Uma primavera europeia com mais pujança

As próximas seis a oito semanas, que incluem o período da Páscoa, poderão ser um período de grandes tensões na União Europeia (UE). Entramos na primavera. É a altura em que a vida volta a brotar. As pessoas, como os rebentos das plantas, querem sair à rua para apanhar o novo sol. Tornam-se impacientes e aceitam dificilmente que os seus movimentos sejam controlados por um polícia a cada esquina.

Os líderes europeus, incluindo a Comissão, continuam a projetar uma imagem de inconsistência perante a calamidade que enfrentamos desde há um ano. O desafinamento é geral, embora, como a reunião da semana passada mostrou, os membros do Conselho Europeu procurem disfarçar o desapontamento e manter a discussão dentro dos limites das boas maneiras. Não há críticas diretas, mas vários dirigentes nacionais andam à procura de alternativas, fora do quadro comum. Viktor Orbán, como sempre, foi o primeiro a sair da fotografia. Nesta semana fez-se vacinar publicamente com a Sinopharm chinesa e aprovou a aquisição da Sputnik V russa. Tudo à revelia do decidido em Bruxelas. A via que abriu está a ser seguida pela República Checa, a Croácia, a Eslováquia e a Polónia, que também querem a vacina russa ou as produzidas na China.

A conclusão é simples. A falta de celeridade da campanha de vacinação é atualmente o problema político mais importante na Europa. Sem a imunidade generalizada, o resto - a vida familiar, a economia, a cultura, o desporto, as viagens, as atividades sociais - continuará moribundo. Em declarações que fez nesta semana, Von der Leyen parece ter finalmente entendido a importância de uma campanha rápida, eficaz e bem explicada. Mas não é suficiente. A confusão, a burocracia, a baralhada com as farmacêuticas e os enviesamentos geopolíticos continuam a atrasar tudo. E não há quem consiga proporcionar a liderança que é precisa. A presidência atual do Conselho Europeu anda dispersa com outras coisas, como se estivéssemos num tempo normal e não houvesse uma prioridade absoluta. Portugal tem de corrigir o tiro.

Ao nível dos Estados membros, para além da desorientação reinante, verificamos que as políticas adotadas são as tradicionais - confinar, fechar tudo e criar barreiras nas fronteiras. E agora a fratura é acentuada pelos pactos bilaterais que estão na forja entre a Áustria e a Dinamarca com Israel, um país que tentará explorar ao máximo os dividendos políticos desses acordos.

São respostas caso a caso, que põem em causa o esforço comum.

Em França, Emmanuel Macron deixou de ter tempo para as questões europeias. Está enredado numa situação política complexa, agravada pela proximidade das presidenciais de 2022. As sondagens, com Marine Le Pen em ascensão, não o deixam em paz. Sem contar que Michel Barnier poderá entrar na contenda, surgindo assim como mais um obstáculo à reeleição do atual presidente.

Na Alemanha, onde a economia e a opinião pública resistem melhor à crise, não há grande entusiasmo pelos assuntos europeus. A questão central é a da sucessão, dentro de meses, de Angela Merkel. A que se juntou agora a decisão de colocar o partido da extrema-direita, a Alternativa para a Alemanha (AfD), sob vigilância policial.

Em Itália, a chegada de Mario Draghi ao poder é favorável à Europa. Trata-se de um europeu convicto e corajoso. Mas tem de se focar, acima de tudo, na delicada situação económica e social em que o seu país se encontra. E em manter a sua frágil coligação coesa.

O resto da UE pesa pouco na definição da linha futura. Assim, é essencial ter em Bruxelas uma liderança comunitária forte. Essa é uma das lições que se deve tirar da presente barafunda - precisamos de líderes sólidos nos principais países da União e de políticos de primeiro plano nas instituições europeias. A prática de mandar para Bruxelas personalidades de segunda linha não serve. Na crise atual, e perante a dimensão dos desafios dos próximos anos, há que pensar numa remodelação profunda da presente Comissão e num reforço dos seus poderes. Algo difícil, mas que deve ser encarado sem demoras e com a necessária sensibilidade.


Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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