Um país que arrisca desistir de si próprio

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O falecimento de três pessoas enquanto esperavam por ambulâncias do INEM, na mesma semana em que este organismo implementou um novo sistema de triagem, é algo que não pode ficar sem consequências. Caso contrário, corremos o risco de, em breve, vivermos num país onde este tipo de situações passam a ser banais.

O que aconteceu nos últimos dias não é um acidente estatístico, nem um episódio isolado. É o culminar de anos de degradação acumulada no sistema de emergência médica, denunciada repetidamente pelos próprios profissionais do INEM, pelos bombeiros e por sucessivos relatórios internos. Só esta semana, três pessoas morreram enquanto aguardavam socorro - uma no Seixal, outra na Quinta do Conde e outra em Tavira - todas com tempos de espera superiores aos previstos na triagem de emergência.

Mas estes três casos recentes são apenas a face mais visível de um problema que se arrasta há anos. Em 2024, durante as greves dos técnicos de emergência pré-hospitalar, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde abriu inquéritos a 12 mortes ocorridas nesse período, concluindo que, pelo menos, três estiveram diretamente associadas a atrasos no socorro, o que já motivou a abertura de um processo criminal, três inquéritos da IGAS e outros tantas auditorias do próprio INEM. Antes disso, já se acumulavam episódios de grávidas a dar à luz em ambulâncias, utentes deixados horas em macas nos corredores das urgências e falhas repetidas na articulação entre hospitais e meios pré‑hospitalares - um cenário que se agravou progressivamente nos últimos anos do Governo de António Costa e nos mandatos da AD, com crises sucessivas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A Comissão de Trabalhadores do INEM tem sido clara: houve “anos de forte desinvestimento”, com falhas nos recursos humanos, nos meios técnicos e na organização interna, deixando o instituto incapaz de responder às necessidades reais do país. Quando o presidente do INEM afirma que o instituto “fez o seu trabalho” e que o problema é a falta de ambulâncias disponíveis, está a admitir aquilo que todos já percebemos: o sistema está tecnicamente montado, mas operacionalmente falido.

E é precisamente aqui que reside o perigo. Quando três mortes em 48 horas deixam de ser um escândalo nacional e passam a ser apenas mais um ciclo noticioso, entramos numa zona moralmente inaceitável. Um país que normaliza a morte por falta de socorro é um país que desistiu de si próprio.

O Governo pode anunciar mais ambulâncias - como fez esta quinta-feira, prometendo 275 novas viaturas -, mas a verdade é que o problema não se resolve apenas com compras. O que falta é liderança, planeamento e coragem política para enfrentar a raiz do problema: um SNS que perdeu capacidade de resposta e um INEM que opera no limite, dependente de equipas exaustas e de uma rede de urgências frequentemente colapsada.

O que aconteceu esta semana não pode ser tratado como uma fatalidade. É uma responsabilidade. E responsabilidades têm nome, têm história e têm consequências. Se tudo ficar na mesma e nada mudar, não será preciso esperar muito para que a próxima morte por falta de socorro deixe de nos chocar. E quando chegarmos a esse ponto, teremos perdido algo muito mais grave do que um serviço público: teremos perdido a noção do que significa viver numa sociedade decente.

Diretor do Diário de Notícias

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