Um trailer interminável

Este artigo contém spoilers, mas não da crise política. Depois de novelas orçamentais, apocalipses parlamentares e cenários eleitorais, admito ter perdido o saco, arrumado o computador, fechado o caderno, desligado o telefone e rumado à sala de cinema mais próxima. Aí fui eu. Pela primeira vez desde a chegada da pandemia, olhei para os cartazes e comprei um bilhete. Sem Tempo Para Morrer, o último 007 de Daniel Craig, depois de cinco filmes que mudaram em muito a perspetiva do espião britânico, era a escolha óbvia. A banda sonora, de Hans Zimmer, não perdeu os sons de assinatura. Craig, criticado por sentimentalismo nesta sua despedida, foi Craig. Bond, nem por isso. Dirigido por Cary Joji Fukunaga, tornado célebre como realizador da primeira temporada de True Detective, o filme não perde no que se vê nem no que se ouve, mas no que se conta. As paisagens interplanetárias, Itália, Jamaica, Noruega, Londres e as Ilhas Faroé, os climas e as culturas contrastantes, os gadgets, os Aston Martin, Q, M, Moneypenny e Felix Leiter estão todos lá. O arco narrativo, a coerência no enredo, as marcas de um episódio da saga James Bond, não estão.

Sem Tempo Para Morrer, que demora a irónica duração de duas horas e 43 minutos, é o primeiro Bond em que o protagonista não é Bond. Temos um novo agente 007, que é mulher e afrodescendente, desfazendo o recente tabu mediático em torno da etnia e do género possíveis para o herói. Temos uma mulher e uma filha (uma "família", como ele hesita em dizer) e até coelhos de peluche pendurados entre o cinto e o coldre da Walther PPK. Nada disso seria mau ‒ ou próximo de inaceitável ‒ se fizesse sentido. Em 163 minutos de longa-metragem, Fukunaga tinha espaço para que assim fosse. Infelizmente, não o conseguiu.

Sem Tempo Para Morrer começa como filme de terror (um homem mascarado assassina uma mãe alcoólica diante da filha, numa casa rodeada por um lago gelado), passa para filme de ação, entra em comédia (demasiadas vezes com inside jokes forçadas, como se se tratasse de um anúncio televisivo), regressa à ação (em registo super-heróico) e termina em tragédia. A volatilidade do género ao longo da produção faz com que nenhum deles seja particularmente explorado ou capaz de ser absorvido pelo espectador. Dito de outro modo: o terror não mete medo; a comédia não tem graça; a ação não entusiasma; a tragédia não comove. É um interminável trailer sem o condão da surpresa. Tem saltos no tempo gratuitos ("cinco anos mais tarde...") e uma pressa repentina, a meio, que confunde. Bond casa, separa-se, divorcia-se, demite-se e é pai com uma única constante: continua aos tiros e a beber.

Sem Tempo Para Morrer não é um blockbuster que arriscou não oferecer um final feliz ‒ algo que, mais uma vez, não seria negativo ‒, é antes um filme que tentou quebrar todas as regras de um 007 clássico, acabando entalado entre elas. Se Spectre, depois de Skyfall, foi desapontante por regressar ao normal entre Bonds, Sem Tempo Para Morrer desilude por querer ir a todo o lado sem alcançar lado algum. Não tem o vilão ou a femme fatale de Casino Royale. Não tem a deslumbrante cena da ópera Tosca ou o ritmo de Quantum Of Solace. Não tem, e esta é capaz de ser uma primeira vez, qualquer momento passional. É, quase totalmente, um Bond platónico. Isto é, algo que não Bond.

No fim, morre quase toda a gente. Leiter, Blofeld, um colegial da CIA, um cientista russo, um botânico que colhe venenos, e o próprio Bond de Daniel Craig, sob uma chuva de mísseis. A conclusão do seu consulado merecia melhor desfecho. Inclusivamente, já que necessário, uma melhor morte.


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