Vale a pena relembrar palavras recentemente proferidas pelo presidente do Conselho de Administração do ABanca que, cito de memória, afirmava que Portugal é o segundo mercado mais lucrativo para fazer banca na Zona Euro. São palavras fortes, reveladoras, e que ajudam a explicar muito do que temos vindo a assistir nos últimos anos no setor bancário nacional.Não é por acaso que vários grupos bancários internacionais, como o próprio ABanca, o BPCE ou o BNP Paribas, têm reforçado a sua presença em Portugal, seja através de aquisições, de crescimento orgânico ou mesmo da deslocalização de centros de decisão e serviços. Portugal oferece estabilidade, uma regulação exigente, clientes bancários sofisticados e, como agora se reconhece publicamente, níveis de rentabilidade muito atrativos.Contudo, esta elevada rendibilidade do setor e a generosa remuneração acionista não têm tido tradução justa nos salários e nas condições de trabalho dos bancários. Pelo contrário: Portugal continua a apresentar uma das classes bancárias mais mal remuneradas da Europa Ocidental, apesar dos resultados históricos apresentados pelos bancos nos últimos exercícios.Importa recordar que, ao longo da última década, o setor perdeu cerca de 25% dos seus postos de trabalho. Milhares de trabalhadores foram empurrados para reformas antecipadas ou despedimentos, num profundo processo de reestruturação. No período pós-covid assistiu-se a uma recuperação parcial do emprego, mas tal não se refletiu numa reposição dos rendimentos reais, nem para os trabalhadores no ativo nem para os bancários reformados. Também os subsistemas de saúde, fundamentais para a segurança social da classe, continuam sob forte pressão financeira.Esta situação é socialmente injusta e economicamente incoerente. Um setor altamente lucrativo não pode continuar a assentar o seu sucesso na compressão salarial, na intensificação do trabalho e na erosão dos direitos sociais.Num contexto exigente, é de assinalar positivamente a discrição, o rigor e a eficiência com que o novo governador do Banco de Portugal tem vindo a exercer as suas funções. A supervisão prudente e credível é um pilar essencial para a estabilidade do sistema financeiro e para a confiança dos cidadãos.Por fim, não posso deixar de sublinhar a enorme mobilização cívica e social que se gerou em resposta às consequências da tempestade Kristin. Num momento difícil para tantas famílias, ficou uma vez mais demonstrada a importância da solidariedade, mas também da responsabilidade social das empresas, incluindo as do setor financeiro.Em 2026, a banca portuguesa enfrenta ventos favoráveis e marés desafiantes. O caminho que escolhermos, enquanto setor, enquanto sociedade e enquanto decisores, determinará se esta prosperidade será partilhada de forma justa, ou se continuará a aprofundar desigualdades inaceitáveis. Presidente do SNQTB