A cerca pelo olhar dos produtores de pão-de-ló: "Ovar ficou com um estigma que demorará a passar"

Alda Almeida e César Liz são produtores de pão-de-ló de Ovar, o ex-líbris da cidade e uma das maravilhas da doçaria portuguesa. A covid-19, que levou o pai de Alda, reduziu a pouco mais de zero (o pouco mais deveu-se à Páscoa) a produção de ambos. Vivem-se dias amargos na cidade doce agora a sair da cerca sanitária.

"É um dia de cada vez, até que a situação melhore. E vai melhorar, se Deus quiser", diz Alda Almeida, do outro lado do telefone, voz de mulher que leva tudo à frente. O pai morreu-lhe na segunda-feira, de covid-19, depois de quatro semanas hospitalizado. Tinha 85 anos. Nunca tinha estado doente. Depois de ter dado positivo e de ter sido internado, a família ficou em quarentena, mas, como ninguém revelou sintomas, ninguém foi testado. O período de contágio já lá vai. A perda do pai não.

"Senti na pele o mal que esta doença pode provocar. Tem sido muito difícil para nós, ovarenses, como é para o país, para a Europa, para o mundo, mas Ovar ficou com este estigma de que vai demorar a passar, mesmo quando a cerca sanitária for levantada [o que vai acontecer de forma gradual]", diz Alda, que apesar disso não contesta a decisão de Salvador Malheiro, presidente da câmara municipal, que, com as autoridades de saúde locais, instou o governo a decretar no dia 17 de março de 2020 que ninguém entrava ou saía do concelho.

Os casos do covid-19 eram então 30 e temia-se o descontrolo da situação. Um mês depois, com 498 casos confirmados segundo a Direção Geral da Saúde (a Câmara Municipal de Ovar dá conta de 595 infetados, 25 mortos e 60 recuperados), mas com os novos casos em curva decrescente, a cerca sanitária vai ser levantada e a circulação restabelecida. A normalidade é que ainda demorará a chegar, talvez mais devagar aqui do que no resto do país.

"Não sei se muitas encomendas de fora não caíram por causa do medo de ser de Ovar"

Como a maioria dos associados da Associação de Produtores de Pão de Ló de Ovar, Alda Almeida é uma pequena produtora, numa empresa familiar composta unicamente por ela e pelo marido.

Em A Casa das Festas, além do pão-de-ló, confeciona-se bolos de aniversário, de casamento e de batizado. Tudo parado nos tempos que correm. Com portas encerradas desde a declaração do estado de emergência e sem encomendas, Alda só voltou ao trabalho no período da Páscoa, sexta e sábado. "Terei produzido cerca de 30 por cento do que faria numa Páscoa normal. Só vendemos dentro do concelho. Pela primeira vez fizemos entregas ao domicílio."

As confeitarias e lojas gourmet que fornecia, do Porto a Lisboa, estão encerradas, por isso o escoamento foi local, como o da maioria dos colegas. "A Câmara Municipal de Ovar emitiu uma declaração que permitia a circulação excecional neste período, para quem tivesse entregas a fazer fora do concelho, mas foram muito poucos os que o fizeram. Não sei se muitas das encomendas de fora não caíram porque as pessoas tiveram medo por ser de Ovar", diz a produtora local, preocupada com o rótulo que se colou à cidade e com as consequências que isso poderá ter no futuro.

"Ovar ficará na história da pandemia em Portugal como terra amaldiçoada, mas a verdade é que conseguimos controlar a doença e a curva está a descer. A nossa população tem sido exemplar. Das poucas vezes que saí para ir às compras, deparei-me com uma cidade fantasma, ninguém nas ruas. No dia do funeral do meu pai, saímos e à volta o vazio", diz.

"Com todos os cuidados, porque, como diz a Direção Geral de Saúde, cada um de nós tem que ser um agente de saúde pública, mas temos que começar, até pelo lado psicológico, para sairmos desta apatia", diz Alda Almeida.

Agora já se vê mais trânsito, algumas empresas já voltaram a laborar, mas, na maneira de ver de Alda, o regresso à normalidade há de ser aos bocadinhos e com muitas cautelas. "Isso nota-se muito, o cuidado das pessoas em proteger-se com máscaras e luvas. Quando estivemos a trabalhar, na Páscoa, o meu marido, que estava na loja, tinha máscara, viseira e luvas e só entrava um cliente de cada vez. As pessoas foram todas muito respeitadoras."

Alda, que diz às vezes perder a noção do tempo, dado o isolamento, não sabe quando voltará à produção em pleno, mas tem urgência em regressar ao trabalho e não é só por motivos financeiros. "Nos primeiros tempos as vendas não darão nem para um terço da luz que se gasta, mas temos de começar devagarinho. Com todos os cuidados, porque, como diz a Direção-Geral da Saúde, cada um de nós tem de ser um agente de saúde pública, mas temos de começar, até pelo lado psicológico, para sairmos desta apatia", diz.

"Isto há de acabar, se Deus quiser. Vamos vencer esta guerra."

"Espero que as pessoas não deixem de vir a Ovar"

César Liz, também ele produtor de pão-de-ló de Ovar, partilha a garra de Alda. "Já comecei a vida abaixo de zero em duas situações, não é esta terceira que me vai deitar ao chão".

Herdou o negócio familiar da mãe, que foi das primeiras mulheres em Portugal a ser instrutora de condução e acabou por se dedicar à produção de pão-de-ló de Ovar, produto certificado com o selo de Identificação Geográfica Protegida. A marca, que começou por chamar-se Flôr de Liz e agora é Menina Ló, o nome pelo qual a mãe é tratada desde pequena, vendia até ao início de março cerca de 20 a 25 mil unidades por ano, graças ao contrato de fornecimento a uma grande superfície. Neste mês a produção ficou pouco acima do zero.

"Desde 10 de março, entreguei zero pães-de-ló ao meu principal cliente, que suspendeu as encomendas depois do decreto do cerco sanitário por considerar que sendo Ovar um nome agora associado ao covid-19, isso poderia ter repercussões nas vendas. Não disseram com estas palavras todas, mas ficou subentendido. Por outro lado, a loja que tenho no centro da cidade está encerrada porque o pão-de-ló não é considerado um bem de primeira necessidade."

Na Páscoa, época alta do pão-de-ló de Ovar, voltou a produzir, mas apenas para a população local. "Não abri a loja, vendi por encomenda, com entrega ao portão da fábrica. A minha filha, equipada com máscara, touca e luvas, fez as entregas, as pessoas pagaram com MB Way e multibanco, para ser tudo na maior segurança possível, e diria que produzi cerca de 30 por cento do que costumo neste período. Felizmente não tenho funcionários, senão ainda estaria pior do que estou."

Como Alda, o carimbo covid-19 que pesa sobre a cidade e as consequências que isso poderá ter para o negócio preocupam César, cuja loja tem nos turistas os principais clientes. "Daqui a uns tempos, talvez Ovar seja visto como um exemplo, mas agora impera o estigma. Tenho um amigo que teve sintomas de covid-19 e fez o teste em Ovar e depois teve de o repetir em Aveiro e, na tenda onde foi fazê-lo, quando disse que era de Ovar, houve pessoas que fugiram. Imagine isto."

Não é difícil imaginar, quando pensamos nas imagens que nos chegam de Espanha com profissionais de saúde e funcionários de supermercado assediados pelos vizinhos para abandonarem as casas onde vivem.

"Não peço milagres, sei que o Estado não pode suportar tudo, mas os apoios deviam ser dados a quem realmente precisa, que são os mais pequenos", diz César Liz.

O empresário espera, no entanto, que as medidas extremas tomadas, mais do que associarem a cidade à pandemia, a associem ao controlo da mesma. "A minha expectativa é retomar as entregas à grande superfície em maio e reabrir a loja nessa altura. Sei que vai ser um processo lento, mas tem de se começar por algum lado e apelo a que as pessoas não deixem de vir a Ovar", diz César Liz, para quem os apoios do Estado às empresas deviam ser mais bem distribuídos.

"As grandes empresas do concelho vão conseguir recuperar mais depressa do que os pequenos empresários e comerciantes, até porque beneficiaram mais dos lay-offs, dos quais talvez não precisassem tanto como nós. Porque é que os trabalhadores de fora do concelho que não puderam vir trabalhar por causa da cerca sanitária vão receber a 100 por cento e nós, que tivemos de fechar portas, não? Não peço milagres, sei que o Estado não pode suportar tudo, mas os apoios deviam ser dados a quem realmente precisa, que são os mais pequenos. Mas, enfim, eu não sou político", conclui.

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