria sem qualquer escrutínio policial", sublinha Miguel Chaves. Centenas de pessoas ali residentes davam entrada nos estabelecimentos prisionais da cidade, depois de rusgas policiais nas ruas do bairro. "Por isso, acabou por se criar aqui uma relação muito estreita entre o bairro e a prisão. É quase como se passasse a funcionar em extrema relação com os estabelecimentos prisionais", relata o sociólogo. Entravam uns, saíam outros. Famílias inteiras eram para lá transportadas, de uma só vez ou em sequência.

Um bairro que já nasceu à margem

Não olhar para a encosta entretanto demolida além de um antro de droga conduziu à criação de estigmas sobre os moradores que ainda hoje prevalecem.

"O que os moradores mais esclarecidos dizem é que a droga foi injetada no Casal porque sendo uma população bastante empobrecida e carente não seria difícil isto acontecer", diz Filipe Santos.

O presidente do Projeto Alkantara, iniciativa social de integração dos antigos moradores nos novos bairros municipais, alerta, contudo, que para compreender o fenómeno do narcotráfico é preciso olhar bem para trás, mesmo até ao ano em que pela primeira vez se verifica documentação sobre o Casal: 1837.

Neste ano, o Casal Ventoso estreia-se num mapa de Lisboa, como um terreno sob a alçada de um homem chamado Benjamin Cid, numa área fora dos limites administrativos da capital e ainda sem quaisquer vestígios de habitações. Na altura, dava pelo nome de "Castelo Ventoso".

O movimento migratório para aquela encosta terá sido, para a vasta maioria, a última tentativa de arranjar um espaço para morar dentro da cidade. Era como "descer ao mais baixo patamar da hierarquia residencial", escreve Miguel Chaves na sua obra sobre o bairro.

Em 1913, o Casal Ventoso começaria a surgir como um dos primeiros bairros clandestinos de Lisboa - provavelmente o mais extenso. Numa encosta sem construções, talvez pela complexidade de um terreno inclinado, e numa altura pautada por uma relativa tolerância do Estado perante a construção clandestina, várias famílias ocuparam o terreno em barracas ou mesmo tendas.

"Concentraram-se aqui porque era a zona onde tinham condições de pagar uma renda ou, em alguns casos, onde era possível viver sem pagar uma renda", explica o sociólogo Miguel Chaves.

Gerações e gerações perpetuariam a estadia no que se viria então a chamar, mais tarde, Casal Ventoso, entretanto mais preenchido e com alma bairrista.

Durante décadas, a mobilização para fora do bairro foi quase nula, mantendo as pessoas na mesma posição social de exclusão. Miguel acredita que tal terá acontecido por duas razões: "por um lado, por um completo divórcio de um canal estabelecido de mobilidade social que é a escola e, por outro lado, por uma situação de exclusão face ao mercado de trabalho".

Até ao início dos anos 50, o bairro era principalmente conhecido pela miséria que carregava. Os dados do censo de 1981 relatam que 60,2% da população empregada no Casal Ventoso encontrava-se no setor terciário e 39,6% no secundário, enquanto a que estava empregada no primário representava uma percentagem quase insignificante.

A maioria dos homens residentes no bairro eram estivadores com salários precários. Já as mulheres "andavam à gandaia", procurando trapos e cartão nos vazadouros do bairro, que depois vendiam aos ferros-velhos.

Apesar dos esforços, o que caía nos bolsos nem sempre chegava para garantir refeições quentes às famílias. Mas para todos houve sempre uma solução. José Santos, antigo residente no Casal e o primeiro a ser realojado na Quinta do Cabrinha, um dos três bairros que acolheram os moradores do velho bairro, dá-lhe um nome, conhecido por todos na zona: sopa do barroso. Era, como indica, uma sopa, distribuída em Campo de Ourique aos mais pobres, à qual também recorriam muitos moradores da encosta.

"Parece que me estou a ver ali sentado". Lembra-se como se fosse hoje. "Quando era novinho, ia à sopa do Barroso e sentava-me lá nos degraus dos prédios a comer a sopinha", conta. Não pagavam nada pela refeição. Todos os dias, seguiam até lá, levando na mão uma chapa "com um número" - só com ela poderiam levantar a sua sopa, "quase sempre de feijão".

Miguel Chaves acredita que, se o narcotráfico permanece vivo, isso deve-se a um certo abandono da população quando esta foi realojada pelos diferentes núcleos habitacionais camarários. "As condições para que a droga se instale continuam a manter-se": a baixa escolaridade e o elevado desemprego. Fatores que acabaram por fomentar o preconceito sobre a comunidade que viveu naquela encosta - e que dela ainda recorda o melhor.

Há 20 anos, Lisboa apagava do mapa o bairro que ninguém queria ver.

Na demolição que levou memórias e bóias salva-vidas para uma comunidade marginalizada, os escombros não conseguiram enterrar o narcotráfico. Os bairros do exílio já não têm barracas nem seringas pelo chão. Mas ainda não se tornaram em casa para ninguém.

Exclusivos