Vamos lá falar de palmadas

A recente notícia sobre a morte de uma criança de 3 anos de idade, em que se suspeita que tenha sido vítima de maus-tratos físicos, deve ajudar-nos a refletir sobre a punição corporal e em que medida esta ajuda (ou prejudica) o desenvolvimento e o bem-estar das crianças e jovens.

Muitos pais e cuidadores acreditam que "uma palmada nunca fez mal a ninguém", que "bater é muitas vezes a única solução para o mau comportamento" e que "só se perdem as que caem no chão". Falamos de crenças que legitimam o recurso a práticas parentais mais punitivas e que aumentam, naturalmente, a probabilidade de estas virem a ser utilizadas.

Quando falamos de estratégias parentais punitivas é importante ter em conta a idade da criança, a intensidade e frequência do comportamento, se se bateu com a mão ou com um objeto e, ainda, a parte do corpo em causa, sendo certo que, em função destas variáveis, podemos ter situações de gravidade diferente.

No entanto, e ainda que a gravidade possa ser entendida como mais baixa (por exemplo, a célebre palmada na mão ou na fralda), não deixa de ser uma punição corporal.

E qual o impacto deste tipo de comportamentos?

Com crianças mais novas, é certo que a palmada tende a parar o comportamento desadequado na hora, ou seja, podemos dizer que é eficaz a curto prazo. Mas não o é a longo prazo, o que significa que a criança tende a repetir o comportamento que os pais desejavam eliminar. Com crianças mais velhas o comportamento de bater deixa de ser tão eficaz, ainda que a curto prazo, e potencia sentimentos de raiva, medo, tristeza e desejo de vingança.

Ao mesmo tempo, devemos colocar uma questão importante: o que aprende uma criança que é batida? A resposta é simples: nada de positivo.

Mais do que a bater, é através da escuta ativa e da resolução assertiva de conflitos que ajudamos a criança a crescer saudável e feliz.

Quando é batida, uma criança aprende que bater poderá ser uma boa forma de resolver os seus problemas e, ainda, que é aceitável que os mais velhos e poderosos batam nos mais novos e nos mais fracos. Ao aprender isto aumenta também o risco de ela mesma vir a bater em alguém - afinal de contas, está a colocar em prática aquilo que tem observado e que lhe ensinaram.

Se queremos ajudar a criança a desenvolver-se de uma forma adequada, sabendo regular as suas emoções e comportamentos, tolerando a frustração e potenciando a sua capacidade empática, não é às palmadas que devemos recorrer. Devemos, sim, privilegiar o uso de estratégias mais indutivas, em que explicamos as situações e tentamos que a criança as compreenda, tendo em conta a sua maturidade. Em paralelo, é importante que os comportamentos adequados sejam recompensados (acima de tudo, com elogios e atividades prazerosas) e os desadequados tenham uma consequência negativa (por exemplo, a perda de um privilégio).

As palmadas ajudam a parar a situação na hora e a criança interrompe o seu comportamento desajustado. É certo. Mas também potenciam emoções desagradáveis e aprendizagens negativas, que aumentam o risco de mimetização e de repetição de comportamentos.

Mais do que a bater, é através da escuta ativa e da resolução assertiva de conflitos que ajudamos a criança a crescer saudável e feliz.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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