Quando a rede do Ensino Superior Politécnico foi traçada, em finais dos anos 70 do século XX, e foi tomada a decisão de criar Escolas Superiores de Educação nas regiões onde não existiam Escolas do Magistério Primário (para formação de Educadores e Professores) a Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal foi pensada, em meados dos anos 80, por três mulheres, que lhe deram forma e conteúdo: Ana Maria Bettencourt, Maria Emília Brederode Santos e Teresa Martins..O projeto era novo e começou por formar professores em serviço, com competências técnico-científicas, mas a quem faltava formação pedagógica específica. O alargamento do projeto veio a seguir com a formação de Educadores de Infância e Professores do 1º Ciclo em estreita relação com a comunidade envolvente, utilizando metodologias ativas centradas nos estudantes e pedagogicamente inovadoras. Foi um desígnio maior, desde o início, abrir a escola à comunidade disponibilizando recursos humanos e materiais para o desenvolvimento de projetos que não estavam confinados às paredes da Escola. A Escola constituiu-se desde cedo, e na sua totalidade, como um centro de recursos abertos à comunidade. Hoje a oferta formativa da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal é feita em áreas mais diversificadas, que vão desde a formação de profissionais na área da Educação, mas também do Desporto, da Comunicação Social, da Língua Gestual Portuguesa, da Animação Social, da Produção audiovisual, mobilizando equipas de profissionais de reconhecida competência em cada área..Mas nos primeiros anos, ainda sem instalações próprias, foi uma escola sem paredes, tendo funcionado em vários espaços na cidade de Setúbal. Quando houve oportunidade para criar um espaço de raiz, também aqui a inovação teve um lugar de destaque e a escolha recaiu sobre um arquiteto pouco conhecido em Portugal, mas já com trabalho reconhecido no estrangeiro: Álvaro Siza Vieira. Sendo um homem de esquerda, as suas simpatias político-partidárias não lhe tinham facilitado a vida antes do 25 de abril de 1974..Duas destas mulheres conheciam o seu trabalho e o desafio veio a seguir: convidar Siza Vieira para desenhar o projeto e negociar com a tutela, na altura Ministério da Educação e Cultura, um programa de construção completamente diferente do que estava definido para os edifícios escolares e que não acarretasse mais custos do que os previstos em sede de Orçamento..Numa região economicamente fragilizada, onde a crise da indústria naval, nos anos 80", tinha provocado o aumento do desemprego e atirado para situações de pobreza extrema um elevado número de famílias, estas três mulheres queriam dar à região o melhor que pudessem e fizeram construir uma Escola desenhada pelo melhor arquiteto da altura..A convicção profunda sobre o papel fundamental da educação no desenvolvimento das sociedades refletiu-se nas apostas pedagógicas que foram sendo feitas. Desenvolvendo projetos com a comunidade, apoiando as escolas e os professores da região, criando equipas multidisciplinares e dinâmicas, abrindo a Escola ao resto do Mundo através de projetos educativos com os PALOP e outros países europeus..No centro de todo este movimento esteve sempre um nome: Ana Maria Bettencourt..Incansável defensora da educação como promotora do progresso e da inovação social e instrumento indispensável no combate às desigualdades; ativista preocupada com a participação democrática e com o exercício da cidadania na Escola (o trabalho próximo com Rui Grácio, a seguir ao 25 de abril de 1974, foi fonte de aprendizagem importante); dinamizadora de equipas e projeto. Ana Maria Bettencourt foi, e ainda é, a guardiã de uma vontade maior, e coletivamente partilhada, que foi colocar Setúbal no mapa do Ensino Superior..Foi Presidente da Comissão Instaladora da ESE/IPS e, já nos anos 90", passado o período de instalação, foi Presidente do primeiro Conselho Diretivo democraticamente eleito, foi também Presidente do Conselho Científico..Mas as designações só importam se vierem carregadas de conteúdo e o percurso de profissionalismo e compromisso com as causas da Educação de Ana Maria Bettencourt foi distinguido esta semana com a atribuição do Prémio de Professora Emérita do Instituto Politécnico de Setúbal. A pandemia não permitiu que a festa fosse alargada, mas a emoção tomou conta de quantos assistiram à cerimónia de entrega do Prémio, pelo atual Presidente Pedro Dominguinhos, e testemunharam ao longo do tempo a entrega total com que Ana Maria Bettencourt sempre soube, e sabe, estar em tudo aquilo com que se compromete..O reconhecimento deste percurso individual é também um tributo a quem soube estar à frente do seu tempo e acreditou que a educação é um importante motor de desenvolvimento porque opera através das qualificações dos recursos humanos, sobretudo nas regiões mais pobres e muitas vezes esquecidas..Termino dizendo que somos todos herdeiros do legado destas mulheres, e em particular de Ana Maria Bettencourt, que quiseram fazer uma escola ao serviço da região e aberta ao mundo, por isso temos de honrá-lo e defendê-lo..Diretora da Escola Superior de Educação do Instituo Politécnico de Setúbal