Veneno em semente

Está disposto a viver assim para sempre? Desculpe a pergunta incómoda, mas nesta altura é esta a questão que se coloca. Senão, vejamos. Com uma assembleia da república em dissolução, os deputados aprovaram uma lei que habilita o Governo a determinar a uso de máscara na rua sem que para isso necessite da aprovação do parlamento. Ou seja, mais um cheque em branco em via verde que estes partidos políticos ofereceram a este executivo, beneplácito e cumplicidade que, de resto, dominam desde março de 2020. Já tínhamos tido aberrações como crimes decretados por resolução do conselho de ministros (sem passar pela assembleia da república) e, por exemplo, relativamente ao teletrabalho, sublinhe-se que a matéria laboral é da competência do Parlamento, inclusive obrigando a ouvir representantes dos trabalhadores e das entidades patronais.

Ou seja, tudo indica que o executivo, já pejado destes perigosos precedentes inéditos, prepara-se para entrar em roda livre até às eleições (e talvez até depois delas). Como venho insistindo, era do absoluto interesse de António Costa provocar esta crise política, posicionando-se como o adulto que quis aprovar o orçamento (mas os outros não deixaram) e o responsável que endurece as estéreis mas histéricas medidas covid enquanto, como se não bastasse, cirandeia sem controlo nem escrutínio, sejam os filtros relativos à supressão do Estado de Direito ou concernam à distribuição dos dinheiros da bazuka. Exacto. Os socialistas ficaram com o melhor dos três mundos.

Até há relativo pouco tempo, matérias de somenos importância eram declaradas inconstitucionais por não cumprirem autorizações parlamentares. Não passavam. Agora, porta escancarada para todo e qualquer atropelo. Bar aberto para atacar direitos básicos. Não admira, então, que o Relatório Global sobre o Estado da Democracia conhecido esta semana tenha concluído que Portugal sofreu retrocessos na qualidade da democracia. Fomos mesmo o único país da Europa Ocidental que registou uma queda em três dos parâmetros, incluindo corrupção e independência judicial. Aliás, em geral, os governos democráticos estão a retroceder e o mundo está a ficar mais autoritário, recorrendo a práticas repressivas e enfraquecendo o Estado de Direito, em grande parte por causa das medidas covid. São essas as conclusões do Instituto Internacional para a Democracia que mede o desempenho democrático de 158 países desde 1975.

Enfim. Com esta gestão da covid, faleceram mais pessoas sem assistência médica do que com o sarscov2. Abriram-se excepções, antecedentes e alçapões no regime, nas leis e no respeito pela constituição inaceitáveis para qualquer democracia. Mataram-se empresas e negócios. Destruíram-se dois anos escolares. Fragilizou-se o sistema imunitário das crianças como comprovam os surtos de outras infecções respiratórias e várias patologias. Criou-se uma epidemia de doenças mentais e números record de suicídios. Esboroou-se a coesão social e rebentaram-se códigos, símbolos e regras.
Tudo isto em nome de um vírus ao qual sobrevivem 99,95% das pessoas que com ele contactam. Sucede que se o grupo de pessoas que se opõe e resiste a esta barbárie continuar igualmente marginal, estaremos apenas no início. Este pesadelo será apenas o começo. E o pior ainda estará para vir.


Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG