Publicado em Março de 2025, Heranças Imperfeitas (Tinta-da-China) reúne um conjunto de ensaios sobre literatura; ensaios absolutamente imprescindíveis para quem gosta de literatura, para quem a lecciona, especialmente nos ciclos Secundário e Universitário; para quantos, na investigação e nas bibliotecas, nos arquivos bibliográficos e centros de pesquisa persistem em considerar a literatura não uma matéria reservada a uns poucos, mas, em vez disso, uma arte – a mais complexa das artes, porque recriadora de linguagens – axial em qualquer país que se deseje civilizado. E, no fundo, de civitas se trata, porquanto Helena Buescu defende – e bem – articulando os conceitos de “imperfeição” e de “herança” compreende quanto, para se saber de literatura, se exige entendê-la como construção da modernidade. São indissociáveis, sob este prisma, estes dois lexemas: “literatura” e “modernidade”, ambos recentes, mas ambos conceitos (para usar um termo da autora) que, apesar de “intempestivos”, são, por isso mesmo, anacrónicos, levando-nos “a reflectir sobre a falta de propriedade de uma determinada acção num determinado momento” (p.25); intempestividade intrínseca à literatura e à sua circulação (ensino, edição, tradução, investigação), porque no gesto (crítico) do “irmos atrás” dessa intempestividade e anacronia, somos levados a “ir para a frente”, uma vez que ler é reler e a literatura, como património de linguagens e de textos, de cânone em movência, implica a re-criação.No cômputo geral dos ensaios aqui compilados têm especial relevância os três de abertura: “Herança, imperfeição, as contradições do moderno”; “Literatura e património” e “Um exemplo do cruzamento de tradições na poesia lírica medieval galaico-portuguesa”. Este último como que serve de modelo ancilar à prática hermenêutica de Helena Buescu, a que a ensaísta aplica em muitos outros momentos deste livro, seja lendo o sopro épico em Manuel Gusmão e a questão do poema longo (absolutamente fascinante, diga-se, esta leitura crítica), seja debruçando-se sobre Rubem A. ou Eça de Queirós e o seu Singularidades de uma rapariga loira, lido esse conto à luz do conceito de alegoria, seja ainda quando se dedica a escalpelizar a temporalidade à luz de uma patologia do tempo em Camilo (Amor de Perdição e A Queda dum Anjo), ou propondo um exercício comparatista entre Cesário e Saramago, ou aventurando-se em reler Ricardo Reis como expressão anti-moderna de Pessoa. Os ensaios sobre autores e obras são, portanto, a acção crítica depois de, nos ensaios “Herança, imperfeição, as contradições do moderno” e “Literatura e património”, se definir um posicionamento teórico. Relendo Ovídio, Bernardo Soares, Florbela e Jorge de Sena, que propõe Helena Buescu? Que a literatura se leia, se conceba e se defenda justamente como território onde identificação, preservação, desejo de transmissão e poder activo e estruturado (“a sua capacidade de ser ‘arte entre as artes”) refaz, recria, inclui e modula o próprio humano. Não estamos longe, parece-me, nesse ensaio capital que é Literatura e Património da lição de Manuel Gusmão da literatura como “criação de mundos possíveis”, mas a essa ideia central no pensamento gusmaniano (sobretudo em Uma Razão Dialógica), junta-lhe Helena Buescu uma noção especialíssima de “património”. Se Garrett e as suas Viagens são, na nossa literatura, uma fonte inescapável, diga-se que, a reboque dessa ideia de literatura como património (de que o Romanceiro é outra coluna a reler urgentemente), Helena Buescu compreende ainda outro conceito sem o qual ler-se a literatura se torna sempre gesto incompleto: simbolicamente, escreve, a literatura não existiria sem a identificação, a preservação e a transmissão. Repositório de memórias, a literatura é “arquivo”: desde a descrição do escudo de Aquiles na Ilíada, de Homero, às vanguardas e destas às propostas de revisitação dos clássicos por autores como Saramago, ou Pessoa.. Os Lusíadas (1572) é, neste conspecto, o “pilar fulcral” do nosso património cultural e literário. Texto omnívoro, que se apropria de outros textos da historicidade pretérita e lança a textualidade de textos futuros, transformando-se, assim, em “lugar-comum”, na conhecida proposta de Pierre Nora: um lugar-comum aplicado a uma obra de arte literária é “lugar de memória”. Isto acontece com a épica camoniana, mas igualmente se aplica à Comédia de Dante, ao Quijote, de Cervantes. Por se tratar de património de uma língua, tem ainda Helena Buescu a sageza de relacionar essa ideia de absorção de textos, ou de contaminação textual, com as questões da língua. As variantes do português por esse mundo fora são, a pretexto de Os Lusíadas, a realização concreta desse património proveniente da literatura.É impossível, neste espaço, dar conta das consequências de certas ideias essenciais que este livro sobre literatura nos propõe. Mas deveria ser de leitura obrigatória, este livro, na formação de professores de português e de literatura, posto que, num tempo de acelerada desmemória (as reformas no ensino do português nos últimos 30 anos obedecem a uma estratégia de terraplanagem de obras axiais do cânone nacional); numa época, como a nossa, de facilitação das aprendizagens do literário (direi mesmo, da inexistência de uma sólida formação em teoria e crítica literária), este Heranças Imperfeitas, pela agudeza e criatividade de certas interpretações de obras do nosso património, bem como pela forma didáctica como Helena Buescu esclarece as relações entre literatura, língua, cultura, política e sociedade, é, também ele, lugar de memória.Se a literatura é sempre “uma experiência da vida”, da tradução à vivência das bibliotecas, não esquece Helena Buescu de nos dizer que ela é também o lugar onde se resolve a nossa relação com o passado, relendo-o, tornando-o identidade nossa num “a fazer” contínuo que age retro e prospectivamente. Isto é: literatura como conhecimento de obras e dos seus mecanismos de laboração; literatura como processo em progresso, ou seja, re-conhecimento. Professor, poeta e crítico literárioEscreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico