Ucrânia: quais os deveres da China?

No início da semana, Olaf Scholz reuniu-se por videoconferência com Xi Jinping. Um dia depois, foi a vez de Emmanuel Macron. Imagino que houve acerto de posições entre os dois líderes europeus, apesar do encontro presencial entre ambos só ter tido lugar umas horas após a reunião virtual do chanceler alemão com o presidente chinês. Xi Jinping está convencido que o reforço da unidade europeia permitirá, a prazo, uma maior autonomia da Europa em relação aos EUA. Por isso, deve ter comparado as intervenções de Scholz e Macron, para ver se vão no mesmo sentido, quanto ao essencial.

A grande questão, numa extensa agenda de assuntos a tratar entre a China e a Europa, é a da guerra na Ucrânia. Xi voltou a repetir frases que já havia pronunciado anteriormente - a segurança da Europa deve estar nas mãos dos europeus; é fundamental construir uma nova estrutura de segurança na Europa que tenha em conta as preocupações de todas as partes; a China tem agido diplomaticamente para que a paz volte à Ucrânia, a começar pela insistência num cessar-fogo e no respeito pela integridade territorial do país; continua a promover as soluções multilaterais, por reconhecer o papel central da ONU; e, finalmente, a China defende a globalização dos mercados. À partida, estas declarações são positivas. Mas que significam em termos concretos, quando se trata de pôr termo à agressão russa contra a Ucrânia e de travar os riscos de alastramento do conflito?

Scholz, Macron e o conjunto da liderança europeia têm de ir mais longe e confrontar sem ambiguidades Xi Jinping: que pretende a China fazer para contribuir com todo o seu peso político e económico para que a Rússia de Vladimir Putin cesse as hostilidades e respeite a soberania do seu vizinho? As videoconferências têm de ser mais exigentes e explorar o que significam, na prática, as grandes declarações de princípios. A gravidade da situação internacional requer um diálogo que vá além do faz-de-conta.

A China, para além do seu estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, é uma potência global, por muito que isso custe a alguns dirigentes ocidentais. Ambas as realidades, em Nova Iorque e no mundo, dão à China direitos e responsabilidades. E no caso da violação da soberania da Ucrânia, a China tem o dever de contribuir ativamente para o regresso da paz e da lei internacional. Não pode utilizar o argumento de que se trata apenas de um problema europeu e que por isso cabe aos europeus resolvê-lo. E nós também não devemos insistir nessa linha.

Estamos, isso sim, perante um conflito que pode pôr em causa a paz e a segurança internacionais de modo dramático, nomeadamente se houver recurso a armas não-convencionais. E que já tem um impacto bastante alargado sobre a segurança alimentar, as cadeias de abastecimento, os preços da energia e outras dimensões que levam ao empobrecimento de milhões, e ainda mais acentuado nos países economicamente mais frágeis.

No essencial, a minha mensagem é que a Europa tem de falar de modo mais assertivo com a China. Xi diz que é pela paz e pela ordem internacional, pela centralidade das Nações Unidas. Pergunte-se-lhe, então, como traduz esses admiráveis axiomas num processo de paz para a Ucrânia.

Entretanto, decorreu ontem em Tóquio a cimeira anual entre a UE e o Japão. Charles Michel e Ursula von der Leyen lideraram a delegação europeia. E começaram por lembrar que o Japão é o parceiro estratégico mais importante para a Europa na região do Indo-Pacífico, o que deve ter despertado uma certa atenção em Beijing. A intensificação das sanções contra a Rússia foi um dos temas centrais da discussão. Há uma convergência de vistas entre Bruxelas e Tóquio sobre o assunto. Mas também aqui teria sido estratégico discutir como envolver a China. Essa é hoje uma das grandes interrogações. Não chega escrever no comunicado final que a UE e o Japão irão "aprofundar o intercâmbio com a China", nomeadamente nas áreas políticas e de segurança. Isso é mera conversa para chinês ver.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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