Vasco Rocha Vieira

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Passam amanhã 35 anos. Às 11h30 (hora de Pequim) do dia 13 de abril de 1987, era assinada a Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau, perante a ovação dos presentes. Era madrugada em Lisboa, Pequim acordava primaveril e chovia em Macau. Na maior das 29 salas do Palácio do Povo, sobre uma mesa coberta pelas duas bandeiras, o então primeiro-ministro de Portugal, Cavaco Silva, 47 anos, e o seu homólogo, Zhao Ziyang, 67, assinavam o acordo internacional que fixava a data de 19 de dezembro de 1999 para o arriar da nossa bandeira e o regresso à soberania chinesa daquele pedacito de território administrado há séculos por Portugal.

Foi há 35 anos. Na tribuna, atrás de Zhao e Cavaco, que chegava a Pequim com um Governo derrubado por uma moção de censura no Parlamento, estava Deng Xiaoping, o líder chinês que via aberto o caminho à aplicação do inédito princípio "um país, dois sistemas" e à reunificação do país, conferindo à Região Administrativa Especial de Macau um "alto grau de autonomia", e a garantia de que "os atuais sistemas social e económico", as "leis vigentes" e a "maneira de viver" se manteriam até 2049.

Mais do que um virar de página da nossa História, a Declaração Conjunta abria uma nova fase nas nossas relações com a China. E o sucesso do período de transição que se seguiu à assinatura daquele acordo seria crucial, tendo os dois últimos terços dessa volta ao zodíaco chinês sido conduzidos em Macau por Vasco Rocha Vieira, o nosso último governador, que o mundo inteiro viu fechar o ciclo imperial europeu no Oriente com a bandeira portuguesa agarrada ao peito.

Não por acaso, quando se assinalam os 35 anos sobre aquele acordo, o general Rocha Vieira acaba de ser agraciado com um doutoramento honoris causa pela Macau University of Sciense and Tecnology, em reconhecimento pelo contributo do último governador para a "modernização da economia, contínuo progresso e autonomia" do território, destacando sobretudo a sua "ação decisiva na construção do Aeroporto Internacional" e no desenvolvimento de relações, "em larga escala, com a União Europeia e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa".

Quando passam 35 anos sobre a assinatura da Declaração Conjunta, esta distinção chinesa ao último governador português de Macau é um tributo com verdadeiro significado político: assinala as boas relações entre os dois países e é o reconhecimento de que Portugal cumpriu largamente as responsabilidades assumidas em 13 de abril de 1987 - e que de tudo isso resulta um clima de entendimento entre os dois subscritores, já em 2010, de uma Parceria Estratégica Global.

Todo o processo negocial que levou ao acordo, e sobretudo a forma competente, modernizadora e sem sobressaltos como Vasco Rocha Vieira conduziu o período de transição em Macau, projetaram o nome de Portugal como um país construtor de consensos e de pontes entre culturas que são um exemplo para a comunidade internacional, em particular num momento como o que vivemos, de enorme turbulência geopolítica, com um novo realinhamento entre os blocos de poder. Nas relações com a China, pese embora a nossa pertença à Aliança Atlântica e apesar da crescente tendência da diplomacia de Lisboa em seguir as orientações de Bruxelas, Macau deverá continuar a marcar a singularidade da diplomacia portuguesa, tributária de uma relação única iniciada em 1516. Para Portugal, escolher entre os nossos aliados tradicionais e a China será sempre um falso dilema. A ligação à China e Macau, baseada na confiança e no respeito mútuos, abre horizontes, prolonga de alguma forma a nossa herança como pioneiros da globalização e deve, por isso, permanecer uma prioridade.

Jornalista

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