As praias estão cheias, mas o Cristo Rei está deserto

Reaberto no dia 18 de maio, o santuário do Cristo Rei, em Almada, que antes da crise pandémica fervilhava de crentes e turistas, tem estado deserto. Este domingo celebrou-se ali missa pela primeira vez, após a suspensão devida às medidas de contenção da pandemia de covid-19. Cerca de 50 pessoas assistiram à celebração, no Pavilhão do Rosário, adaptado para receber 250 fiéis.

"A Igreja começou assim, com pouca gente, doze homens e algumas mulheres", disse a dado momento da homilia o padre Carlos Silva, reitor do Santuário do Cristo Rei, valorizando a presença de todos quantos ali estavam "sem medo", cerca de 50, e fazendo um paralelo entre o dia de hoje, domingo, que ali marcou o regresso à missa presencial, e o nascimento da Igreja Católica, neste dia de Pentecostes, pedindo que, como aconteceu com os apóstolos, com a graça do Espírito Santo, os crentes se libertem do medo.

A celebração que, antes da pandemia, tinha lugar na capela do monumento, passou para o Pavilhão do Rosário, um espaço com capacidade para 750 pessoas, agora adaptado para receber 250, de modo a cumprir as regras de distanciamento impostas pelo governo e pelas autoridades de saúde.

Os fiéis, que têm de usar máscara para assistir à missa, antes de entrar devem desinfetar as mãos, com álcool gel oferecido por uma Irmã do Sagrado Coração de Jesus, que depois os orienta para o lugar a ocupar.

Lamentando que a missa tenha ficado para último, no plano de desconfinamento, "quando quase tudo o resto já está reaberto e as praias estão cheias", o reitor do Santuário do Cristo Rei repetiu por várias vezes na sua homilia que nada substitui a presença dos crentes, em comunhão.

Numa celebração que durou cerca de uma hora e meia, o padre Carlos Silva fez questão de notar, apesar de a Igreja acautelar que todas as regras "humanas" de segurança são adotadas - nomeadamente, alterando os rituais da saudação e da comunhão de forma a que estas sejam cumpridas - não pode permitir limitações à duração e liberdade de culto, seja por parte do governo, seja das autoridades de saúde.

Enquanto, dentro do pavilhão do Rosário se celebrava a primeira missa em quase três meses, cá fora algumas famílias passeavam ou desfrutavam da fabulosa vista que dali se tem sobre Lisboa.

"Nada que se compare ao que costumávamos ter", diz Ana Paula, há vinte anos encarregada do pessoal e agora a ajudar na cafetaria, uma vez que parte dos funcionários do Santuário se mantêm em layoff.

"Desde que reabrimos, a 18 de maio, a afluência tem sido quase nula. No fim-de-semana, vem mais gente, mas nem chega a 10 por cento do que tínhamos. Antes da pandemia, o recinto estava sempre cheio, de manhã à noite", diz.

O movimento na cafetaria e na loja de recordações, únicos espaços abertos ao público, uma vez que o monumento ao Cristo Rei se mantém encerrado, tem sido também residual, segundo a responsável, que diz ter saudades de ver o Santuário a funcionar em pleno.

Para o senhor Mário, da portaria, enquanto não abrirem as fronteiras e o turismo voltar, nada voltará a ser como antes. "Noventa por cento dos nossos visitantes são turistas, a maioria deles estrangeiros. Agora vêm sobretudo as pessoas aqui de Almada, ao fim da tarde, para visitar o parque. Talvez no verão anime um bocadinho, mas não sei quando voltará a ser o mesmo. O turismo ainda vai demorar a recuperar", diz.

Foi para perceber como é que estava o movimento que M., chamemos-lhe assim, porque o nome ficou por dizer, motorista de TVDE veio ao Santuário do Cristo Rei, dia 27 de maior, quarta-feira, quando o encontrámos a olhar para Lisboa.

"Antes disto que estamos vivendo, aqui sempre era um ponto muito frequentado, de muitos turistas, que nos proporcionava boas corridas e negócio. Vim cá na expectativa de encontrar clientes, porque soube que abriu dia 18. Apesar de o turismo estar por ora parado, imaginei que estivessem pessoas. Para mim é uma surpresa ver ninguém. Se não fôssemos nós dois, ninguém. É impressionante. Quando eu vinha aqui, isto estava sempre fervilhando de pessoas, carros entrando e saindo, sempre, durante a semana ou ao fim de semana", diz, incrédulo.

Brasileiro, a trabalhar em Portugal há três anos no ramo do imobiliário e como motorista de TVDE, garante que de acordo com um balanço feito no último mês, após a primeira fase de desconfinamento, o negócio está a 10 por cento. "Para manter alguma sustentabilidade é preciso subir pelo menos 30 por cento, se não será inviável continuar".

Otimista, acredita que melhores tempos virão e, mais do que o Cristo Rei, em Portugal, ou o Cristo Redentor, no Brasil, o futuro dependerá das pessoas. E de quem as lidera. "Dou os parabéns ao governo português por ter agido a tempo e não ter hesitado relativamente às medidas a tomar para combater esta coisa de que prefiro nem dizer o nome. Quanto ao meu país, está complicado, por uma única razão: o presidente, que não dá nem para classificar".

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