O momento que a direita moderada sempre temeu chegou, finalmente. Refiro-me ao momento em que os dirigentes do PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal terão de decidir se escolhem entre um candidato social-democrata e o líder do Chega, André Ventura. Os votos pertencem a cada eleitor e todos merecem idêntico respeito. Não existem eleitores de primeira e de segunda. Mas é importante que as pessoas votem de forma esclarecida e aquilo a que temos assistido nos últimos dias tem sido pouco esclarecedor.Em primeiro lugar, temos de compreender que André Ventura não é fascista no sentido tradicional da palavra, tal como Jerónimo de Sousa não é leninista, nem Catarina Martins é trotskista. Essas são classificações do século XX, que não se aplicam ao caso concreto do líder do Chega (embora haja admiradores do fascismo entre os apoiantes do Chega). Chamar-lhe fascista é agitar um papão que não ajuda a um debate esclarecido e que apenas contribui para a polarização. O mais correto será afirmar que Ventura é um populista da direita, que apela a um eleitorado descontente com o atual “sistema” e que se deixa seduzir por soluções fáceis para problemas difíceis. Como todos os populistas, de Trump a Milei, passando por Le Pen ou Wilders, Ventura é um político com carisma, capaz de estabelecer uma ligação direta com o seu eleitorado, muito assente em emoções e em frases feitas que vão ao encontro do sentir profundo de muita gente que há muito tempo não se sente representada pelo “sistema”.. Será Ventura uma ameaça à democracia? Sim e não. Por um lado, dificilmente será uma ameaça ao sistema democrático, como tal. De resto, não existe apoio na sociedade portuguesa para uma nova ditadura, seja ela de direita ou de esquerda. A maioria dos próprios eleitores do Chega não quer viver num país onde não existam liberdade de expressão e eleições livres. Mesmo que Ventura quisesse instaurar uma ditadura, tal seria muito difícil. Em política, nada é impossível, mas afigurar-se-ia muito difícil, pelo menos num futuro visível.Por outro lado, tal como outros populistas na Europa e no mundo, Ventura coloca em causa a democracia tal como a conhecemos, na medida em que o seu discurso vai contra alguns dos principais pilares da sociedade aberta e democrática que construímos em Portugal nas últimas décadas, nomeadamente a proteção das minorias, a igualdade, a separação de poderes e o respeito pelas instituições. Há quem defenda que o Chega opera legitimamente no quadro democrático e que a crítica ao “centrão” faz parte do pluralismo político. Para esta corrente, a rutura proposta é sobretudo política e não implica necessariamente uma rejeição da sociedade aberta que em Portugal foi também construída pelos partidos de direita, nomeadamente o PSD e o CDS. Mas sem esses pilares fundamentais, é difícil argumentar que o partido defende a mesma sociedade aberta que a direita moderada.Em todo o caso, Ventura tem um discurso de rutura, que poderá ser bom ou mau, consoante as opiniões de cada um. Por isso, a verdadeira discussão não é se quem é de direita deve votar no candidato da direita, como tem sido dito, mas sim se os portugueses querem uma rutura ou não. E não faltam exemplos, por esse mundo fora, que podem ajudar a decidir. Diretor do Diário de Notícias