Um G7 muito especial

A cimeira número 47 do G7 começa hoje no Reino Unido. Embora o primeiro-ministro britânico seja o anfitrião, a estrela maior será Joe Biden, que escolheu a ocasião para efetuar a sua primeira viagem ao estrangeiro. Vai passar uma longa semana na Europa, mostrando assim que o continente europeu continua a ser um palco importante em matéria de diplomacia e reforço das alianças externas norte-americanas.

Esta tem tudo para ser uma cimeira marcante. As declarações feitas nos últimos dias confirmam as inquietações que já expressei aqui no DN, há um mês, aquando da reunião preparatória dos ministros dos Negócios Estrangeiros. A intenção de Biden parece ser a de transformar o G7 naquilo que o Conselho de Segurança da ONU não consegue ser: uma plataforma de entendimento entre grandes democracias liberais, capaz de dar uma resposta coordenada às questões universais e de fazer frente às ambições globais da China e às ameaças que a Rússia possa representar. No fundo, trata-se de procurar salvaguardar a hegemonia americana, não de um modo isolado como Donald Trump preconizava, mas sim com os aliados mais sólidos dos EUA.

Para tornar essa aliança mais eficaz, associam ao grupo a África do Sul, a Austrália, a Coreia do Sul e a Índia. Esta adição é estranha e incompleta. Deixa de fora muitos Estados importantes. É certo que este não é o momento para vastos encontros presenciais. Também é verdade que a decisão sobre quem vem sentar-se à mesa cabe ao anfitrião. Só que os outros membros teriam igualmente uma palavra a dizer sobre a matéria. Ora, ninguém insistiu para que o México, o Brasil, ou outros, fossem convidados.
A leitura que pode ser feita deixa poucas dúvidas: a América Latina está em crise e passou a contar pouco mais que nada no xadrez internacional. Encontra-se, de qualquer modo, na esfera de influência norte-americana. Não precisaria de ser ouvida.

A África esteve representada em cimeiras anteriores por três ou quatro países. Desta vez, quase ficou de fora. A presença de Cyril Ramaphosa, o presidente sul-africano, pode ser vista como os britânicos a dar uma mão à manutenção da estabilidade na África do Sul, de modo a tranquilizar certos setores da sua população. O resto do continente é uma preocupação menor. Aliás, o Reino Unido foi o único país do G7 que decidiu reduzir o orçamento da cooperação, a pretexto da pandemia. O corte é de 4 mil milhões de libras. Terá um impacto negativo considerável, numa altura em que os países menos desenvolvidos necessitam de apoios excecionais.

Do lado do Médio Oriente, ninguém quer ouvir falar de Abdel Fattah el-Sisi, o general que manda no Egito, e ainda menos de Recep Erdogan ou de Mohammed bin Salman. Na ótica do G7, o Médio Oriente está a perder interesse estratégico. Por outro lado, o Irão passou para a órbita da China - a 27 de março foi assinado um acordo de cooperação mútua para os próximos 25 anos, abrindo assim uma saída aos iranianos, que ficaram mais livres das sanções americanas e ocidentais.

Na Ásia, a grande aposta centra-se na Índia. É, no entanto, uma cartada complexa e de risco. Narendra Modi é um radical nacionalista hindu, que está a arrastar a maior democracia do mundo para uma crise civil intensa. É igualmente um protecionista, pouco disposto a abrir a economia a estrangeiros. Oferece, no entanto, uma ilusão: a de poder vir a ser um importante contrapeso face à China.

A China é, aliás, a principal preocupação que Biden traz na bagagem. Quer transformar o G7 num dique contra o expansionismo chinês. Veremos se o consegue, para além da menção no comunicado final. Quanto a Boris Johnson, a bandeira que lhe permitiria apresentar a reunião como um sucesso seria uma declaração sonora de apoio às campanhas de vacinação nos países mais pobres, de modo a conseguir ter 60% dessas populações vacinadas até ao final de 2022.
A haver um compromisso nesse sentido, então este G7 terá sido útil. Os líderes poderão cantar vitória, mesmo considerando que dezembro de 2022 significará mais um ano e meio de incertezas e restrições. Nessa perspetiva, ajudar os outros tão depressa quanto possível é do interesse vital de todos nós, a começar pelo G7.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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