A angústia dos portugueses pelo mundo que não conseguem regressar a casa

José Albuquerque e outros dois portugueses já foram dispensados da hotelaria de Tenerife e, pior do que isso, não encontram forma de regressar. Como eles, muitos outros portugueses por todo o mundo queixam-se da falta de respostas.

José Miguel Albuquerque é um dos muitos portugueses que trabalha fora do país e foi apanhado pela pandemia de covid-19 e consequente suspensão de voos internacionais. Trabalha na hotelaria em Tenerife, nas ilhas Canárias, e como outros milhares de funcionários de hotéis da ilha espanhola, já não está a trabalhar, foi colocado em férias, tal como os colegas do seu hotel, até 31 de maio. "Tudo está a fechar", relata. O pior é que não consegue sair de Tenerife e, com outros dois portugueses, não consegue encontrar solução e não obtém respostas do governo português que permitam resolver o problema. "Não foram capazes de prestar qualquer tipo de solução credível quanto ao regresso ao meu país."

"Há dois dias consegui falar com a linha Covid-19 do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O atendimento foi rápido mas as respostas foram incríveis. A primeira opção apresentada foi usar o carro. Ora estamos numa ilha, isso não é possível onde até as ligações marítimas fora suspensas. E a outra alternativa foi que consultasse todas as companhias aéreas e visse a possibilidade de voos. Não tinham mais opções, disseram que não estavam a repatriar ninguém", contou ao DN José Albuquerque, 25 anos, de Sesimbra mas há cerca de três anos a trabalhar em Tenerife, "sempre a contrato".

A única opção viável que encontra em Tenerife, onde os aeroportos estão em serviços mínimos, é voar para Madrid. "Sou uma pessoa de risco, já que sou asmático crónico. Madrid não é uma hipótese de todo. Podemos ficar em quarentena lá, não temos forma de ir para Portugal com os voos todos suspensos". A via marítima também não é possível. "Havia uma ligação para Huelva, o que permitiria depois uma solução por terra, de carro, para Portugal mas está suspensa."

De férias até ao final do seu contrato de trabalho, a 31 de maio, José e os outros dois portugueses estão apreensivos e sentem que vão ficar sem emprego. "Não há garantia que vamos voltar a ter trabalho. Os hotéis aqui já estão a anunciar milhares de despedimentos, a hotelaria está praticamente toda a encerrar. Há poucos portugueses emigrados aqui, a maioria dos meus colegas são espanhóis e italianos, mas estes nem querem voltar ao seu país devido à situação lá vivida. Uma pessoa nem sabe o que fazer".

"Somos todos jovens na casa dos 20 aos 30 anos e profissionais de hotelaria que entrou em crise e que não encontra de momento solução para sobrevivência senão junto dos seus familiares na sua pátria natal", resume este português.

A mãe de de José Albuquerque contactou o consulado em Madrid e a opção apresentada foi voar para a capital espanhola, depois para Sevilha e daí procurar uma solução terrestre até Portugal. "Temos receio de não conseguir sair de Madrid", admite. Agora, espera nos nos próximos dias possa encontrar alguma solução mas realça que o atendimento na linha do MNE não foi bom. "Na verdade não ajudaram em nada."

Longe da casa e a ficar sem dinheiro

A situação de José Albuquerque está a ser vivida por milhares de emigrantes e turistas portugueses, além de viajantes por motivos profissionais, por todo o mundo, com a diferença de estar numa ilha e num local com uma comunidade muito reduzida. Na Europa, em especial na França, Suíça e Alemanha, muitos têm optado por regressarem por via rodoviária em automóveis e carrinhas. Noutros destinos, onde a comunidade portuguesa é mais expressiva, também não é fácil mas ainda há alguns voos.

É o caso de um grupo de portugueses ficou retido na quarta-feira, em Maputo, após o cancelamento de um voo para Portugal devido à Covid-19. Um dos emigrantes contou à Lusa que já têm viagens de regresso no sábado e segunda-feira, depois do cancelamento de um voo da TAAG - Linhas Aéreas de Angola, de Maputo para o Porto com escala em Luanda, quando os passageiros já estavam na sala de embarque e sem que fossem apresentadas alternativas.

Relata a agência Lusa que neste conjunto de pessoas afetadas, pelo menos 20 procuraram soluções junto da TAP e fizeram reservas nos dois últimos voos da companhia entre Maputo e Lisboa, antes de a rota ser suspensa - no âmbito da redução geral de operações da TAP por causa do novo coronavírus. "Haverá 13 pessoas a voar no sábado e outras sete na segunda-feira", incluindo neste último voo um grupo de cidadãs espanholas, referiu José Fonseca, um dos passageiros. Pagam estes voos e ficam a aguardar pelo reembolso da TAAG, que, segundo informações da transportadora, poderá demorar alguns meses.

O cônsul-geral de Portugal em Maputo, Frederico Silva, disse à Lusa que além dos passageiros que deviam ter seguido no voo de quarta-feira, há outros já sinalizados no total de nove países sob a sua alçada. Sem especificar quantas pessoas são, referiu tratar-se de pessoas maioritariamente deslocadas em turismo ou negócios e que "face aos novos contextos têm dificuldade em regressar ao país".

Está a ser feito "o máximo que é possível fazer para encontrar soluções caso a caso", garantiu, admitindo tratar-se de uma tarefa "colossal".

Em São Tomé e Príncipe a situação é complicada. A TAP cancelou os voos e muitos portugueses não conseguem regressar, queixando-se da falta de aviso da companhia aérea nos cancelamentos. Além disso, conseguir novos voos implica um custo elevado, com passagens acima de mil euros.

Outro exemplo é o grupo de 11 portugueses que está retido na cidade de Cusco, no Peru. "A embaixada pediu-nos ontem [terça-feira] para enviarmos os nossos dados, os números do passaporte, cartão de cidadão, número de voo, data de regresso, e assim fizemos", disse Nuno Rocha, um dos portugueses, à Lusa. Até agora não têm resposta.

Isto acontece um pouco por todo o mundo. Nas Filipinas estão, pelo menos, 100 portugueses a tentar regressar para casa há vários dias. Acontece o mesmo em Marrocos, Argentina ou Tailândia, e outros. Das Filipinas, Daniela Pinto contou à Visão que "há alguns portugueses que estão em ilhas mais remotas e não conseguem sair nem por via aérea nem marítima". Uma parte destes portugueses está a ficar sem meios financeiros em locais remotos, sem qualquer apoio financeiro.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) criou a Linha de Emergência COVID-19, com o objetivo de dar apoio a quem queira voltar para casa, mas, como foi o caso de José Albuquerque, muitos portugueses estão a queixar-se do mau atendimento na linha.

Esta quinta-feira, o MNE divulgou um comunicado devido aos cancelamentos da TAP. "Considerando a volatilidade da situação decorrente da pandemia Covid-19 e seus impactos a nível das viagens internacionais, todos os cidadãos portugueses que se encontrem em viagem ou que tenham efetuado reservas na companhia aérea nacional (TAP), devem manter-se atentos, diariamente, a informações publicadas pela companhia sobre alterações às suas operações aéreas, lê-se.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG