UE - gás russo, americano ou pluralidade de fornecedores?

A discussão em torno do Nord Stream 2 internacionalizou-se e é agora objeto de uma iniciativa no Senado dos EUA que pretende impor sanções adicionais à Rússia como se o Nord Stream 2 fosse apenas um projeto russo; a sociedade Nord Stream AG tem como acionistas a russa Gazprom (51% do capital social), as alemãs Wintershall Dea e PEG Infrastruktur AG (E.ON) (cada 15,5%), a holandesa Gasunie (9%) e a francesa Engie (9%).

Com o Nord Stream 2 alguns países do leste europeu perderão relevantes receitas decorrentes de direitos de trânsito dos gasodutos. Mas, compreendendo-se o trauma histórico do período soviético, deve culpar-se apenas a Rússia por, em relação a um dos principais produtos que exporta, não querer estar dependente de países que todos os anos propõem a instalação de mais milhares de mísseis da NATO a si apontados?

Por seu lado, a China necessita de muito gás natural para as próximas décadas - 688 mil milhões de metros³ (bcm) /ano em 2050. Trata-se da fonte de energia que irá ser utilizada para substituir o carvão (responsável em 2020 por 57% da energia consumida na China) que é a principal causa da poluição nas urbes chinesas. O governo chinês impôs metas e prazos às províncias; estas e as empresas chinesas procuram fornecedores de gás de qualquer proveniência. Com a deterioração de relações com os EUA e a Austrália, as empresas chinesas reforçaram a procura por fornecedores alternativos. As empresas russas aproveitaram esta oportunidade de acesso a um fantástico novo mercado de enorme potencial nas próximas décadas. Já tinha sido montado um primeiro gasoduto no Extremo-Oriente - o Power of Siberia - com 3000 km, abastecendo a China, com capacidade para 60 bcm de gás natural / ano.
Está a ser construído um novo gasoduto denominado Power of Siberia 2, que vai abastecer a China com 80 bcm de gás natural / ano. Este gás provirá da região de Yamal, a zona com as maiores reservas de gás da Rússia. Precisamente a região donde virá o gás que vai alimentar o Nord Stream 2 (55 bcm de gás natural / ano).

O governo alemão anteviu com clarividência histórica a necessidade de garantir o fornecimento de gás russo para a UE antes que novos gasodutos fossem construídos na Rússia para abastecer a China. Além de destarte aumentar a interdependência energética e económica entre a UE e a Rússia.

Durante muitos anos os projetos Nord Stream não foram um problema. Até que as empresas americanas aumentaram significativamente a sua produção de gás natural (sobretudo shale gas, produzido através de fracking). Em 2015 o shale gas americano produzido diariamente era 1,047 bcm; em 2040 estima-se que seja 2,265 bcm. Este gás adicional tem que ser escoado para novos mercados. Com a guerra comercial entre os EUA e a China, o mercado europeu tornou-se não apenas apelativo mas necessário para esse escoamento. A pressão das autoridades dos EUA nesse sentido é compreensivelmente alinhada com as empresas americanas; não é necessário travesti-lo de "interesse estratégico comum". Mas o interesse dos países europeus é diversificar os fornecedores, não diminuí-los.


Consultor financeiro e business developer
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