Um povo inimigo?

Num dos seus repentes misóginos de amante traído, Cesare Pavese escreveu a seguinte frase: As mulheres são um povo inimigo, como o povo alemão. Pondo entre parênteses a questão das mulheres (e há hoje autoras feministas radicais que consideram os homens como um povo inimigo...), podemos compreender que, à data em que Pavese escrevia, no meio dos horrores da Segunda Guerra Mundial, ele pudesse ver o povo alemão como um povo inimigo da Humanidade. Mas há povos amigos e povos inimigos, essencialmente e por cima de todas as circunstâncias?

Carl Schmitt, um importante jurista alemão da mesma época, considerava os conceitos de "amigo" e "inimigo" como fundadores do pensamento e da ação política. Mas entre os Estados, como é sabido, não há amigos permanentes, há apenas interesses mais ou menos permanentes. Se uma determinada situação geopolítica pode condicionar duradouramente os agentes internacionais, não é menos certo que os conceitos de "amigo" e "inimigo" só se podem referir às lideranças concretas e às ações específicas dos agentes num momento dado e não a raciocínios abstratos fora da História.

Vem isto a propósito da recente e infeliz (a meu ver) caraterização da Rússia como "Estado terrorista" feita pelo Parlamento Europeu. Repare-se que, ao condenar um Estado e não um governo ou um regime, o Parlamento Europeu parece dar um passo no sentido do desabafo de Pavese, considerando a Rússia como um inimigo estrutural, e não conjuntural, da Europa e da Humanidade.

Um jovem alemão dizia, há tempos, com ironia, a um amigo russo: "Vais habituar-te agora a desempenhar o papel que nós tivemos durante muitos anos de inimigo da Humanidade.

Embora fatalmente eu vá ser considerado putinista e não sei mais o quê por defender que se distinga a nação russa das ações e políticas de Putin, reitero aqui, por descargo de consciência, que considero Putin um dirigente de extrema direita belicista e agressivo, extremamente perigoso para o equilíbrio internacional e para o seu próprio povo. Apoio naturalmente a defesa da Ucrânia, nação barbaramente agredida. Mas considerar a Rússia como um Estado terrorista equivale a dizer que qualquer poder na Rússia e qualquer regime que ela possa vir a ter continuará inevitavelmente a ser inimigo e pária da Europa e da Humanidade.

Não aceitar a existência independente da Ucrânia e querer aniquilar o seu Estado soberano é um desafio à realidade, de alguém que se julga Pedro o Grande. Mas pretender a destruição da Rússia como Estado é um outro desafio à realidade, de alguém que se julga senhor absoluto dos tempos e dos destinos.

A Rússia, com as suas tentações eslavófilas e euro asiáticas e o seu messianismo irredentista, sempre viveu uma relação problemática com a Europa a que pertence e a Europa sempre manteve uma relação de desconfiança com o território que, ligando-a à Ásia, lhe lembra que geograficamente não somos mais, como dizia Valéry, do que um cabo dessa mesma Ásia. Mas nem tudo é determinado pela geografia, pois são os povos e as suas lideranças que, mal ou bem, fazem a História. E assim como não há povos amigos por natureza, também não há povos inimigos por essência.

Por isso, aplaudo o voto das quatro deputadas do PS português que se abstiveram na votação desta declaração do Parlamento Europeu.

Um jovem alemão dizia, há tempos, com ironia, a um amigo russo: "Vais habituar-te agora a desempenhar o papel que nós tivemos durante muitos anos de inimigo da Humanidade".

E, no entanto, o mundo move-se...


Diplomata e escritor

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